Em evento em Brasília, Guedes defende capitalização e Maia fala em “reforma que beneficia a todos”
Ministro da Economia afirmou que há de se ter a coragem de fazer o que tem de ser feito, mas que “não tem problema” se o Congresso diluir a reforma

O ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a defender o regime de capitalização para a Previdência, dizendo que se o Congresso não entregar a economia que se acha razoável, estaremos prejudicando as gerações futuras.
Segundo Guedes, temos de ter a coragem de fazer o que tem de ser feito, mas que “não tem problema” se o Congresso fizer uma reforma mais diluída, pois “não tem capitalização”.
Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro deu uma “canelada” no ministro ao falar que os deputados devem derrubar a capitalização e que ele seria favorável a uma reforma mais simples.
Guedes participa de evento promovido pelo “O Globo e Valor Econômico” e chegou defendendo seu R$ 1 trilhão em economia ao ser perguntado se teria jogado a toalha na economia fiscal com a reforma.
Ainda na sua fala inicial, ao lado do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, Guedes disse que a Previdência é uma fábrica de privilégios e desigualdades.
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“Nossa reforma vai em cima de quem ganha mais. No fim, um gari ou deputado vão terminar do mesmo jeito. Não é verdade que a reforma prejudica os pobres”, afirmou.
Guedes também votou a dizer que não já problema nenhum de termos no poder uma aliança de centro-direita.
“Estou em uma democracia vibrante, acredito no trabalho da mídia, congressistas, estamos desenvolvendo as instituições. Não tem porque ter preocupação com a eleição de centro-direita”, disse.
Segundo o ministro, o maior vilão dos últimos 40 anos de história republicana é o descontrole do gasto público.
Assim, a Previdência é o primeiro “ataque”, depois está a redução de gastos com juros via privatizações. Depois tem a redução do gasto com funcionalismo público via aumento de eficiência e maior tecnologia no Estado.
No lado tributário, Guedes falou em simplificar e reduzir isenções até chegar ao momento de promover redução de alíquotas para todos. Ele voltou a lembrar que parte não paga pois consegue benefícios e outra parte prefere pagar ao advogado que ao governo.
Guedes voltou a falar do grande poder do presidente e do ministro da Economia, que basta apontar que sai um estádio de futebol, portos em países amigos e a maior empresa de proteína animal do mundo. “Tá errado esse troço, ninguém pode ter tanto poder. Poder político tem que ser limitado”, disse.
Sobre redução de tarifas externas, Guedes falou em redução gradual, pois ainda não houve mudança nos impostos. “Somos liberais, mas não somos idiotas”, disse.
Segundo o ministro, a abertura comercial vai pegar no último ano de governo.
Guedes disse que “vamos levantar caixa o suficiente para ninguém ficar em dúvida”. Na sequência falou na devolução dos R$ 126 bilhões pelo BNDES, outros R$ 80 bilhões via privatizações, mais R$ 80 bilhões de instrumentos hibridos de crédito que estão em bancos públicos. A Caixa e o BB vão vender subsidiária para me pagar. Paguem a União.”
Guedes falou que achava que a transição seria serena, para um governo de centro-direita, mas se disse “absolutamente confiante no nosso papel, cada um fazendo seu papel. Não tenho medo de nenhum desvio com relação a isso. Somos democracia abusada, duas hiperinflações, e saímos do lado de lá”.
Maia: todo mundo vai ter que ajudar
Em sua fala inicial, Maia afirmou que a Câmara dos Deputados nunca será um instrumento para gerar problemas na questão fiscal do Brasil. Como exemplo, ele citou medida do Funrural, que teria impacto de R$ 30 bilhões e foi pedida por Bolsonaro para ser votada, mas que ele preferiu não colocar em votação.
Maia falou que “fomos capturados pelas corporações públicas e privadas, o Orçamento público atende a pouca gente”, existindo um divórcio grande entre a economia e a sociedade.
Com isso, disse Maia, a política perdeu as condições de responder às demandas da sociedade.
Sobre a agenda de reformas, Maia afirmou que “todo mundo vai ter que ajudar, do PT ao PP ou quem vai pagar é a sociedade e a política, divorciada dos interesses do cidadão brasileiro”.
Para Maia, a política precisa volta a cumprir seu papel, apesar de refutada pela sociedade. Mas o STF também tomou decisões ruins, disse o presidente da Câmara, que amarraram o orçamento e fortaleceram as corporações públicas, como mudanças na LRF e salários acima do teto.
Guedes aposenta função de coordenador
Na parte de perguntas e respostas, Guedes disse não ter a pretensão de ser coordenador político. “Vocês viram meu desempenho lá”, disse em referência à CCJ e tirando risos da plateia.
“Coordenação da Reforma está em excelentes mãos com o Rogério Marinho, o Bruno Bianco, timaço. Sou animal de combate, não sou animal para fazer essa coordenação. Sou animal de economia”, disse, complementando que “acho que sou um defensor, honesto, de algumas propostas, de uma agenda”.
Perguntado sobre eventuais pretensões políticas, depois de manifestantes gritaram seu nome em eventos no fim de semana, Guedes disse que “ministro da Economia aplaudido já é raro, aplaudido por medida impopular como reforma da Previdência é incompreensível”.
