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Para o gestor da Bridgewater, ambiente de juros negativos, startups que não dão lucro, inflação que não sobe e economia que não cresce evidenciam que sistema está falhando
“O sistema que faz o capitalismo trabalhar bem para a maioria das pessoas está quebrado. Esse conjunto de circunstâncias é insustentável e certamente não pode mais ser promovido como tem sido desde 2008. É por isso que eu acredito que o mundo está se aproximando de uma grande mudança de paradigma.”
O trecho quase profético acima é a conclusão de um texto que o gestor da Bridgewater, Ray Dalio, publicou no LinkedIn na última terça-feira (05).
Responsável pela gestão de mais de US$ 150 bilhões e especialista em crises de dívida, Dalio vem alertando ao mercado, já há algum tempo, sobre os perigos do “louco” mundo de juros negativos e liquidez abundante em que vivemos, além dos riscos de investir em títulos, imóveis e ações neste cenário. Daí sua preferência pelo investimento em ouro, como já mostramos aqui no Seu Dinheiro.
Na sua mais recente publicação, ele crava: é loucura mesmo, e o sistema está quebrado, simplesmente porque o mecanismo em que os recursos daqueles que têm dinheiro vai sendo transferido para aqueles que não têm, de forma a melhorar a renda e o perfil de crédito desses trabalhadores, não está mais funcionando.
Eu me deparei com o texto de Ray Dalio enquanto rolava a time line da minha conta de Twitter, e confesso que a leitura me causou grande impressão.
O gestor levanta quatro pontos para justificar sua afirmativa sobre a loucura do mundo e a falência do sistema, que tem tudo para causar cada vez mais desigualdade entre ricos e pobres e insatisfação social (como já estamos vendo acontecer).
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A leitura do artigo na íntegra vale muito a pena, e ele está disponível em inglês aqui. Mas a seguir eu tentei resumir e explicar os quatro pontos de Dalio:
“O dinheiro é gratuito para aqueles que têm boa nota de crédito porque os investidores que estão emprestando dinheiro a esses tomadores estão dispostos a receber menos do que emprestaram.”
Vivemos hoje num mundo em que os melhores pagadores - caso das nações ricas - estão conseguindo tomar dinheiro emprestado a juros negativos. Eu já falei mais sobre isso aqui neste vídeo, e o Eduardo Campos já tentou explicar a lógica dessa aparente maluquice (que muitos consideram maluquice mesmo) aqui e aqui.
Emprestar dinheiro para receber menos parece mesmo não ter lógica nenhuma, mas segundo Ray Dalio, isso acontece porque os investidores têm uma quantidade enorme de recursos concedidos a eles pelos bancos centrais que estão comprando ativos nas suas “fúteis tentativas de estimular a atividade econômica e fomentar inflação”.
Como bem sabemos, a economia de muitos países ricos anda mesmo parada e não está pegando no tranco. Dalio diz que a razão para isso é justamente que esse dinheiro que está inundando o mercado está sendo investido e não gasto.
Como resultado, os preços dos ativos financeiros dispararam, e os retornos esperados despencaram (lembre-se de que, com quedas nas taxas de juros, ações e títulos tendem a se valorizar), enquanto crescimento e inflação continuam uma merreca.
Dalio frisa ainda que esse fenômeno de preço para cima e retornos esperados baixos não acontece apenas com os títulos de crédito, isto é, com a renda fixa. Ele também pode ser visto nos preços das ações, inclusive no investimento em participações em empresas (private equity e venture capital).
A diferença é que o retorno da renda variável não é tão expresso e aparente quanto o da renda fixa, ficando mais na imaginação e nas expectativas dos investidores.
Ao lado dos juros negativos, outra aparente loucura dos nossos tempos são as empresas de tecnologia que só dão prejuízo, mas continuam atraindo dinheiro de investidores. No primeiro item do texto, Ray Dalio tenta dar conta do fenômeno, que seria derivado exatamente da mesma questão.
