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Eleição americana deu espaço a uma disputa entre políticos brasileiros pelo domínio da imagem do líder moderado capaz de derrotar, em 2022, Bolsonaro
A vitória do democrata Joe Biden contra o republicano Donald Trump na eleição dos Estados Unidos deu espaço a uma disputa entre políticos brasileiros pelo domínio da imagem do líder moderado capaz de derrotar, em 2022, o presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos dias, a busca pelo “Biden brasileiro” despertou articulações, conversas de bastidores e mesmo debates nas redes sociais.
A realidade de Washington, porém, pode não se transpor a Brasília. Nenhum dos que hoje se apresentam como presidenciáveis reúne as principais características do perfil ou da trajetória de Biden.
Há 48 anos na vida pública, o presidente eleito é um conhecedor profundo do Legislativo e centrista convicto que acumula uma imagem conhecida pela sociedade norte-americana. Além dos mandatos em série como senador e dois como vice-presidente (2009-2017), havia disputado as prévias presidenciais do Partido Democrata em 1988 e 2008.
“Um cara mais da política, né? Olha, não surgiu, não”, avalia o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, ao pensar nos traços comuns entre nomes na corrida pelo Planalto e o democrata. “Tem que aguardar. Não é o João Doria, não é o Luciano Huck. O Ciro Gomes não tem esse perfil (agregador)”, afirma, avaliando que o cenário eleitoral de 2022 começa a se consolidar na virada do ano. Interlocutor de Bolsonaro, Kassab aposta que o esforço para a implantação de uma frente unificada contra o presidente não deve vingar.
Esse é o receio de lideranças de oposição ao Planalto. Embora se fale na formação de “frentes” para 2022, até agora, interesses partidários e personalismos bloquearam as composições e mantiveram o cenário de 2018, com a polarização entre Bolsonaro e o PT. Há dois anos, houve grande número de candidatos se apresentando como alternativas às duas campanhas, mas que não atingiram 5% dos votos válidos. O único a desgarrar desse grupo foi Ciro Gomes (PDT), com 12,5%.
Dirigentes partidários e cientistas políticos avaliam que contra Bolsonaro devem se definir uma ou mais composições de centro, entre partidos à direita e à esquerda, como DEM, MDB, PDT, PSB, PSDB, Podemos, Rede, PV, e pelo menos mais uma na esquerda, com PT, PSOL e PCdoB. Nessas frentes, já estão explícitas as resistências à participação dos desiludidos do bolsonarismo, como mostraram as reações adversas a conversas entre o ex-juiz Sergio Moro e o apresentador Luciano Huck. Ambos não têm partido.
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De Biden se esperam atitudes previsíveis, observam analistas. Sua vitória é produto de uma campanha plebiscitária do desempenho de um governo mal avaliado, em que se votou menos no democrata e mais contra Trump. Ele sempre encarnou a imagem de “homem comum”. Por anos deslocava-se de trem de casa ao Senado. Vem de família simples e que enfrentou dificuldades financeiras. Ainda teve a vida marcada por tragédias, com a morte da primeira mulher e de filhos.
A ideia do “plebiscito” aproxima-se do que ocorreu em 2018 no Brasil, quando eleitores de Bolsonaro justificaram a escolha pelo candidato como um veto ao retorno do PT ao poder.
Uma frente ampla de centro precisa ir além de uma aliança eleitoral, segundo o cientista político Antônio Lavareda, para o que ele chama de “confederação dos insatisfeitos”. Ele avalia que as forças de centro poderão mais uma vez amargar uma terceira posição. “Ou se junta o maior espectro da sociedade ou não consegue sobrepujar o presidente e a base dele”, disse. “A aliança terá que ter lógica centrípeta, vir em nome de um candidato ‘mais Biden’”, completa. “Ela só tem chance de êxito se liderar uma confederação mais social, com professores, funcionários públicos, o agronegócio, industriais, trabalhadores, Igreja Católica, segmentos evangélicos, gays, negros, índios, ecologistas.”
Lavareda observa ainda a capacidade do governo de negociar cargos e benesses para formar uma base ampla, num sistema político pulverizado. “A grande diferença e a dificuldade de se encontrar um Biden no Brasil é o nosso sistema partidário. Fragmentado, o campo da oposição não tem mecanismos de atração e cooptação como o governo, uma magnetização.”
Pesquisador do Núcleo de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo, Emmanuel Nunes de Oliveira prevê uma demanda pela experiência política. “Depois de Dilma Rousseff e Bolsonaro, o eleitor tende a pinçar alguém de dentro do sistema político e com experiência em administração pública.” O professor de Ciência Política da USP José Álvaro Moisés também aposta num nome conhecido. “São os líderes com tradição democrática, com carreira e história dentro dos seus partidos e com folha de serviços para oferecer aos eleitores uma contraposição aos populistas”, disse.
Por sua vez, o ex-ministro Roberto Freire, presidente do Cidadania, avalia que os políticos que despontaram no século passado não têm condições de atrair as novas gerações. “Quem imaginar que os protagonistas do século 20 vão ter vez em 2022 está equivocado. Em 2018, pensávamos que a aliança em torno de Geraldo Alckmin podia significar uma resposta para a sociedade. Mas ela não queria mais ouvir esses ‘sábios’ do passado”, disse.
Freire pretende filiar Huck, quem ele enxerga como capaz de reunir centro-direita e centro-esquerda em único projeto. Apesar da disposição em agregar vozes distintas, Huck é um empresário do “show business”, como Trump. Tem se movimentado politicamente sem o ônus de uma filiação partidária e evita o confronto direto com Bolsonaro.
Na corrida de 2022 estão os governadores João Doria (SP), Flávio Dino (MA) e Eduardo Leite (RS), todos sem longa trajetória na política. Por outro lado, a ex-ministra Marina Silva (Rede) não procura protagonismo entre opositores. Já Ciro Gomes (PDT), três vezes candidato ao Planalto, se esforça para aparar arestas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas mantém a aposta no conflito.
O triunfo de um político com perfil moderado nos Estados Unidos pode inspirar um retorno ao passado brasileiro. Nos delicados momentos de transição do País, personagens de centro e experiência no Legislativo tiveram destaque, ainda que acidentalmente.
Em 1985, o ex-governador de Minas Tancredo Neves costurou uma ampla aliança que garantiu a vitória no Colégio Eleitoral, selando o fim da ditadura militar. Em 1992, Itamar Franco, vice de Fernando Collor, aglutinou forças suficientes para retomar a governabilidade pós-impeachment. Com passagem pelo Senado, o empresário José Alencar compôs chapa com Lula, em 2002, e o chancelou no setor produtivo.
O cientista político Fernando Pignaton aposta que reflexos de uma demanda por um “basta” a lideranças extremadas podem surgir das eleições municipais. “Há de se chegar a nomes que proponham transformação social por vias mais moderadas, com avanços seguros”, observou. “Olhando para o Brasil, nos municípios as pessoas não querem prefeitos que sejam extremados.”
O ex-deputado Miro Teixeira (Rede) afirma que só uma reformulação profunda no sistema partidário seria capaz de agregar projetos democráticos. “Quando você olha para organização partidária brasileira tem a sensação de estar na antessala do inferno”, disse.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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