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Um grupo de pequenos investidores se une para “derrubar” tubarões do mercado que apostaram compra uma varejista de videogames. São todos inocentes, ou são todos culpados?
Olá, seja bem-vindo ao nosso papo de domingo sobre tecnologia e investimentos.
Infelizmente, a maioria dos investidores locais não acompanham o mercado internacional.
Lá fora, o assunto do momento é a GameStop, a bolha mais insana que eu já presenciei. Não pela sua magnitude, mas por ter se transformado numa luta de classes.
Numa boa… essa história da GameStop faz o rally das criptomoedas de 2017 parecer brincadeira de criança.
Deixa eu te contar o que rolou, você vai se divertir e aprender horrores sobre como funcionam os mercados.
Ok, quem é a GameStop?
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Os caras são uma das redes mais antigas de varejo de games dos EUA. Aquele modelão tradicional, da loja que vende consoles, acessórios, brinquedos relacionados aos jogos e afins.
Obviamente, as mudanças no mercado de videogames arrebentaram o negócio da GameStop.
Pela primeira vez, a nova geração de consoles (Playstation 5 e Xbox Series X) estão disponíveis em versão “digital only”, sem o suporte para mídias físicas e num preço mais acessível.
Ou seja, com o mercado de games migrando cada vez mais para o digital, como através dos games gratuitos e a comercialização online (você pode comprar qualquer jogo digitalmente na sua conta do Playstation, do Xbox, ou da Steam se estiver usando um PC), a GameStop se tornou decadente.
Nos últimos anos, sua ação se comportou de maneira “esquizofrênica”, ora subindo quando rumores de que algum investidor estratégico estaria disposto a realizar um turnaround na empresa. Ora derretendo quando os rumores não se confirmavam.
Isso, até umas duas semanas atrás, quando a ação da GameStop passou por um dos rallys mais rápidos e assustadores que eu já presenciei.
Começo como uma diversão. Sério.
Existe um grupo enorme de usuários do fórum WallStreetBets, do Reddit, nos EUA. São mais de 40 mil pessoas.
Em sua maioria, são investidores recém chegados à Bolsa, ainda sem muita experiência e que possuem um valor baixo para investir.
Numa escala de alguns graus de magnitude superior, o WallStreetsBets está para o mercado lá fora, como o Fintweet está para o Brasil.
Esporadicamente, os usuários do fórum elegem uma empresa “favorita” e começam a tomar lotes de opções de compra (as famosas calls) dessa empresa.
Essa enxurrada de demanda, vis a vis a liquidez geralmente mediana dos papéis, pode atrair os algoritmos seguidores de tendência.
Quando o “match perfeito” acontece, o negócio explode em escala.
Na medida em que os bancos lançam novas séries de opções, são forçados a tomar o ativo a mercado, para zerarem continuamente sua exposição ao risco.
Como o ticket das opções é mais baixo, um dólar (potencializado por um alto volume de negociação) influencia em vários dólares o preço do ativo subjacente.
Assim, a ação sobe. E geralmente não é pouco.
É o famoso “pump-and-dump”, feito publicamente, de maneira caótica.
Os alvos dos fóruns costumam ser empresas “conhecidas”. Aqueles empresas cuja a loja você passa na frente voltando para casa.
Ou seja, a GameStop é de fato o exemplo perfeito. Outro exemplo é a AMC, uma das maiores redes de cinemas dos EUA.
Ainda mais interessante é como o Reddit destruiu a reputação de investidores institucionais com bilhões de dólares sobre gestão.
Os sardinhas engoliram e trucidaram o tubarão.
Sempre funcionou assim: quando um investidor relevante montava uma posição vendida, o famoso short, ele publicava suas ideias para o mercado.
Nos moldes da famosa carta da Squadra, apontando fraudes contábeis nas demonstrações do IRB Brasil.
Publicações desse tipo atraíam outros investidores para shortearem a ação, puxando o papel para baixo e fazendo o sucesso do short seller inicial.
Os fóruns de investimento estão desafiando essa ordem estabelecida.
Ao descobrirem o tamanho do estrago que podem causar, os membros do Reddit entenderam que melhor que o short, é o short squeeze.
Entre os casos “selecionados” para o pump-and-dump estão empresas com alto percentual de suas ações shorteadas.
Por quê?
Bom, porque se eles forem bem-sucedidos em inflarem o preço da ação, os fundos vendidos não terão outra opção a não ser tomar lotes do ativo a mercado, para reduzir suas perdas.
Ao fazerem isso, inflarão ainda mais o preço da ação.
O hedge fund Melvin Capital Management, com mais de 2,5 bilhões de dólares sob gestão, era um dos principais institucionais vendidos na GameStop.
As perdas do fundo - que tinha uma performance bastante digna - foram avassaladoras ao ponto de precisar de um resgate.
Em termos bem objetivos, a carreira do Melvin já era.
Para além dos comentários óbvios sobre o risco enorme desse tipo de movimento no mercado, o caso GameStop está escalando para uma espécie de luta de classes.
Os engravatados dão entrevistas menosprezando os investidores que compraram as ações.
Esses investidores respondem com memes do tipo “posso permanecer um idiota por mais tempo do que você pode permanecer solvente”.
E por aí vai.
Estou super curioso para ver onde isso vai dar. Será que a SEC, o regulador do mercado americano, vai intervir?
Somos todos inocentes, ou somos todos culpados?
Sinceramente, eu não sei. Mas estou louco para descobrir.
Se você gostou dessa coluna, pode acompanhar meu trabalho também através do Tela Azul, um podcast semanal e gratuito sobre tecnologia e investimentos, que eu toco com meus amigos André Franco e Vinicius Bazan.
Antes que essa edição fique velha, confira nossas 10 previsões (ousadas) para o mercado de tecnologia e investimentos em 2021.
Você pode nos ouvir no Spotify, e entrar em contato com dúvidas e ideias no e-mail telaazul@empiricus.com.br.
Um abraço!
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