Com inflação no radar, BC deixa a porta aberta para mudança de rota; veja o que a ata indica para o futuro dos juros no Brasil
Após elevação de 1,50 ponto porcentual na semana passada, para 9,25% ao ano, autoridade monetária antevê outro ajuste da Selic na mesma magnitude

Há alguns meses, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmava ter um plano de voo para os juros que não seria alterado a cada novo vento contrário que comprometesse o desempenho da economia brasileira.
Mas o jogo virou, e o comandante desse voo pode ajustar a rota para evitar a turbulência provocada pela inflação. Pelo menos é isso que mostra a ata da última reunião do Copom divulgada nesta terça-feira (14).
O que mostra a ata da Copom
O documento indicou que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) deve promover um novo aumento da Selic, como a taxa básica de juros é conhecida no Brasil, em fevereiro.
Após nova elevação de 1,50 ponto porcentual na semana passada, para 9,25% ao ano - maior patamar em quatro anos - o BC disse hoje que, para a próxima reunião, "antevê outro ajuste da mesma magnitude".
No entanto, a autoridade monetária deixou a porta aberta para mudanças, indicando que os passos futuros poderão ser ajustados de modo a garantir a convergência da inflação para as suas metas.
A autoridade monetária voltou a dizer que as próximas decisões vão depender da "evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante".
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[captacao]
Inflação e sua expectativas
Como no comunicado com a decisão, o Banco Central foi incisivo sobre a continuidade do aperto monetário até que se consolide o processo de desinflação e a ancoragem das expectativas em torno de suas metas.
"O Copom considera que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista", diz o comunicado.
A ata mostra ainda que a alta de 1,50 ponto porcentual da Selic é uma decisão que "reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva".
O Banco Central ainda repetiu que a decisão "é compatível com a convergência da inflação para as metas ao longo do horizonte relevante", que inclui os anos de 2022 e 2023.
Além disso, o BC voltou a pontuar que o aumento do juro a 9,25% "também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego".
Expectativa para os juros
Com a alta de 1,50 ponto percentual decretada na semana passada, o BC cumpriu com o prometido na reunião de setembro e deu continuidade a um dos programas de aperto monetário mais intensos do mundo — ao todo, a taxa básica de juros brasileira deu um salto de 7,25 pontos apenas em 2021.
David Becker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch (BofA), lembra que o comitê afirmou que pretende deixar a Selic mais alta do que o esperado no cenário básico, bem como que o ritmo de alta de 1,50 ponto percentual é adequado para conseguir a convergência da inflação para a meta e o re-ancoramento das expectativas.
Além disso, segundo Becker, a ata sugere um cenário externo menos favorável, considerando a variante ômicron do coronavírus, o setor habitacional na China, os preços de commodities e as condições financeiras mais desafiadoras.
“Apesar do tom agressivo da ata, esperamos que o BC desacelere seu ritmo de alta na próxima reunião para 1 ponto percentual. A inflação surpreendeu para o lado negativo e a recuperação econômica tem sido mais lenta do que o esperado em meio a interrupções na cadeia de suprimentos e cenário doméstico adverso”, diz Becker.
Segundo ele, a atividade econômica brasileira deve continuar se deteriorando, o que pode aumentar a pressão para que o Copom desacelere o ritmo de alta da Selic.
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