A terceira onda. Um novo milagre econômico vem por aí?
Tudo indica que um novo bull market das commodities esteja começando. E, como das outras vezes, isso será extremamente benéfico para o Brasil

Tal como já relatei nesta newsletter em outras ocasiões, uma vez por mês, sempre no dia 5 (ou na segunda-feira subsequente quando cai num fim de semana), reservo algumas horas para perscrutar cotações de todos os mercados internacionais, mesmo aqueles mais exóticos e distantes.
Você, caro amigo leitor, já ouviu falar de futuro e opções sobre preços de fretes marítimos?
Não? Pois saiba que existe. Esse contrato é negociado nas Bolsas de Londres e do Báltico, sendo que esta segunda também fica na capital da Inglaterra.
Se há um naufrágio que bloqueie o canal de Suez ou do Panamá, ou os iranianos fecham o estreito de Ormuz, as rotas de navegação se alongam e os fretes sobem muito. Os prejuízos dos armadores são enormes, mas não para aqueles que fizeram hedge em Londres.
Pois é, essas explorações mensais pelas Bolsas dos quatro cantos do mundo me fazem enxergar coisa que não tinha percebido, nem mesmo por alto.
Como até as pedras do caminho sabem, em julho de 2016 David Cameron renunciou ao cargo de primeiro-ministro britânico por ver rejeitada, em plebiscito, sua proposta de manter o Reino Unido na Comunidade Europeia. Surgiu então a crise do Brexit, até hoje não solucionada. Ninguém sabe direito o que vai acontecer.
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Era para a libra esterlina estar em um tremendo bear market, certo? Só que não está. Muito antes, pelo contrário. Nesta semana, a British Pound foi negociada, em Chicago, a US$ 1,3150, maior cotação dos últimos doze meses.
A razão para isso é simples. Os títulos de 10 anos do Tesouro inglês estão rendendo 0,77% ao ano, contra uma inflação, também anual, de 1,50%.
“Mas pera aí, Ivan”, o leitor pode não estar entendendo. “Se os títulos rendem menos que a inflação, os aplicadores estão perdendo dinheiro. Então por que a libra sobe?”
Simplesmente, caro amigo, porque os papéis da Alemanha, do mesmo prazo, estão com uma “rentabilidade” negativa de 0,30% a. a., frente a uma inflação de 1,1%.
Diversos outros países estão cobrando para guardar o dinheiro dos investidores.
Como os títulos britânicos ainda rendem juros nominais positivos, a libra está subindo. Ninguém, em pleno juízo, imagina a hipótese de que o Reino Unido, com ou sem Brexit, vá deixar de honrar seus compromissos. Se não o fez durante a Segunda Guerra, quando as despesas militares eram colossais, não há de ser agora que isso vai acontecer.
Juros, juros altos, juros baixos, juros reais positivos, juros reais negativos, são também esses os principais fundamentos dos mercados de ações. Não é à toa que o Ibovespa atravessou o ano de 2019 fazendo highs após highs. O mesmo acontece com o Dow Jones, o S&P500 e o Nasdaq.
Mas esses índices não são importantes em minha varredura mensal, já que os acompanho durante todo o dia, todos os dias.
Desta vez, minha excursão pelo universo dos mercados descobriu algumas coisas interessantes. E ótimas para o Brasil.
Do açúcar, já falei em minha Warm Up Pro de quinta-feira. Mas não custa repetir.
A adição de 10% de etanol à gasolina distribuída na China deverá provocar um tremendo bull market no açúcar, já que os dois produtos são retirados da cana.
Em agosto de 2017, durante uma visita que fiz à usina da Alta Mogiana, em São Joaquim da Barra, SP, verifiquei que etanol e açúcar são produzidos no mesmo local. O preço é que decide pra que lado vai a cana.
Sendo assim, mais álcool significa menos açúcar, produto do qual o Brasil é o maior produtor mundial. Menos açúcar, maior o preço. Muito menos açúcar, explosão no preço. As simple as that.
Continuemos nosso tour. Esta semana, a tonelada de cacau atingiu US$ 2.576,00, também a maior cotação do ano. Bom para nós. Estamos em sexto lugar entre os exportadores dessa commodity agrícola.
As boas notícias não param por aqui. O café, quem diria, que andou vaiado por muito tempo, também fez sua máxima de 2019, sendo a libra-peso negociada a US$ 1,2415 na CSCE ( Coffee, Sugar and Cocoa Exchange).
Finalmente há a carne, cujas exportações brasileiras para a China não param de crescer. Isso porque a febre suína africana atacou o plantel de porcos daquele país, o maior produtor e consumidor do planeta.
Os chineses não estão se limitando a importar carne de porco do Brasil. Compram de boi também, para complementar os estoques de proteína.
É só ver nos supermercados e churrascarias brasileiras para constatar como o preço do bife subiu.
Acredito que estamos entrando em um ciclo de alta das commodities, principalmente as agrícolas, em especial as agrícolas brasileiras. Isso é notícia para se soltar rojão.
Vale lembrar que dois períodos de grande crescimento do PIB brasileiro foram causados pela alta de nossas commodities.
Em meados dos anos 1970, durante o governo Médici, a libra-peso do café chegou a US$ 3,50 (valor não corrigido pela inflação americana). Nessa mesma época, o açúcar bateu US$ 0,66; o cacau, US$ 5.700,00 por tonelada. O bushel de soja foi negociado em Chicago a US$ 11,33.
Não foi por acaso que o PIB brasileiro cresceu 13,97% em 1973, no que se convencionou chamar de milagre brasileiro.
O segundo milagre ocorreu no governo do PT. O PIB de 2010 cresceu 7,5%, o melhor resultado em 25 anos. Duas foram as razões para isso: gastos do governo por se tratar de ano eleitoral; alta das commodities provocada por compras chinesas.
Tudo indica que um novo bull market do setor esteja começando. Isso será extremamente benéfico para o Brasil.
Se juntarmos essa bonança às reformas e privatizações que o governo federal está prometendo para 2020, estamos no limiar de um prolongado período de prosperidade.
São nessas viagens que faço mensalmente pelo universo das Bolsas, futuros e derivativos em geral, que vislumbro o que vem pela frente. Às vezes, me decepciono. Não foi o que aconteceu esta semana.
Para quem gosta de especular em derivativos, um novo ciclo de grandes oportunidades pode estar apenas se iniciando.
O bom é que tudo indica que, desta vez, o Brasil irá ganhar junto.
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