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Para a tristeza dos estudiosos das Finanças, num daqueles paradoxos do conhecimento, quanto mais nos aprofundamos, parece que cavamos cada vez mais no subterrâneo
“Quando a morte veio buscá-lo, Thomas Buddenbrook ficou confuso e desesperado. Nada do que acreditava o consolava: nem a religião, que há muito tinha deixado de satisfazer às suas necessidades metafísicas, nem seu ceticismo e sua inclinação pelo materialismo de Darwin. Nada, nas palavras de Mann, conseguiu oferecer ao doente uma só hora de calma, ao se aproximar dos olhos penetrantes da morte.”
Recorro a Irvin Yalom e sua “Cura de Schopenhauer” para começar a semana. Ah, sim, também a música “I still haven’t found what I’m looking for”, de Bono Vox — que parece uma canção de amor, mas faz é uma canção sobre a fé. Em que acreditar depois de ter percorrido tudo e ainda não ter encontrado algo que ressone dentro de você? Poderia ainda ser uma versão mais brasileira: “Ideologia, eu quero uma pra viver”.
Esse sincretismo meio maluco me veio à cabeça enquanto lia Howard Marks, em mais um de seus brilhantes memorandos. Na semana passada, ele publicou: “The illusion of knowledge” (A ilusão do conhecimento).
Duas passagens sintetizam a ideia central do texto.
A frase de Daniel J. Boorstin: “o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento”, que poderia ser vista como uma variação da proposta de Nassim Taleb: “não ter mapa é melhor do que dispor de um mapa errado.”
E alguns parágrafos extraídos de artigo do historiador Niall Ferguson na Bloomberg: “considere por um momento o que está implícito quando propomos a pergunta: 'a inflação fez seu pico?’ Não estamos apenas perguntando sobre a oferta e demanda de 94 mil commodities diferentes, produtos manufatureiros e serviços. Estamos também questionando a respeito da trajetória futura da taxa básica de juros nos EUA, que, apesar da política de forward guidance, está longe de ser certa. Estamos perguntando sobre a sustentabilidade da fortaleza do dólar, à medida que isso tem segurado o preço dos produtos importados.
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Mas tem mais. Estamos, ao mesmo tempo, implicitamente perguntando quanto tempo vai durar a guerra na Ucrânia, dado que a ruptura nas cadeias produtivas causada desde fevereiro pela invasão russa exacerbou de maneira significativa a inflação de energia e os preços dos alimentos. Estamos perguntando se os produtores clássicos de petróleo, como a Arábia Saudita, vão atender aos pedidos do Ocidente por aumento da produção de óleo.
Provavelmente, deveríamos nos perguntar sobre os impactos sobre o mercado de trabalho das novas subvariantes da ômicron – dados do Reino Unido indicam que a BA.5 é 35% mais transmissível do que sua antecessora BA.2, que, por sua vez, era 20% mais transmissível do que a ômicron original.
Boa sorte ao adicionar todas essas variáveis ao seu modelo. Na realidade, é tão impossível ter certeza sobre o futuro da inflação quanto sobre o futuro da guerra na Ucrânia e a trajetória da pandemia.”
A ideia da impossibilidade de se fazer previsões fora de ambientes de laboratório e fora do Hard Science (ciências naturais ou exatas) não é propriamente nova. Não precisamos ir muito longe: Sextus Empiricus, homenageado em nosso batismo, escrevera “Contra os professores”. A realidade nunca poderá caber numa planilha ou num modelo econométrico. Por mais sofisticados que sejam, os modelos somente poderão contar com conhecimento sobre o presente e o passado, enquanto as decisões envolvem o futuro, que ainda está para acontecer, sempre permeado por uma série de coisas novas.
Até aí, nada muito novo, além da habilidade quase sem precedentes de Howard Marks de descrever o fenômeno em linguagem popular e capaz de nos entreter. Irvin Yalom está para a psiquiatria assim como Howard Marks está para a economia e finanças.
Agora, sejamos muito sinceros: sem a capacidade de enxergar minimamente o futuro, sobra pouca coisa da literatura acadêmica ou prática para nos iluminar na gestão dos investimentos.
Pensemos no value investing clássico, que se assenta na ideia de que, ao comprar ações, adquirimos pedaços de empresas, de tal modo que essas compras devem ser feitas por preços inferiores a seus valores intrínsecos. O diabo é que este valor intrínseco, por mais sofisticados, diligentes e apoderados de eventual margem de segurança que estejamos, sempre estará sujeito a hipóteses sobre o futuro. O que seria um modelo de fluxo de caixa descontado, formulado originalmente por John Burr Williams mas apropriado por Buffett e sua turma, senão um conjunto de hipóteses sobre o comportamento futuro?
Em muitas situações, diferenças entre value e value trap (um caso realmente de valor, barato; e uma armadilha de valor, algo apenas aparentemente barato) serão conhecidas somente a posteriori – depois, claro, vai ficar óbvio e seu cunhado vai lhe perguntar: “como você não percebeu antes?”
As adjetivações e os rótulos na Faria Lima e no Leblon vão pelo mesmo caminho. O persistente não é nada além de um teimoso que deu certo, uma pessoa com quem a distribuição de probabilidades acabou sendo generosa. Quantos teimosos ficaram pelo caminho? E quantos foram agraciados com os louros da vitória pela deusa Fortuna?
“Ah, mas a antifragilidade talebiana resolveu esse problema pra gente.” Na teoria, até o socialismo funciona. Como escreveu um pobre autor em “Princípios do Estrategista" (o prefácio é muito bom!; pausa dramática para a sabedoria popular: o saco é o corrimão do sucesso): “as ideias do Taleb são tão boas que se rendessem dinheiro era sacanagem”. No dia a dia, principalmente no Brasil, o hedge é caro, não há opções líquidas fora do dinheiro, tem squeeze, preço exagerado das opções, dificuldades de sizing e timing e por aí vai. Boa parte dos fundos de tail hedging perde dinheiro.
Então nos resta o factoring investing! Pronto, matou! Como não sabemos o futuro e o mercado é um bocado eficiente, distribuímos nosso dinheiro de maneira diversificada por vários prêmios de risco ao redor do mundo. Por construção, na média vamos ganhar dinheiro. De novo, faz sentido, mas o diabo está nos detalhes. Na hora da crise, quando você mais precisa do dinheiro, as correlações históricas são quebradas. Tudo anda na mesma direção. Não há real diversificação. E se não há diversificação adequada, não pode haver factoring investing. O método só funciona a partir dessa premissa.
Para a tristeza dos estudiosos das Finanças, num daqueles paradoxos do conhecimento, quanto mais nos aprofundamos, parece que cavamos cada vez mais no subterrâneo, nos aproximando, não de uma verdade ontológica capaz de bater o mercado, mas do niilismo de “Memórias do Subsolo” de Dostoiévksy. Será que há algo a se fazer?
É curioso como, depois de tanta pesquisa e sofisticação, aquela proposta original de Harry Markowitz, o pai dessa história toda de gestão de portfólio de maneira sistematizada e, portanto, “além do bem e do mal", apelando para uma escolha de bom senso e intuitiva, ainda encontra grande ressonância: na dúvida, compra-se metade em ações, metade em renda fixa.
A simplicidade é a maior das sofisticações.
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