Ele afirma que, desde a bolha das empresas “ponto-com” no início dos anos 2000 não havia por aí tantas empresas que não precisam dar lucro ou mesmo mostrar como vão se tornar rentáveis para conseguir vender suas ações.
Os investidores têm simplesmente tanta bala na agulha que essas empresas podem simplesmente vender seus sonhos para qualquer um que tenha acesso a esse dinheiro “grátis”. E o bom desempenho de ações de empresas revolucionárias de tecnologia no passado é um bom incentivo para os investidores toparem correr esse risco.
“Há tanto dinheiro disponível para comprar esses sonhos que, em alguns casos, investidores de venture capital [capital de risco] estão empurrando dinheiro para startups que não querem mais dinheiro porque elas já têm mais que o bastante; mas os investidores estão ameaçando prejudicá-las por meio do apoio a seus concorrentes se elas não aceitarem o dinheiro.”
Segundo Dalio, esse despejo de recursos sobre essas companhias é compreensível porque os gestores - especialmente os de fundos de venture capital e private equity - captaram muita grana e agora precisam investir esse dinheiro todo para cumprir as promessas que fizeram aos cotistas e justificar sua própria remuneração.

“Grandes déficits governamentais existem e vão com certeza crescer substancialmente, o que os levará a emitir muito mais dívida.”
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E essas quantias não poderão ser absorvidas naturalmente sem jogar as taxas de juros lá para cima, o que seria desastroso para economias e mercados tão endividados.
E de onde virá o dinheiro para comprar esses títulos?, pergunta Ray Dalio. Muito provavelmente dos bancos centrais, que vão imprimir mais dinheiro. Isso impactará sobretudo as moedas de reserva, como o dólar, o euro e o iene.
“Ao mesmo tempo, a necessidade de pagar aposentadorias e planos de saúde vai crescer cada vez mais, ao mesmo tempo em que os responsáveis por pagá-los não vão ter recursos suficientes para cumprir suas obrigações.”
Os fundos de pensão tentam casar ativos e passivos, isto é, buscam rentabilidades que, no longo prazo, sejam suficientes para garantir que eles cumpram suas obrigações com os pensionistas.
O problema é que muitos dos grandes fundos de pensão dos países ricos estimaram retornos muito mais altos do que aqueles que estão sendo precificados neste mundo de juros negativos e rápido envelhecimento da população. Ou seja, na hora que chegar a hora de eles pagarem as pensões a seus beneficiários, é bem possível que a conta não feche.
Os beneficiários, por sua vez, são justamente trabalhadores que vem sofrendo com austeridade fiscal. “É improvável que eles aceitem quietinhos a redução dos seus benefícios”, diz Dalio.
Para manusear o cobertor curto, será necessário ou reduzir os benefícios de aposentadoria, ou aumentar impostos ou imprimir mais dinheiro, que é o caminho mais fácil e também a forma mais discreta de transferir riqueza e inflar ainda mais os preços dos ativos.
O grande risco deste caminho, diz Dalio, é que ele ameaça a viabilidade das três moedas que são as maiores reservas de valor do mundo - como já dito, o dólar, o euro e o iene. Olha a lógica do investimento em ouro aí.
Além disso, o conflito entre ricos e pobres sobre se é melhor cortar despesas ou aumentar impostos vai se aprofundar, e os ricos vão preferir migrar para locais onde as desigualdades de renda e conflitos são menores. Já os governos, não querendo pagar esses grandes pagadores de impostos, tentarão fazer de tudo para segurá-los.
“Ao mesmo tempo em que o dinheiro é essencialmente grátis para aqueles que já têm dinheiro e boa nota de crédito, ele está indisponível para aqueles que não têm dinheiro ou boa nota de crédito, o que contribui para elevar as desigualdades políticas, de riqueza e de oportunidades.”
Também contribuem para o aumento das desigualdades sociais os avanços tecnológicos que tanto fascinam os investidores e empreendedores das tais empresas “disruptivas”, que acabam substituindo os trabalhadores por máquinas, conclui o Ray Dalio.
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