“Quem deixar dinheiro em caixa vai perder chance de ganhar dinheiro”
Se esta crise não for uma oportunidade de colocar o dinheiro para trabalhar não sei quando será, diz Fabio Okumura, sócio e gestor da Gauss Capital; conheça as principais posições da gestora

O ano de 2020 não começou bem para a Gauss Capital. Em janeiro, o principal fundo da gestora que possui aproximadamente R$ 2 bilhões em patrimônio ficou no zero a zero e no mês seguinte sofreu um tombo de 7%.
Mas no fatídico mês de março, quando o resto do mercado sofria com o tombo de 30% da bolsa e a disparada da dólar, a Gauss fechou com uma alta de pouco mais de 1%. Em abril, obteve um retorno de 7,5% e recuperou as perdas do começo do ano.
“Nós estávamos otimistas, o que eu não acho um erro porque o mercado estava pronto para acelerar se não fosse o vírus. Mas corrigimos e viramos a mão muito rápido”, me disse Fabio Okumura, sócio e diretor de investimentos da Gauss, em uma conversa que tivemos por videoconferência.
[captacao]
O ponto da virada para o gestor ocorreu durante o Carnaval, com as notícias sobre os casos de coronavírus na Itália e no Irã.
Foi o sinal de que a pandemia do coronavírus poderia se tornar um problema global, o que levou a uma redução nas posições de maior risco logo no começo do choque nos mercados financeiros globais.
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Caixa não é rei
Diante da grande incerteza sobre a magnitude e os impactos da doença na economia, muitos gestores têm optado por manter uma parcela dos recursos em caixa à espera de uma melhor definição do cenário.
Mas o sócio da Gauss, que antes de montar a própria gestora trabalhou na tesouraria de bancos como Itaú Unibanco e Credit Suisse, é contrário a essa tese.
Para ele, quem mantiver os recursos em caixa, rendendo cada vez menos com a queda das taxas de juros, vai perder a chance de ganhar dinheiro.
“Se esta crise não for uma oportunidade de colocar o dinheiro para trabalhar não sei quando será” – Fabio Okumura, Gauss Capital
Ele se diz “conservadoramente otimista” com relação ao desfecho da crise e reconhece que de fato existe muita incerteza. “Ao mesmo tempo, o deslocamento de preços nas últimas semanas criou muita oportunidade.”
Sem “ideia genial”
Mas onde estão essas oportunidades? O gestor da Gauss disse que não há uma única posição responsável pelos retornos do fundo. “Não tivemos uma ideia genial, nem acho correto investir dessa forma.”
Em abril, a Gauss surfou a alta da bolsa norte-americana, que devolveu boa parte da forte queda no mês anterior puxada principalmente pelas ações de tecnologia.
As cinco grande empresas do ramo – Apple, Amazon, Facebook, Microsoft e Google – respondem por quase 20% do S&P500, principal índice da bolsa da Nova York. Por isso mesmo, ele avalia que não dá para ficar de fora da bolsa norte-americana. “A crise está fortalecendo essas empresas”, diz.
Além de apostar na Amazon, Okumura me disse que se vale de uma das filosofias do fundador da gigante de comércio eletrônico, Jeff Bezos, para orientar os investimentos do fundo no atual momento de incerteza.
“Em vez de tentar adivinhar quais negócios vão sobreviver, tentamos responder o que não vai mudar daqui a dez anos.”
Nesse sentido, o gestor não compartilha da visão extremamente pessimista do mercado hoje para as empresas aéreas. “Pode ser que fique mais caro voar daqui para frente e que mude os protocolos de segurança, mas a indústria não vai acabar.”
De todo modo, a Gauss fez valer a visão mais conservadora adotada na crise e aproveitou a alta recente para reduzir a exposição ao mercado acionário.
A maior posição do fundo, contudo, segue no mercado norte-americano, só que agora na área de crédito.
Com a garantia dada pelo Banco Central norte-americano (Fed) dentro das ações de combate à crise, o gestor aproveitou para colocar na carteira de títulos de dívida de empresas com boa qualidade de crédito (high grade).
Dinheiro difícil no Brasil
O lado conservador do gestor da Gauss também se faz mais presente quando questionado sobre a visão para o mercado brasileiro.
Para Okumura, a turbulência política e a bateção de cabeça no combate ao coronavírus tornam o cenário para investir ainda mais difícil por aqui. Nesse sentido, ele avalia que tem opções melhores e menos arriscadas no exterior.
“A gente não precisa se gabar de ganhar o dinheiro mais difícil do mundo, nosso trabalho é obter o maior retorno possível com menor risco.”
Isso também não significa que a Gauss esteja vendida na bolsa brasileira ou em real. Embora considere que o dólar tem espaço para subir mais, a gestora tem hedge (proteção) da exposição aos ativos no exterior.
No mercado de juros, a gestora tem uma pequena posição em títulos públicos atrelados à inflação. “Não tem como ser gestor vindo de tesouraria no Brasil e ficar fora desse mercado.”
Nos dois grupos que se formaram no mercado depois que o Banco Central surpreendeu ao reduzir a Selic em 0,75 ponto percentual, Okumura faz parte dos que defendiam um corte menor dos juros.
Mas o gestor diz não ser um grande crítico da decisão do Copom. “Entendo que o BC não deveria ter cortado tanto os juros, mas reconheço os desafios neste momento.”
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