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Por que o IPO do Nubank pode ser uma armadilha para principiantes na bolsa

Ao longo dos tempos, e ponham tempo nisso, os principiantes em investimentos chegaram atrasados aos lançamentos como o IPO do Nubank

14 de novembro de 2021
7:44 - atualizado às 8:03
Homem segurando um smartphone com o aplicativo do banco na tela e o cartão Nubank (NU/NUBR33) na mesa
Imagem: Shutterstock

Para quem ainda não sabe, agora é possível negociar na B3 algumas ações listadas nas bolsas de Nova York. O pagamento é feito em reais, no Brasil, assim como em reais são cotados os papéis, evidentemente que convertidos de dólares no câmbio do momento da transação.

Esses papéis são conhecidos como BDRs (Brazilian Depositary Receipts).

Recentemente, o Banco Itaú, ao invés de distribuir dividendos em dinheiro, entregou aos seus acionistas BDRs (XPBR31) da XP, empresa na qual o Itaú tinha grande participação.

Para os acionistas, foi um péssimo negócio. Desde que receberam os BDRs da XP, este papel caiu de R$ 231,50 para R$ 190,90, um tombo considerável de 17,54% (esses valores são de 8 de novembro).

Agora o Nubank, em seu IPO, está também oferecendo BDRs, que representam uma fração da ação que será negociada nos Estados Unidos.

Muita gente que é novata no mercado pode achar que se trata de um bom negócio, só porque passou a possuir clones de uma ação de Wall Street.

Não é bem assim. Aliás, antes de continuar, você pode ler esse artigo mais rapidamente também pelo nosso Instagram.

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Trocando ideias com os especialistas Rodrigo Natali, Pedro Cerize e Nícolas Merola, fiquei sabendo que eles consideram caros os preços desses BDRs do Nubank.

No prospecto de lançamento apresentado à SEC (Securities and Exchange Commission – Comissão de Títulos e Câmbio, xerife do mercado americano, equivalente à nossa CVM) a faixa de preço das ações do Nubank está entre US$ 10,00 e US$ 11,00. Já para os BDRs, entre R$ 9,35 e R$ 10,29.

Os recém-chegados ao mercado de renda variável devem se abster dessas operações inovadoras, antes que entendam o beabá das bolsas.

Sugiro que comecem com investimentos em ações de empresas sólidas, de larga tradição e que paguem bons dividendos.

IPOs, principalmente esses lançados fora do país como o do Nubank, são mais difíceis de avaliar. 

Se o caro amigo leitor não tem vivência de mercado, ou pouco tempo para acompanhá-lo, é melhor entregar seu dinheiro a um fundo de renda variável que tenha um retrospecto de respeito.

Embora ganhos passados não representem garantia de lucros futuros, são no mínimo um bom indício de que esse fundo continuará tendo boa performance.

Ah, antes que eu me esqueça. Sua (ou seu) gerente de banco não é a pessoa mais indicada para lhe indicar o fundo. Eles recebem orientação de seus diretores e supervisores, que sempre decidem o que é melhor para a… ora vejam, para a instituição.

Chegando tarde demais

Ao longo dos tempos, e ponham tempo nisso, os principiantes em investimentos chegaram atrasados nos lançamentos.

Melhor explicitando: entraram na hora em que os lançadores estavam se livrando de seus papéis ou ativos os mais diversos.

Comecemos pela primeira febre especulativa da história. 

Estou me referindo à tulipomania, ocorrida no século 17.

Quando se fala nesse episódio, as pessoas costumam ter a ideia errônea de que foi um fenômeno no qual todos saíram arruinados.

Ledo engano.

Tal como em toda corrente ou pirâmide, aqueles que chegaram em primeiro lugar, puxando os preços dos bulbos de tulipa, ganharam fortunas.

O prejuízo recaiu sobre os que entraram no auge da febre especulativa, quando o mercado tornara-se totalmente irracional, se é que podemos classificar o início como racional.

Nas páginas 346 e 347 de meu livro Os mercadores da noite (edição da Inversa), narro dois episódios quase simultâneos, acontecidos no início do século 18.

Menos de 100 anos depois (da tulipomania), mais precisamente na década de 1730, agora tendo Paris como cenário, um escocês, de nome John Law, para uns gênio das finanças, para outros espertalhão, falsário e, até mesmo, assassino – batera-se em duelo de maneira não muito leal, em Londres, em 1694 −, estabeleceu a Compagnie d’Occident. Esta foi agraciada pela coroa francesa com os direitos de exploração de ouro no território da Louisiana, na época pertencente à França.

