Ações da insanidade: setores de tecnologia nos EUA e no Brasil beiram a loucura
Se quiser ver a frente, melhor estar preparado quando a bolha estourar

Quero falar com você sobre um seleto grupo de ações, o qual denomino o grupo da insanidade.
Faço referência ao monitoramento de uma tela com as seguintes características: ações que se valorizaram bastante nos últimos meses/anos e empresas com baixíssima lucratividade (se é que apresentam lucros, muitas delas ainda não mostraram).
[captacao]
Para monitorarmos como essas empresas se encaixam, como se enquadram no mercado em relação a múltiplos e valuations, resta a nós olhar o seu valor na bolsa, comparar com seus faturamentos e fazer uso da expressão do momento, “Total Addressable Market”.
Esta expressão significa avaliar o potencial de crescimento, quais são as possibilidades de penetração e o tamanho do mercado que a empresa pode acessar.
Lá atrás, na época da bolha do Nasdaq, entre 1999 e 2000, período que sempre faço referência em meus comentários, uma das expressões do momento era a quantidade de “Page Views”
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Falava-se muito de uma determinada empresa e sobre o número de visualizações das páginas da companhia, ou seja, o volume de acessos.
Era uma época em que ainda estávamos muito ligados a métricas de sites.
Manicômio de múltiplos
Hoje, evoluímos, o mercado cresceu muito. No entanto, tem algo que se mantém: a natureza humana.
A natureza especulativa de criar bolhas sempre nos acompanhou e sempre seguirá conosco em nossa jornada.
Voltando para o grupo da insanidade, vou compartilhar com você as empresas dessa lista, somente algumas, mas existem muitas hoje em dia.
A primeira é a Tesla, empresa de carros elétricos. A segunda é a Shopify, empresa canadense de forte atuação no comércio eletrônico.
Tem ainda a Uber, que todos nós conhecemos, a Peloton que, de forma irônica, é uma grande bicicleta ergométrica com um iPad na frente conectada a outras bicicletas com iPads na frente.
Aqui no Brasil, temos a Magazine Luiza, a B2W, a Via Varejo e o Mercado Livre, atuante no país e em outros mercados da América Latina.
O Mercado Livre, por exemplo, negocia a múltiplos de 20 vezes o seu faturamento: a empresa vale US$ 50 bilhões e sua receita bruta, em 2019, foi de US$ 2,5 bilhões. Um múltiplo esticado.
Essa Peloton, empresa de bicicleta ergométrica, tem um múltiplo de 35 vezes. Cá entre nós, é a própria insanidade em pessoa (jurídica, naturalmente).
A mágica do zero custo
O mais importante desse comentário que busco fazer aqui é compartilhar um trecho de uma entrevista que foi concedida por Scott McNealy (na época, CEO da Sun Microsystems).
Essa empresa atua no mercado de computação e brilhou nos anos 1980, 1990 e no começo do milênio.
A ação da Sun, que em 1998 valia por volta de US$ 6, atingiu máxima durante o auge da bolha do Nasdaq de US$ 64. Dois anos depois, estava de volta aos US$ 6.
Na ocasião, da entrevista concedida à revista BusinessWeek, o Scott McNealy disse o seguinte, respondendo a investidores que reclamavam do colapso ocorrido com as ações e apontando a distorção existente quando as ações eram negociadas em US$ 64, cerca de 10 vezes o volume de vendas (e veja que aqui no texto dei exemplos de 20 vezes vendas, 35 vezes vendas).
“Com o preço das ações negociando 10 vezes vendas, para que eu consiga devolver seu capital em 10 anos, preciso fazer o seguinte: tenho que te pagar praticamente 100% da receita por 10 anos seguidos através da distribuição de dividendos. Mas aí, o custo dos produtos que vendo tem que ser zero, o que – convenhamos – é algo muito difícil para uma empresa atuando na fabricação de computadores”
Complementando, Scott McNealy aponta:
“Isso assume também que eu não tenha despesas operacionais, complicado administrando uma empresa com 39 mil empregados. Também partimos da preposição de que não pago impostos, o que é muito difícil. Mas isso também assume que você, investidor, não paga impostos sobre os dividendos recebidos, o que nos EUA é ilegal. Também partimos do pressuposto de que eu consiga manter constante minha taxa de crescimento, mesmo não gastando nada com P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) pelos próximos 10 anos, pois estou distribuindo tudo para você. Consegue perceber o quão ridículas são todas essas premissas?”
Em conclusão, Scott McNealy completa:
“Você não precisava de maiores informações, você não precisava de notas explicativas. O que você tinha em mente ao comprar as ações pagando 10 vezes vendas?”
Tecnologia brasileira e dólar forte como falácias
A fala do Scott McNealy é extremamente relevante para o que se passa no mercado hoje, em especial no varejo digital brasileiro, que é o símbolo da tecnologia.
Convenhamos: a gente não tem um setor de tecnologia no Brasil. Mas os brasileiros adoram, com o desejo mimético, replicar as ideias americanas.
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Os investidores fizeram isso lá atrás com Globocabo, fizeram com Inepar e, agora, fazem isso com Magazine Luiza, com Via Varejo, com B2W: é da natureza do brasileiro.
Quando isso vai parar? Quem sou eu para dizer. Mas acho que essa fala do Scott McNealy deve fazer com que você reflita a respeito disso. Você pode optar por ficar fora.
Contudo, o mundo mudou. O mundo é diferente daquele de 2002 quando Scott McNealy concedeu essa entrevista.
Não só falando do mundo de uma forma geral mas, em particular, os EUA mudaram. À época, havia um certo respeito pela moeda americana. Respeito esse que, em um mundo polarizado como esse que vivemos, talvez esteja indo embora.
É bem provável que esteja em curso, tomando emprestado um conceito do acadêmico Luigi Zingales, professor da Universidade de Chicago, de latinização dos EUA.
É possível que, para se manter no poder, os políticos (em particular Trump) vão fazer o que for necessário, mesmo arriscando o futuro dos seus jovens eleitores.
Digo que é possível que essa busca desenfreada por ativos de risco seja um sintoma de uma nação que começa a não acreditar mais em sua moeda.
O longo ciclo de valorização relativa do dólar parece estar terminando.
Sendo assim, no curtíssimo prazo, a única garantia seja de uma maior volatilidade em todos esses ativos.
Portanto, prepare-se.
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