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BC e Fed decidem juro na quarta-feira. Mercados esperam corte para frear desaceleração econômica, mas instrumento taxa de juro revela esgotamento
Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Esse era o mote de uma propaganda que encantava as crianças alucinadas por biscoitos anos atrás e, de quebra, levava os pais a refletirem sobre a origem de tudo. Eu e meu marido sempre voltávamos às histórias do nosso passado quando algum dos meninos disparava a frase que, penso, se aplica aos principais eventos previstos para a virada do mês: as reuniões de política monetária do Banco Central do Brasil e do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.
Na próxima quarta-feira (31), o Copom cortará a taxa de juro porque a economia não cresce ou a economia não cresce porque o juro não cai, embora em recorde de baixa, 6,50%, há um ano e meio? Às vésperas da reunião de política monetária, 98,2% ou 54 economistas -- da amostra de 55 ouvidos pela Broadcast/Agência Estado -- dão como certo o corte da taxa Selic. Praticamente meio a meio projetam queda de 0,25 ponto percentual e de 0,50 ponto. Parece improvável que o comitê mantenha a taxa inalterada por mais tempo. Desde março do ano passado, a Selic não sai do lugar.
O BC deve aproveitar a grande oportunidade que inflação tão comportada proporciona e colocar a taxa básica brasileira em outro patamar. Embora Selic mais e mais baixa não se traduza em custo de crédito proporcionalmente mais barato, juro menor sempre funciona. É uma questão de tempo. Contudo, supor que a redução da Selic vai fazer milagre e puxar o crescimento, a mim parece insensato. Em quase três anos do último ciclo de baixa, a Selic caiu à metade e não fez cócegas no ritmo de atividade. O baixo crescimento da economia brasileira tornou-se estrutural.
Daí a importância da agenda reformista do governo Bolsonaro e a necessidade de que ela se aprofunde como pretende o ministro da Economia, Paulo Guedes, que certamente sabe da velocidade em que corre o calendário. Na semana que vem, Jair Bolsonaro dá partida ao sétimo mês do seu mandato e a reforma da Previdência em breve será questão superada. Iniciativas importantes, talvez até mais relevantes no curto prazo, não podem ficar para depois, inclusive, porque o capital político de um novo governo tende a encolher a partir do segundo ano.
Na próxima semana, terminam as férias de deputados e senadores. A reforma da Previdência já passou na votação em primeiro turno na Câmara, voltará à pauta para votação em segundo turno – em 6 de agosto – e seguirá para o Senado. No fim de setembro, essa reforma poderá ser conjugada no passado. A redução da Selic – ainda que apenas em 0,25 ponto – pelo Banco Central de Roberto Campos Neto será um incentivo para o Congresso tocar a bola adiante, dando um upgrade na reforma tributária que provocará, sem dúvida, grandes embates nas duas Casas do Congresso.
Também na quarta-feira, o Federal Reserve, o BC dos EUA, cortará a taxa de juro, embora desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) anualizado de 3,1% no primeiro trimestre para 2,1% na primeira estimativa para o segundo trimestre – como anunciado na sexta-feira – não seja exatamente um tombo.
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O prólogo das próximas decisões do BC do B e do Fed é o mesmo, você notou? Ambos poderão, inclusive, reduzir suas taxas básicas na mesma batida: 0,25 ponto percentual. Mas será que essa aparada no custo do dinheiro será suficiente para aplacar as pressões dos mercados que veem espaço maior para o balizamento dos juros, na torcida de que só assim nossa economia avançaria e a dos EUA permaneceria em céu de brigadeiro? Porque, nos EUA, 2,1% de PIB não é algo ruim, já nós com 0,8%...
Os bancos centrais vêm mostrando, porém, que taxa de juro não é remédio para fraqueza econômica. Rodadas sucessivas de afrouxamento monetário prometem esquentar, sim, os debates sobre o papel dos BCs e questionar cada vez mais a eficiência da taxa de juro para impulsionar ou frear a atividade. Num mundo cada vez mais tecnológico, a disputa entre as economias não se estabelecerá sobretudo pela produtividade? Num mundo desinflacionário, as metas de inflação ajudam ou atrapalham?
Com o instrumento taxa de juro praticamente esgotado – refinanciamento em 0% desde 2015 –, o Banco Central Europeu (BCE) decepcionou os mercados na última quinta-feira. A instituição não embarcou em território negativo, mas acenou com novos programas de compra de ativos em mercado. Em outras palavras, o BCE usará oferta de moeda como fizeram os principais bancos centrais na esteira da crise financeira de 2008/2009 – expandindo a liquidez – para afrouxar ainda mais a política monetária e, com sorte, dar um gás na zona do euro. De março de 2015 a dezembro de 2018, o BCE injetou 2,6 trilhões de euros na economia, informa o site CentralBankNews que faz o monitoramento de 90 bancos centrais em todos os continentes.
Informação relevante, principalmente pela sinalização, traz o CentralBankNews sobre a movimentação das autoridades monetárias. Nos últimos 12 meses até a semana passada, os bancos centrais promoveram 62 cortes em suas taxas básicas e 64 aumentos. Esse placar não retrata 62 ou 64 bancos centrais, mas movimentos que confirmam a tendência global de alívio monetário. O empate técnico de 62 reduções de juro e 64 altas é ilusório. Não pense, portanto, que está tudo no mesmo lugar. Neste ano, ocorreram 57 dos 62 cortes de taxas básicas observados nos últimos 12 meses e apenas 14 aumentos dos 64 contabilizados.
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