O sobe e desce da Argentina sob o governo Macri
As falhas do presidente argentino no comando do país ficaram evidentes em 2018, quando seu plano econômico foi por água abaixo

Mara Menezes, uma argentina que vende flores na estação de trem do Retiro, a principal de Buenos Aires, estava feliz com o governo de Mauricio Macri em 2017. Em setembro daquele ano, disse ao 'Estado' que as vendas haviam dobrado em relação a 2015, último ano de Cristina Kirchner na presidência.
Dois anos depois, Mara continua no mesmo lugar. Mas suas vendas caíram à metade. Para compensar, seu marido começou a vender, há seis meses, sanduíches ao lado do quiosque de flores. Só assim o casal conseguiu manter a renda.
[captacao]
A situação financeira de Mara acompanhou os movimentos econômicos do país. Nos últimos quatro anos, a Argentina pareceu um carrinho de montanha-russa, que subiu lentamente - enquanto Macri tentava colocar ordem na casa -, mas despencou de forma rápida com o naufrágio de seu programa econômico.
Um sobe e desce que ajuda a explicar o resultado das eleições primárias, em agosto, nas quais o oposicionista Alberto Fernández derrotou Macri.
O ano de 2017, quando Mara comemorava as vendas em alta, foi um período da presidência de Macri em que a economia parecia engrenar. O PIB avançou 2,7% e a inflação ficou em 24,8%. O desempenho econômico, que parecia um sucesso, era impulsionado pelo setor agrícola e por obras públicas. Mas esse período ficou para trás.
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Segundo Mara, o aumento das contas de luz e água faz com que, hoje, não sobre dinheiro para os argentinos gastarem com supérfluos, como flores. Em uma tentativa de reduzir o déficit fiscal do país, Macri retirou, gradualmente, subsídios em serviços como transporte e energia que haviam sido implementados pelo kirchnerismo.
O resultado da redução dos subsídios para Mara foi um aumento de 900% na conta de gás, que passou de 40 pesos em 2015 para 120 pesos em 2017 e, agora, chegou a 400 pesos. "Isso porque não temos aquecedor", diz.
Mara trabalha perto de Luiz Galán, que tem uma banca de jornais e com quem a reportagem também se encontrou em 2017. Diferentemente de Mara, há dois anos, Galán já se mostrava insatisfeito com Macri, sobretudo por causa dos aumentos no gás. Galán também responsabilizava o presidente pela queda na venda de jornais.
Em setembro, Galán voltou a dizer que, na época de Cristina Kirchner, vendia 170 exemplares por dia. Afirmou, porém, que, no lugar dos 120 que saíam em 2017, agora são 60 jornais. Morador da Boca, bairro operário onde fica o estádio do Boca Juniors, Galán contou que votou apenas uma vez em Macri: em 2007, quando o político era candidato ao governo da cidade de Buenos Aires.
O vendedor é torcedor do Boca e aprovara o trabalho de Macri como presidente do time. "No clube, ele não se saiu mal. Administrava bem as finanças. O estádio sempre estava limpo. Mas aí ele começou a falhar como prefeito (de Buenos Aires) e mais ainda como presidente."
Erros
As falhas de Macri no comando do país ficaram evidentes em 2018, quando seu plano econômico foi por água abaixo. Sem a maioria no Congresso e temendo os movimentos sociais, Macri optara por um ajuste fiscal gradual, retirando subsídios aos poucos e sem cortar investimentos públicos. Como a conta não fechava, o país emitia dívida para se financiar.
Tudo ia bem até que, em 2018, com o aumento dos juros nos EUA, investidores internacionais começaram a fugir de países emergentes, pois o retorno passou a ser mais alto no mercado americano, além de muito mais seguro. A Argentina recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e acelerou o ajuste fiscal.
Nos últimos meses, preocupado com o impacto da deterioração econômica na corrida eleitoral - Macri tentará a reeleição dia 27 -, o presidente retomou medidas que antes criticara. Em abril, adotou um programa para controlar preços de produtos da cesta básica e congelou tarifas de gás e transporte.
