Flight to quality
Dentre as poucas lições construtivas que preciso extrair da desaceleração causada pela pandemia, uma delas tem a ver com negócios.

A pandemia é uma merda, não fico tentando enxergar coisas boas em meio à pura merda.
Se você é um desses que tenta, apague imediatamente este e-mail e compre um livro de autoajuda na Amazon. Boa leitura!
[captacao]
Mas de vez em quando enxergo, mesmo sem querer, as coisas que só vejo quando desacelero.
Dentre as poucas lições construtivas que preciso extrair daí, uma delas tem a ver com negócios.
Tem a ver com a lente que usamos para tentar entender uma empresa, para interpretar uma demonstração de resultados do exercício.
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Tradicionalmente, segundo o modelo fabril, o empresário era induzido a tratar as receitas como algo dado, definido exogenamente pelas forças de mercado, acompanhando um crescimento orgânico.
Talvez o fato de a receita nascer como primeira linha, top line, mais próxima aos céus, conferia a ela uma certa conotação metafísica.
Assim, o grau de atenção dado à DRE respeitava a proporção de sete (ou mais) linhas de custos gerenciáveis para cada uma linha de receita divina.
Dentro desse contexto, praticamente todas as questões de negócio tidas como relevantes diziam respeito a cost saving e choques de eficiência.
Foi como ficou famoso o modelo Falconi, sonho grande do 3G, etc.
No entanto, já um pouco antes da Covid e, principalmente, de agora em diante, essas questões clássicas se tornaram quase obsoletas; certamente, menos representativas do todo que importa.
Não sei mais se árvores vivas não crescem até o céu, mas sei com certeza que, ao morrer, elas não passam do chão.
Por exemplo, a velha pergunta da indústria de transporte aéreo sobre como operar voos com mais eficiência (logística, energética…) foi radicalmente substituída por: como fazer com que seres humanos voltem a entrar em aviões?
Na verdade, essa sempre foi a verdadeira pergunta por trás do negócio. Só havíamos nos acostumado com ela a ponto de "taking it for granted".
Lavagem cerebral corporativa, fomos treinados para esquecer que conversas sobre eficiência tratam de uma pequena parte da empresa, crescentemente irrisória.
Ora, empreendedorismo não é e nunca foi uma função de eficiência.
(Se você é consultor da McKinsey, desculpe, mas alguém precisava te falar isso.)
Empreendedorismo é a mais bem-sucedida investigação — embora ainda repleta de erros — sobre o que as pessoas realmente querem.
Máquinas de lavar louças são boas para lavar louças, mas talvez até melhores para esconder prontamente as louças sujas fora do seu campo de visão enquanto não são lavadas.
Quem tem piscina em casa mergulha só três vezes por ano, mas piscinas permitem que você se acalme olhando para a água e permitem que você vista maiô, biquíni ou sunga num dia de calor à beira da piscina sem parecer um imbecil.
É tudo isso que as pessoas querem.
E se, de repente, elas quiserem outra coisa, um novo negócio vai tratar de descobrir.
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