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Mercado financeiro se decepcionou com governo Bolsonaro, mas boa parte ainda o considera um mal menor em relação a Lula
Em 2018, um capitão da reserva chamou a atenção do mercado financeiro ao anunciar uma figura conhecida da Faria Lima e do Leblon como ministro da Fazenda do seu possível futuro governo.
Arvorados na imagem liberal do “Posto Ipiranga” Paulo Guedes, economistas, gestores e analistas deram um voto de confiança em Jair Bolsonaro nas últimas eleições.
Na reta final do pleito, a reação da bolsa às pesquisas de intenção de voto deixavam claras as preferências do mercado. Quando os resultados mostravam vantagem de Bolsonaro, a bolsa subia enquanto o dólar caía.
Da mesma forma, quando as pesquisas indicavam vitória de Fernando Haddad, do PT, acontecia o oposto.
No entanto, após quase quatro anos de um governo que se vendeu como liberal, a Faria Lima e o Leblon não parecem mais os mesmos.
E se antes as críticas a Bolsonaro não achavam espaço para crescer no coração financeiro do Brasil, hoje elas se encontram mais disseminadas.
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Por outro lado, seria exagero enxergar os grandes investidores como oposição ao governo que tenta um novo mandato.
Isso porque a opção viável a Bolsonaro, com votos suficientes para levar a Presidência hoje, é Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula, como sabemos, foi preso em 2018 no âmbito da Operação Lava Jato após condenação em segunda instância, e não pôde disputar as eleições daquele ano.
Assim, os gestores que não querem a volta da esquerda ao cargo máximo do Executivo usam a corrupção que marcou os anos de governo do PT como argumento para votar em Bolsonaro.
Por outro lado, existem outros membros do mercado financeiro que veem no atual presidente uma ameaça maior para o futuro do Brasil.
Para entender o que estão pensando os grandes investidores à direita e à esquerda da Faria Lima, procurei aqueles que costumam se posicionar publicamente a favor e contra os dois líderes das pesquisas, Bolsonaro e Lula.
Dos gestores e analistas abertamente pró-Bolsonaro com os quais tentei contato, todos se recusaram a dar entrevista, mas seguiram expondo suas visões políticas nas redes sociais.
Já os gestores críticos ao governo e que devem votar em Lula até toparam falar, mas na condição de anonimato.
Algo que ficou claro analisando as redes sociais dos gestores mais ativos do chamado “fintwit” foi que a identificação com o governo se dá não apenas pelo viés econômico, mas também pelas pautas de costumes.
Porém, se em 2018 esse vínculo era demonstrado de forma mais explícita, hoje ele acontece de maneira mais indireta por alguns dos profissionais mais respeitados.
É possível analisar o caso de Henrique Bredda. O sócio e gestor da Alaska Asset Management trocou o Twitter pelo Instagram no ano passado, sob a justificativa do seu Instagram trazer um conteúdo mais completo.
Em seu perfil com mais de 350 mil seguidores, Bredda escreve sobre temas alinhados ao pensamento conservador que norteiam o governo Bolsonaro, como a defesa da religião, da família, da masculinidade e do agronegócio, além de outras postagens atacando pautas progressistas.
O conteúdo sobre economia também está lá, mas quase sempre associado a um viés político. Mas em nenhum momento há uma menção direta a Bolsonaro ou ao governo. Vale ressaltar que quase nenhuma publicação de Bredda é aberta para comentários.
Existe, também, um outro perfil de profissional do mercado financeiro que, numa análise superficial, critica tanto o governo quanto a oposição. Porém, ao investigar um pouco mais a fundo, é possível encontrar uma tendência favorável ao bolsonarismo.
Confira a seguir alguns exemplos de postagens favoráveis a Bolsonaro de profissionais do mercado:
Muitos gestores populares na esfera do fintwit na verdade não têm tanta representatividade assim quando o assunto é dinheiro sob gestão. Os maiores “tubarões” do mercado em geral são mais reservados nas manifestações públicas.
Mas duas vozes experientes e com grande trânsito na Faria Lima e no Leblon falaram sobre o que esperam das eleições deste ano: Luis Stuhlberger, da Verde Asset, e Rogério Xavier, da SPX.
No evento de 25 anos do estrelado fundo Verde, em junho, Stuhlberger disse a seguinte frase: 'Nas ruas dizem: é um psicopata contra um incompetente bem-intencionado'.
A análise desagradou tanto a ala bolsonarista quanto a ala petista e Stuhlberger foi acusado, ao mesmo tempo, de defender e atacar tanto Lula quanto Bolsonaro.
