Sinais de alívio em Brasília deram força ao Ibovespa, mas não tiraram a pressão do dólar à vista
O Ibovespa subiu quase 4%, sustentado pelas declarações públicas de apoio do presidente Jair Bolsonaro ao ministro da Economia, Paulo Guedes. O dólar, contudo, segue acima de R$ 5,65

Desde a última sexta-feira (24), quando o ex-juiz federal Sergio Moro pediu demissão do cargo de ministro da Justiça, os olhos dos mercados estavam atentos ao noticiário em Brasília, aguardando qualquer sinal de esfriamento no caos político. Pois, nesta segunda (27), o alívio veio — e o Ibovespa agradeceu.
Ainda durante a manhã, o presidente Jair Bolsonaro quebrou a rotina e deu uma entrevista coletiva na saída do Palácio da Alvorada. Mais que isso: ele estava acompanhado do ministro da Economia, Paulo Guedes — homem cujo desembarque do governo já era dado como certo por muitos.
O sinal de união dentro da administração Bolsonaro, num momento dos mais turbulentos da atual gestão, bastou para trazer algum alento à bolsa: o Ibovespa manteve-se em alta durante toda a sessão de hoje, fechando o dia com ganhos de 3,86% aos 78.238,60 pontos.
- Eu gravei um vídeo para explicar a dinâmica por trás dos mercados nesta segunda-feira. Veja abaixo:
É claro que o tom mais ameno visto no exterior ajudou a tranquilizar a bolsa brasileira: nos Estados Unidos, o Dow Jones subu 1,51%, o S&P 500 teve alta de 1,47% e o Nasdaq avançou 1,11%. Mas, como a própria diferença de desempenho deixa clara, os fatores domésticos tiveram um peso importante no pregão.
Só que todo esse bom humor não serviu para aliviar a situação no câmbio. O dólar à vista até abriu o dia sem pressão, chegando a cair mais de 2% na mínima. Só que, no decorrer da sessão, a moeda americana foi ganhando força, virando para alta durante a tarde e flertando com novos recordes.
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Ao fim do dia, tivemos uma quase estabilidade: o dólar à vista fechou em leve baixa de 0,03%, a R$ 5,6596 — na máxima, foi a R$ 5,7258 (+1,14%). Um desempenho que pouco ameniza a escalada da moeda americana.
Sinais encorajadores
"Homem que decide economia no Brasil é um só e se chama Paulo Guedes. Ele nos dá o norte, nos dá recomendações e o que nós realmente devemos seguir", disse Bolsonaro, durante a coletiva de imprensa nesta manhã.
A declaração não foi à toa: trata-se de uma tentativa de apaziguar os ânimos em Brasília e tirar força da narrativa de que Guedes poderia ser o próximo a deixar o cargo, após as demissões de Moro e de Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde.
Esse temor quanto à eventual saída de Guedes se deve à percepção de que o ministro da Economia vinha ficando em segundo plano desde o início da crise do coronavírus — ele sequer esteve presente na cerimônia de lançamento do programa Pró-Brasil para incentivo à infraestrutura, o que foi entendido como um sinal de desprestígio.
Assim, a aparição pública de Guedes ao lado de Bolsonaro — e de outros ministros importantes no lado econômico, como Tereza Cristina (Agricultura) e Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) — serviu para afastar essa possibilidade e mostrar um alinhamento no governo.
Mas é claro que, apesar dessa demonstração de confiança, a situação ainda está nebulosa em Brasília — o que inspira enorme cautela aos investidores. Nesse contexto, não é de todo surpreendente essa resiliência do dólar à vista em níveis tão altos, já que a moeda americana é usada como proteção pelos agentes financeiros que não querem se expor a riscos desnecesários.
A pressão no dólar continuou intensa mesmo após duas atuações do Banco Central (BC) no mercado de câmbio durante a manhã: na primeira etapa da sessão, a autoridade monetária fez um leilão de dólar à vista, no montante de US$ 600 milhões, e um leilão extraordinário de swap, de US$ 500 milhões.