Para Guedes, tal fato só pode ser explicado pela existência de uma compreensão maior da população dos atuais conflitos que temos na economia. “A reforma faz ajuste no passado, mas deixa uma porta aberta para o futuro com o regime de capitalização”, voltou a dizer.
“Sem reforma da Previdência, ministro da Economia tem que devolver o Orçamento para a classe política. Essa é a reabilitação da classe política”, disse.
R$ 1 trilhão para Bolsonaro
Maia foi perguntado sobre notícia que circulou no fim de semana, de que os deputados não querem dar uma reforma de R$ 1 trilhão para Bolsonaro, temendo que ele fique muito forte em eventual reeleição.
Para o presidente da Câmara, tudo mundo fica forte com a aprovação de uma reforma da Previdência. Além disso, Maia disse que o sistema atual é feito por presidentes reeleitos e que seria natural Bolsonaro ganhar novas eleições se fizer um bom mandato.
“Não vejo isso como um problema”, disse.
Para Maia, abrir mão de uma reforma que fará o país voltar a crescer e ter investimentos porque o Bolsonaro pode ser reeleito, mostra total falta de compreensão do atual momento político brasileiro.
De acordo com ele, há uma transição no Brasil e em outros países como EUA, mas esses movimentos “se prepararam para tirar algo do lugar e não se prepararam para colocar algo no lugar”.
Na sequência, disse que não adianta cobrar nada de Bolsonaro com três meses, mas são mudanças que estão ocorrendo e contestando o ideal de democracia liberal.
Para Maia, esses movimentos não podem relegar uma democracia mais fraca.
Respeitar para ser respeitado
Novamente questionado sobre articulação política, Paulo Guedes disse que o desafio é de todos nós e que há uma lei básica, que é respeitar para ser respeitado e que vale para os dois lados, para tudo mundo. “Se o presidente não respeitar a política, a política não vai respeitá-lo”, disse.
Para o ministro, os atritos políticos são um choque de acomodação. E Bolsonaro tem de manter sua base mobilizada, pois o adversário (PT) faz e fez isso muito bem.
“Realmente estou confiante quanto à dinâmica. Eu quero R$ 1 trilhão, para ter capacidade de fazer transição, algo que vai beneficiar os futuros governos”, disse.
Guedes também disse que “não saio na primeira derrota”. Sobre segunda ou terceira derrota, disse que depende da qualidade da derrota. "Vai ver todo mundo está feliz em crescer 0,6% e eu estou errado."
O ministro também pontuou que a queda de popularidade do governo “não assusta” e que o jogo segue adiante. “O Congresso vai fazer a parte dele. Uma reforma será aprovada. Não tenho dúvida disso. Haverá mobilização de Estados e municípios”.
Para o ministro, Bolsonaro entendeu que “tem que governar com todo mundo”, depois da crise de acomodação e que novos interlocutores vão fazer a nova política. “A mídia será construtiva, o Congresso será construtivo”, disse.
“Não há razão para acharmos que a coisa vai degringolar. Vou dar meu melhor esforço”, disse, complementando que o máximo que vai fazer se achar que “coisa vai para a bagunça” é ir embora para casa.
Paulo Guedes também disse que nunca ficou uma noite sem dormir por causa do ambiente político. Para ele, Maia e Bolsonaro tentam se comunicar, “vejo como um minueto”.
“Um é mais duro nos modos, mas sabe, viveu aqui muito tempo, o outro pode ser suave nos modos, mas sabe dar canelada bem dada. Mas é o mundo político. É uma crise de acomodação”, disse Guedes, complementando que “o que me aborrece é achar que estou fazendo algo que ninguém quer”.
Para Maia, a queda de popularidade do governo também atinge o Parlamento. “Nós também temos responsabilidade”, disse, lembrando que toda a população vive em um recessão faz cinco anos.
Voltando à articulação política, Maia disse que segue defendendo a reforma, mas que não articula como vinha fazendo, pois achava que Bolsonaro defenderia um modelo de coalizão, com o Legislativo participando e atuando junto com o Executivo. Mas o presidente disse que não quer esse modelo e ele pode até estar certo, segundo Maia.
Mas o presidente da Câmara disse que “não vou ser mulher de malandro, apanhar e ficar achando que está bom”.
Rodrigo Maia disse estar estimulado pela agenda do governo é que continuará sendo um defensor da reforma da Previdência em qualquer ambiente. “Mas não tenho as condições de ser articulador político que tinha há duas semanas. Perdi as condições de cumprir o papel porque fui mal compreendido”, disse.
Ainda de acordo com Maia, a data para a votação da reforma é irrelevante, o importante é conseguir a economia de R$ 1 trilhão.
Maia também disse que não fala mais sobre prazos e votos. Se o governo quiser votar em 15 de junho, Maia disse que pode votar, mas se ganha ou não, tem de se perguntar ao ministro Onyx Lorenzoni.
Nova política
No fim do evento, no famoso “quebra-queixo”, perguntei a Maia se o presidencialismo de coalizão acabou, como ele sugeriu ao longo de sua fala no evento.
“Imaginei que o diálogo era em um caminho, o presidente decidiu no outro. Acho corretíssimo, democrático, respeito. Claro, cabe a ele, agora, junto com os ministros e líderes organizarem uma pactuação, uma convergência com relação a uma agenda, começando pela Previdência. Mas é claro que uma eleição em um outro formato, que abre um novo ciclo, abre uma nova relação. Acho que é legitimo”, disse.
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