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Precisamos falar sobre a Petrobras.
Os fatos do último final de semana nos entregaram nosso pior pesadelo? Estaríamos vivendo um Dilma 3.0? Os extremos se distanciam a ponto de se reencontrarem pelo fio condutor do populismo?
A esta altura, há semelhanças preocupantes, mas também, ao menos até agora, existem diferenças. Havemos de encontrar uma análise equilibrada e serena. Reconhecer a concretude dos problemas, sem falsas esperanças, ao mesmo tempo que não se encaminha pelo discurso fácil de “todos são exatamente iguais” e de que estaríamos condenados à explosão do dólar, do fiscal, dos juros, da economia e dos valores.
O que aconteceu nos últimos dias foi bastante grave. Não podemos tergiversar sobre isso. Todos sabíamos da falta de convicção liberal do presidente, dos interesses eleitoreiros, do populismo e das dificuldades institucionais típicas do Brasil. Não são esses os fatos novos. Nenhuma novidade aí.
Há, no entanto, três ineditismos no ocorrido.
O primeiro: muitas dessas coisas antes se restringiam ao campo do discurso, da retórica e da narrativa. Havia muitas declarações ruins, mas nem tantos atos no mesmo sentido destrutivo.
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O segundo: a esperança de alguma melhora substancial já vinha muito deteriorada. Os próprios preços dos ativos nos diziam isso diariamente. O real está claramente depreciado, temos a curva de juros mais inclinada do mundo e a Bolsa brasileira oferece uma das piores performances em dólares desde o início de 2020. Contudo, também prevalecia alguma sensação de que, ainda que tivéssemos uma enorme dificuldade com a execução de novas coisas positivas, de um bom encaminhamento de reformas, por exemplo, ao menos não pioraríamos tanto. Daríamos ao menos consecução a algumas conquistas do governo Temer, sedimentando-as com o passar do tempo — aliás, o curso da História julgará cada vez melhor a era Temer. O final de semana foi não somente a perda de esperança em um futuro melhor, mas um passo para trás. Um ferimento à lei das estatais, ao livre mercado e uma potencial ofensa à Lei das SA. Explico: conforme a última, os administradores de uma companhia devem atuar em prol do melhor interesse desta mesma companhia — e de nenhum outro. Como o Conselho de Administração da Petrobras poderá aprovar o novo presidente e justificar o ato como algo em favor da empresa?
O último: o ressurgimento do risco de cauda. O medo de uma real explosão da economia brasileira. Ainda que seja, neste momento, um evento de baixa probabilidade, só a existência de alguma probabilidade de ocorrência de um cisne negro ou cinza já é muito ruim para os ativos locais.
Há algum tempo — e isso me parece escapar da maior parte dos analistas —, a função do ministro Paulo Guedes, infelizmente, deixou de ser engendrar um amplo programa de reformas fiscais e liberais. O tal choque do capitalismo deixou a desejar — mas tudo isso já estava e está no preço dos ativos. A tarefa do falso Posto Ipiranga, que não parece mais capaz de responder na prática às perguntas do chefe, passou a ser a de garantir o zero a zero, o que, dadas as circunstâncias, já é muita coisa. O que aconteceu na sexta-feira (19) é que não apenas deixamos de avançar, mas recuamos. Tomamos um gol. Na verdade, um golaço do adversário.
Cobram do ministro uma postura firme sobre os recentes acontecimentos. O que imaginam ser uma reação adequada?
Criticar publicamente o presidente abriria uma crise institucional, colocando em risco o próprio cargo. “Ora, por que ele não sai então? Está sendo conivente.” Ao contrário, ele sabe da responsabilidade e das consequências que viriam com sua saída. Se ainda há alguma esperança de não termos um Dilma 3.0 por completo, ela reside na permanência do ministro, que está lá para evitar uma grande goleada. Se esperam um grande atacante, acho que deveriam desistir. Temos, na melhor das hipóteses, um bom goleiro.
Ao mesmo tempo, se ele elogiasse a decisão sobre a Petrobras e as lamentáveis declarações sobre “novas mudanças por aí” e a “metida de mão na energia elétrica”, aí, sim, poderíamos ver conivência — quem colocou Roberto Castello Branco lá foi o ministro Guedes! Seu silêncio não é ensurdecedor. Ele é revelador. Guedes resiste ali para evitar um novo fim do Brasil.
Será capaz?
A esta altura, a verdade é que não sabemos.
Vejo dois caminhos possíveis.
No primeiro, convivemos com intervencionismos pontuais, medidas populistas sucessivas, mas razoavelmente brandas, acompanhadas de pequenas aprovações de medidas de controle fiscal. Reformas microeconômicas e, quem sabe, a administrativa e uma ou outra privatização isolada.
No outro, encampamos de vez o populismo e intervenções supostamente keynesianas, talvez aqui até com a eventual saída do ministro Guedes, que, por mais ciente da responsabilidade e dos desdobramentos de sua demissão, não compactuaria com a completa estupidez da gestão da política econômica. Todos têm seus limites.
Ainda não há na mesa todas as informações disponíveis para decidirmos entre um e outro cenário. O futuro insiste em ficar no futuro, impermeável. Por ora, parece-me que algo mais perto do primeiro panorama, com algumas pinceladas do segundo, é o caminho mais provável.
Algumas consequências já podem ser antecipadas. A primeira delas é o aumento do prêmio de risco-Brasil. Para comprar qualquer ativo brasileiro, diante da incerteza e do retorno do risco de cauda (Robert Barro demonstrou como prêmios de risco se ligam à possibilidade de eventos raros), todos exigirão algum desconto. Ninguém vai dar o benefício da dúvida ao governo.
Os impactos maiores, claro, serão sentidos pelas ações da Petrobras e de outras estatais. Pelas declarações do final de semana, o setor elétrico e, em menor medida, até o de distribuição de combustíveis podem também estar em xeque. Juro longo e câmbio também devem ser especialmente afetados.
Para a Bolsa como um todo, o jogo parece estar mais voltado a alfa do que a beta. Ou seja, o Ibovespa como um todo pode ficar para trás frente a outras Bolsas globais — ainda que o ambiente global nos seja bastante favorável, com volta do crescimento sincronizado, aceleração do processo de vacinação e volta à normalidade, juros muito baixos, enorme liquidez, commodities em patamares elevados e bom desempenho de mercados emergentes.
Temos um contexto em que vai ser mais exigida do investidor uma boa seleção de ações, em detrimento a uma onda sistêmica e irrestrita de valorização dos ativos de risco brasileiros. Os filhos de um bull market generalizado podem morrer jovens, embriagados com a própria volúpia típica dos adolescentes e jovens adultos.
Felizmente, essa boa seleção de ações é possível. Para nosso caso, tivemos duas excelentes notícias no final de semana.
Lojas Americanas e B2W negociam uma fusão e unificação de seus veículos em Bolsa. Melhora a governança, aumenta a liquidez, ganha peso nos índices, colhe benefícios fiscais e tributários, colhe sinergias financeiras e operacionais. Era uma das “dez surpresas projetadas para 2021” e parece se encaminhar muito bem. “Na veia” para o case de LAME, que negocia a impressionantes 15 vezes lucros.
E, segundo notícia de Lauro Jardim, Bradesco e BB se preparam para fechar o capital da Cielo, no que era um dos pilares de nosso racional para a montagem de uma pequena posição na companhia.
Se pararmos para pensar, aquele personagem fictício da campanha estava certo: mais Brasil, menos Brasília. O jargão está em alta na B3. Os bons investidores em ações serão premiados — mas talvez só eles.
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