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2021-04-14T14:15:54-03:00
Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril.
Relembre a história

Crime e castigo: Bernie Madoff, responsável pela maior pirâmide financeira da história, morre na cadeia

Condenado a 150 anos de prisão, financista que fraudou US$ 20 bilhões e enganou milhares de investidores morreu em desgraça aos 82 anos. Conheça sua história e relembre seus crimes.

14 de abril de 2021
14:08 - atualizado às 14:15
Bernie Madoff, condenado pelo maior esquema de pirâmide da História
Bernie Madoff, condenado a 150 anos de prisão pela maior pirâmide financeira da História. Imagem: Reprodução CNBC

O financista Bernie Madoff, preso por ter orquestrado o maior esquema de pirâmide financeira da História, morreu na cadeia, aos 82 anos, aparentemente de causas naturais.

A notícia foi passada por uma fonte à agência Associated Press e confirmada pelas emissoras americanas CBS e ABC News junto ao federal Bureau of Prisons dos Estados Unidos nesta quarta-feira (14).

A agência responsável pelo sistema prisional federal americano disse que a causa da morte de Madoff ainda será determinada por avaliação médica. O financista morreu no Federal Medical Center, pertencente ao complexo prisional federal de Butner, Carolina do Norte, onde Madoff passou seus últimos 12 anos de vida.

No ano passado, os advogados de Madoff haviam tentado libertá-lo da prisão em razão da pandemia de covid-19, alegando que ele sofria de doença renal terminal e outras doenças crônicas, mas o pedido foi negado.

Do topo ao fundo do poço

A vida de Bernie Madoff foi uma história exemplar de um personagem que atingiu o mais absoluto sucesso para depois morrer em completa desgraça. O financista se tornou mundialmente conhecido no final de 2008, quando foi preso por ter orquestrado um esquema de pirâmide bilionário, que desmoronou logo depois do estouro da bolha dos subprime.

Antes da crise de 2008, Madoff, que já havia sido presidente da bolsa de valores Nasdaq, era um incensado executivo de Wall Street à frente da até então bem-sucedida firma de investimentos Bernard L. Madoff. De origem de classe média, ele e o irmão, Peter, eram os típicos homens de negócios self made americanos com história de superação.

A credibilidade e bons resultados de Madoff na gestão de recursos lhe renderam milhares de clientes, de todos os níveis de renda, que iam de aposentados da Flórida, fundações e instituições de caridade a celebridades e outros ricaços, como o diretor Steven Spielberg e o ator Kevin Bacon.

Só que seu sucesso nos investimentos era resultado de um grande esquema Ponzi, ou esquema de pirâmide, um tipo de fraude financeira que consiste em honrar os pagamentos dos primeiros clientes que põem dinheiro na estrutura com os recursos dos últimos membros a ingressar.

Enquanto a economia e o mercado americanos iam bem, o esquema se sustentou, mas começou a desmoronar quando a crise estourou e a maioria dos integrantes - que não sabiam que estavam sendo enganados - começou a pedir o dinheiro de volta.

Quando isso acontece - e é assim que morrem todas as pirâmides - o responsável pelo esquema não tem como honrar os pagamentos e é desmascarado. As vítimas, por sua vez, ficam no prejuízo. E foi exatamente o que aconteceu com os clientes de Madoff, muitos dos quais perderam todas as economias. Um deles, que perdeu US$ 1,4 bilhão, cometeu suicídio em dezembro de 2008.

Bernie Madoff se tornou o inimigo público número 1 nos EUA na época, a ponto de ter precisado ir a julgamento com um colete à prova de balas, de tão odiado que era. Ele confessou e foi considerado culpado por 11 crimes, tendo sido condenado a 150 anos de prisão em 2009.

O valor total da fraude foi estimado em US$ 17,5 bilhões, dos quais US$ 13 bilhões foram recuperados. À época da prisão de Madoff, o valor que ele divulgava como sendo o do patrimônio dos clientes era de US$ 65 bilhões.

Oficiais do Departamento de Justiça dos EUA criaram um fundo para as vítimas e distribuíram mais de US$ 2,7 bilhões a quase 38 mil deles até abril de 2020. O fundo recebeu mais de 65 mil pedidos de compensação de investidores de 136 países.

Em audiência com o juiz do seu caso, Madoff contou que, quando começou o esquema, acreditava que ele acabaria rápido e que seria capaz de livrar a si mesmo e a seus clientes de prejuízos. "Porém, isso se provou difícil, e finalmente impossível, e conforme os anos se passaram em percebi que minha prisão e este dia eventualmente chegariam", disse, na ocasião.

Traição em todos os níveis

Não foram só os clientes de Madoff que foram enganados por ele. Segundo o advogado do financista contou ao jornal Folha de S. Paulo em 2018, numa série de reportagens sobre os 10 anos da crise de 2008, Madoff escondeu o esquema da esposa, Ruth (com quem era casado desde 1959), dos filhos, Mark e Andrew, e da maior parte dos funcionários da própria empresa.

"Houve pessoas no 17º andar [onde a fraude efetivamente ocorria] que sabiam. O braço direito [Frank DiPascali, morto em 2015] sabia, e algumas outras pessoas que trabalhavam no 17º andar, onde ele conduzia esses negócios. Os filhos não tinham permissão de ir até lá. Havia um cadeado na porta, e ele mantinha os dois longe dali.", disse ao jornal o advogado Ira Lee Sorkin, que chegou a defender também outro famoso vigarista, o lobo de Wall Street, Jordan Belfort.

De fato, Madoff sustentou até o fim que agiu sozinho e assumiu total responsabilidade pelos crimes. Mesmo assim, seu irmão foi condenado a dez anos de prisão em 2012 em razão do esquema.

Tragédia pessoal

Os crimes de Bernie Madoff trouxeram desgraça à sua família. Tudo começou quando o financista revelou seu esquema, que estava desmoronando, a seus dois filhos, e eles próprios contataram o FBI, a polícia federal americana.

Madoff e a esposa chegaram a tentar suicídio na véspera de Natal de 2008, sem sucesso. Os filhos pararam de falar com ele e, perto do aniversário de dois anos da sua prisão, um deles, Mark, se enforcou em seu apartamento em Nova York.

Seu outro filho, Andrew, morreu de câncer em 2014, aos 48 anos. Segundo o advogado de Madoff contou à Folha, Andrew já havia ameaçado a mãe de que ela não veria mais os netos se continuasse a falar com Bernie, e ao menos enquanto o filho estava vivo, Ruth também cortou contato com o marido.

A família ainda sofreu um baque financeiro severo, tendo bens confiscados em 2009. Madoff perdeu toda a sua fortuna pessoal, incluindo seus imóveis milionários, investimentos e US$ 80 milhões em ativos que sua esposa havia alegado serem pessoais dela. Ruth, que ainda está viva, ficou com US$ 2,5 milhões.

Se você acha que a vida de Madoff e seus crimes renderiam um filme, isto de fato aconteceu. Sua ascensão, estilo de vida perdulário e queda foram retratados no filme da HBO "The Wizard of Lies" ("O Mago das Mentiras", em português), estrelado por Robert De Niro no papel do financista e baseado no livro homônimo da jornalista do New York Times, Diana Henriques.

*Com informações da Associated Press, CBS e ABC News.

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