Já Rogério Xavier, num evento do Credit Suisse em fevereiro, disse que os estrangeiros preferem Lula a Bolsonaro.
“Sou acusado de petista quando digo isso, mas não matem o mensageiro. Pessoal aqui fora gosta do Lula”, disse Xavier, que vive em Londres.
Do lado dos gestores que devem votar em Lula, parece haver menos identificação com o candidato petista e mais uma rejeição ao presidente Bolsonaro.
“Qualquer presidente que não seja débil mental vai ser melhor que Dilma ou Bolsonaro. Lula tem todos os problemas dele, mas não é débil mental”, disse o economista-chefe de uma gestora que não quis ser identificado.
Para ele, a expectativa de um terceiro mandato de Lula é de que ele seja apenas “normal”. Ele exemplifica, dizendo que espera haver um mínimo de lógica, como um ambientalista no ministério do Meio Ambiente.
Vale lembrar que, até junho de 2021, quem esteve à frente da pasta do Meio Ambiente na gestão Bolsonaro foi Ricardo Salles. Ele ficou marcado por dizer numa reunião ministerial de abril de 2020 que aquele momento, no qual só se falava de pandemia, era propício para “passar a boiada” nas regulações ambientais.
O economista reconhece que um aspecto positivo do governo Bolsonaro foi a gestão das estatais, mas ele diz não ter convicção de que isso se mantenha numa eventual reeleição.
Isso porque os ataques de Bolsonaro à política de preços da Petrobras têm despertado no governo o desejo de modificar a Lei das Estatais para aumentar o poder de influência nessas empresas.
“Para mim, é um ataque aberto à Lei das Estatais”, afirmou.
Na opinião dele, Lula não é o candidato ideal e poderia ser melhor se não estivesse amarrado com propostas econômicas do governo Dilma.
“Mas Lula com um Marcos Lisboa ou um Henrique Meirelles como possíveis ministros da Economia é totalmente palatável”, disse.
Lula ainda não anunciou quem vai compor sua equipe econômica num eventual terceiro mandato e, de acordo com outro gestor que pediu anonimato, isso não deve acontecer antes dele ganhar as eleições.
“A gente só vai começar a ter algum tipo de noção sobre um eventual governo Lula quando começar a dar nome aos bois”, afirmou o profissional.
Ele vê com bons olhos para o Ministério da Economia o nome de Pérsio Arida, um dos idealizadores do Plano Real e próximo a Geraldo Alckmin, candidato a vice na chapa do petista.
Mas ressalta que tudo iria abaixo caso Lula decidisse colocar alguém como Guido Mantega, ministro da Fazenda do seu segundo mandato e no primeiro governo Dilma.
Apesar das pesquisas indicarem que, se as eleições fossem hoje, Lula venceria Bolsonaro, o gestor não vê o mercado financeiro abraçando essa ideia.
Para ele, a impressão é de que o mercado em 2019 era ultra bolsonarista, mas, com o passar do tempo, a maior parte se afastou dessa ideologia.
“Porém, num eventual segundo turno, esses que se afastaram continuam com a impressão de que Bolsonaro é um mal menor e acabam votando nele. O mercado não aprendeu nada nesses anos todos”, avaliou.
De acordo com o gestor, o modelo mental do mercado financeiro coloca em primeiro lugar a ideologia antes de outros aspectos.
“Então, no momento em que existe alinhamento ideológico, há um aceite de diversas transgressões e violações”, afirmou.
Mas, afinal, como seria o presidente ideal para o tal mercado? Do ponto de vista econômico, o receituário liberal segue como o preferido, mas entre aqueles que têm Lula como o preferido — ou “menos pior” — surgiram outras preocupações, incluindo pautas sociais e ambientais.
Para um dos profissionais com quem eu conversei, seria um político profissional, que conhece a relação com o Congresso e tem uma agenda de centro. Ele também teria potencial de atrair uma boa equipe econômica.
Outro gestor, mais inclinado a votar em Lula em outubro, cita como exemplo o recém-eleito presidente do Chile, Gabriel Boric, de esquerda.
“Ele tem uma plataforma que inclui aumentar o gasto social, mas deixou bem claro antes de ser eleito que nada seria feito sem aumentar a arrecadação de impostos. Acho que o Brasil poderia ir para essa mesma linha”, exemplificou.
O gestor se diz fã da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, principalmente no trato que ela teve com a pandemia.
“Ela ouviu e entendeu sobre proteção social e teve um desempenho incrível”.
Enquanto a Faria Lima não encontra um candidato ideal com condições de vencer as eleições, resta votar no que considera o mal menor.
Mas o que o mercado financeiro parece ver de bom em cada um dos candidatos é que um não é o outro.
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