Law ofertou ações da nova companhia ao público. A aceitação foi fantástica, embora não houvesse nenhum indício da existência de ouro na Louisiana. Uma investigação mais apurada mostraria que a Compagnie d’Occident nem mesmo chegou a iniciar uma prospecção. Mas isso era um detalhe irrelevante para os especuladores parisienses. Lançaram-se ávidos à compra e venda dos novos papéis, no velho mercado de valores da Rue Quincampoix.

Em 1720, o mercado vacilou. Um príncipe, De Conti, suscitara algumas dúvidas sobre a existência daquele ouro. John Law respondeu aos rumores contratando centenas de mendigos nas ruas de Paris. Equipou-os de pás e picaretas. Fê-los marchar pela cidade, como se dirigissem à Louisiana. Mas, quando, algumas semanas depois, os especuladores viram os pedintes de volta, em seus pontos tradicionais, perderam as esperanças. O mercado desabou, lançando na miséria milhares de investidores.

Enquanto em Paris as pessoas se lançavam em busca da fortuna fácil, em Londres não se fazia por menos. A South Sea Company, fundada por Robert Harley, conde de Oxford, vendia ações ao público, acenando-lhe com a possibilidade de lucros gigantescos, a serem obtidos na exploração das riquezas da costa ocidental da América do Sul. Relegava-se a um segundo plano o fato de que a Coroa de Espanha, soberana das terras em questão, autorizava a South Company a fazer uma única viagem anual à região.

A febre tomou conta dos investidores ingleses. Entre janeiro de 1720 e o fim do verão daquele ano, quando sobreveio o crash, as ações da South Company pularam de 128 libras para mil.”

Tanto no episódio da Compagnie d’Occident como no da South Company, os primeiros que entraram, e caíram fora no auge da febre, lucraram fortunas.

Coube aos novatos financiá-los.

Embora verídicas, as três histórias acima são meio folclóricas, envolvendo apenas as pessoas mais ricas e os burgueses da Holanda, França e Inglaterra.

Já os Esfuziantes Anos Vinte (The Roaring Twenties) foram episódios especulativos que alteraram o rumo da história, tendo como consequência a Grande Depressão, a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra Mundial.

Vamos inventar um personagem e inseri-lo no contexto da década de 1920.

Peter Williams era um pequeno comerciante de Salina, no centro-norte do Kansas. Casado, esposa dona de casa e três filhos em idade escolar, o lucro de sua loja de ferragens dava para o gasto da família.

Ao longo dos Twenties, Williams viu muitos de seus vizinhos enriquecerem. Enriquecerem e deixarem de ser seus vizinhos, mudando para o lado mais valorizado da estrada de ferro.

De vez em quando, Williams encontrava um deles.

Poxa, Pete, não sei por que você ainda não vendeu sua loja e aplicou no mercado de ações. Já teria multiplicado seu capital por dez ou vinte vezes. Nós estamos nos transformando em uma sociedade de ricos e você vendendo alicates, arame farpado e parafusos.”

Peter Williams acabou liquidando seu comércio e entrando na ciranda de Wall Street através do escritório de uma sociedade corretora local.

Crueldade minha inventar isso, mas ele começou no mercado justamente na terça-feira 3 de setembro de 1929, dia seguinte ao do Labor Day (dia do Trabalho), quando o Índice Industrial Dow Jones da NYSE (New York Stock Exchange) fez a máxima do bull market mais famoso de todos os tempos.

Se tivesse comprado ações da RCA (Radio Corporation of America), da The Texas Company (Texaco) ou da General Electric, e tivesse uns 25 anos de paciência pela frente, até teria ganho algum dinheiro.

Mas não.

Peter Williams adquiriu ações de uma empresa que comprava cotas de fundos, que por sua vez compravam cotas de outros fundos, que por sua vez compravam cotas de outros fundos e que por sua vez não compravam absolutamente nada. Seus “gestores” simplesmente embolsavam o dinheiro dos cotistas.

Conselhos do mestre Telê

Voltando aos tempos atuais, caros amigos, por favor, não tentem jogar na primeira divisão se ainda jogam descalços num campo de terra de um time de várzea.

Mesmo que sejam os craques de suas equipes.

Quando algum jovem chegava para uma experiência num time treinado por Telê Santana, este avisava:

Vou lançar a bola em direção à linha de fundo. Você corre atrás. Quando ela estiver quase saindo do campo você, com apenas um toque, cruze sobre a pequena área. Se conseguir, vou pô-lo para treinar.”

Diz o Cafu, sim, o Cafu, campeão do mundo em 2002, que só foi conseguir lá pela décima tentativa.

Portanto, meus caros amigos leitores e leitoras, se você está começando hoje no mercado, não vá procurar BDRs internacionais como os do Nubank.

Metaforicamente, você vai sair pela linha de fundo com bola e tudo. Isso se não der uma furada desmoralizante e desabar no gramado.

Um forte abraço, 

Ivan Sant'Anna

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