Apesar disso, o dólar chegou a superar a marca dos R$ 5,71 durante a tarde — e só cedeu quando o BC voltou a atuar, desta vez com mais munição: US$ 1 bilhão em um novo leilão de swap.
No mercado de juros, o dia começou com ajustes negativos, em meio às projeções cada vez mais pessimistas em relação ao PIB do país em 2020, conforme mostrado pelo boletim Focus — o que, em tese, dá força à leitra de será necessário continuar cortando a Selic para dar sustentação à atividade doméstica.
No entanto, a pressão continuada sobre o câmbio e as incertezas ainda grandes no front político motivaram uma nova puxada nos DIs, especialmente na ponta curta:
- Janeiro/2021: de 3,11% para 3,20%;
- Janeiro/2022: de 4,10% para 4,22%;
- Janeiro/2023: de 5,58% para 5,59%;
- Janeiro/2025: de 7,61% para 7,47%.
[captacao]
Alívio externo
O bom humor visto lá fora se deve à percepção menos negativa em relação ao surto de coronavírus. Com a curva de contágio desacelerando na Europa e em algumas regiões dos Estados Unidos, iniciativas para relaxamento gradual da quarentena nessas áreas já começam a ser ensaiadas, o que traz algum alento aos mercados.
Além disso, também há uma expectativa em relação a novos pacotes de estímulo por parte de governos e autoridades econômicas — nesta semana, o Federal Reserve e o Banco Central Europeu promovem suas reuniões de política monetária, podendo anunciar medidas de incentivo à atividade.
Embraer em apuros
Em termos corporativos, destaque para as ações ON da Embraer (EMBR3), que tiveram forte queda de 7,49%, a R$ 7,66, em meio ao cancelamento da parceria com a Boeing no setor de aviação comercial.
O acordo foi anunciado em 2018, após meses de negociação — na prática, a Boeing compraria a divisão de aviação comercial da Embraer, por US$ 4,2 bilhões.
Contudo, a crise do 737 Max e a baixa demanda aérea desde o início da pandemia parecem ter feito a diferença para a empresa americana — a Embraer diz que a Boeing 'fabricou falsas alegações' para rescindir o acerto entre as partes — veja aqui a análise completa a respeito do desempenho das ações da companhia brasileira e os outros destaques da bolsa nesta segunda-feira.
Via Varejo no topo
Na ponta oposta do Ibovespa, destaque para as ações ON da Via Varejo (VVAR3), em forte alta de 18,65%. Mais cedo, a companhia anunciou a compra da ASAPLog, uma empresa do setor de logística com foco no e-commerce.
A transação reforça a leitura de que a nova administração da Via Varejo está focada no desenvolvimento do comércio eletrônico, tentando recuperar o tempo perdido.
No passado, enquanto os rivais Magazine Luiza e B2W apostaram no e-commerce e obtiveram enorme sucesso na empreitada, a dona das Casas Bahia e do Ponto Frio ficou para trás, permanecendo focada num modelo de lojas físicas.
Em comunicado, a Via Varejo diz que a aquisição da ASAPLog é mais um passo importante no processo de transformação digital, dado o potencial de fortalecimento da malha logística — segundo a companhia, há a expectativa de redução de custos e do prazo de entrega das mercadorias vendidas on-line.
Top 5
Veja abaixo as cinco ações de melhor desempenho do Ibovespa hoje:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| VVAR3 | Via Varejo ON | 7,57 | +18,65% |
| BRKM5 | Braskem PNA | 21,49 | +13,52% |
| BRFS3 | BRF ON | 20,56 | +10,84% |
| TOTS3 | Totvs ON | 58,44 | +10,06% |
| MRFG3 | Marfrig ON | 11,50 | +10,05% |
Confira também as maiores baixas do índice:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| EMBR3 | Embraer ON | 7,66 | -7,49% |
| QUAL3 | Qualicorp ON | 25,05 | -2,45% |
| HYPE3 | Hypera ON | 29,33 | -2,27% |
| SMLS3 | Smiles ON | 13,90 | -0,36% |
| COGN3 | Cogna ON | 4,60 | -0,22% |
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