Nada disso foi suficiente para reverter o humor do eleitorado, que, nas primárias, deu uma vitória prévia a Fernández, que tem Cristina Kirchner como candidata a vice. Os 15 pontos de diferença que separaram Macri de Fernández são vistos como quase impossíveis de ser revertidos.
O resultado das primárias deixou em pânico o mercado, que teme a adoção de políticas intervencionistas com o retorno do kirchnerismo. Nos últimos meses, investidores fugiram da Argentina, e o FMI segurou uma parcela do empréstimo.
Produtor de soja, milho e trigo, Santos Zuberbühler está preocupado com a liberação do empréstimo: "Se o FMI corta (a linha de financiamento), o ingresso de dólares no país vai ficar complicado. Não sei como a Argentina vai se financiar."
A reportagem do Estado havia conversado com Zuberbühler pela primeira vez em 2017. Ele estava em lua de mel com a gestão macrista. O agronegócio havia tido uma relação de enfrentamento com Cristina Kirchner desde 2008, quando a então presidente começou a taxar exportações de grãos. Em 2017, produtores agropecuários e governo se reconciliavam. À época, Zuberbühler contou que havia contratado mais oito funcionários e estava aumentando os investimentos em trigo, cujos custos são mais elevados, porque, sem os impostos sobre exportação, voltaria a vender o grão a preços internacionais.
Em setembro deste ano, porém, Zuberbühler foi mais um a afirmar ter se decepcionado com Macri: "O governo teve boas intenções, mas faltou experiência na equipe econômica."
Ao contrário de 2018, quando uma seca dizimou a produção agrícola da Argentina, as plantações vão bem em 2019 e a cotação do dólar beneficia os exportadores. "Não posso me queixar, mas não há economia que funcione se só um ou dois vão bem", disse Zuberbühler.
Nas ruas de Buenos Aires, é visível que a população sofre. Como no Brasil, aumentou a presença de ambulantes. No primeiro semestre do ano, 35,4% dos argentinos viviam abaixo da linha da pobreza, 8,1 pontos porcentuais a mais que no mesmo período de 2018.
Câmbio
Uma das faces mais visíveis da crise aparece na cotação da moeda. Quando Macri chegou à Casa Rosada, em dezembro de 2015, um dólar comprava 9,7 pesos argentinos, ou R$ 3,80. Quase quatro anos depois, um dólar hoje compra 58 pesos, ou R$ 4,09, o que significa que, enquanto o dólar se valorizou 7,6% no Brasil, na Argentina, a alta chegou a 498%.
O câmbio não é o único indicador que teve desempenho sofrível no governo Macri. Inflação e atividade econômica também decepcionaram. Em 2016, por exemplo, era possível comprar uma empanada em Palermo, bairro de classe alta de Buenos Aires, com 18 pesos.
Agora, em 2019, são necessários 60 pesos, um aumento de 233%. Pode parecer muito, mas a alta está alinhada com a inflação de 236%. Para efeitos de comparação, o Brasil acumulou uma inflação de 16,4% no período.
A inflação da empanada não é nada comparada com a de serviços básicos. Com 3 pesos, o equivalente então a R$ 0,92, se pagava, no início de 2016, uma passagem de ônibus em Buenos Aires. Com a redução dos subsídios, a passagem agora sai por 18 pesos, alta de 500%.
Para o economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, a situação argentina é "ruim e vai ficar ainda pior". Segundo ele, o possível retorno do kirchnerismo vai interromper o processo de consolidação fiscal e, ainda que Macri consiga permanecer no poder, o quadro será complexo, dada a inflação acelerada e o endividamento.
"Antes das primárias, a visão era que, se Macri fosse reeleito, teria de enfrentar o ajuste fiscal e ainda precisaria de sorte, porque a economia estava tão frágil que não comportaria choques. Essa já não é mais a realidade, a situação agora é ainda mais difícil." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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