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Precisamos falar sobre “style drift”, ou quando o gestor se mete a fazer o que não sabe
O mundo deve ao meu pai. Ele tinha um amigo oftalmologista que o convenceu a fazer a cirurgia de miopia ainda em fase experimental. Como? Esse cara devia ser melhor de marketing do que a Empiricus.
Eu era bem nova, mas ainda me lembro como se fosse hoje do meu pai andando pela casa com uns óculos de Robocop enormes por alguns dias. Deu certo. Ele não se livrou de todos os mais de dez graus que tinha, mas de uma boa parte deles.
Minha irmã sempre se ressentiu de ter recebido a miopia como herança, até que ela própria fez a cirurgia. Antes disso, entretanto, eu fui por muito tempo os olhos dela pela manhã, antes das lentes assumirem essa posição. “Lu, o que tá escrito ali?”.
A cirurgia de miopia nos roubou umas boas gargalhadas. A melhor herança desse período foi o dia em que o Max, nosso bull terrier, tentou atacar logo pela manhã uma pomba na varanda que compartilhávamos com meu irmão.
Meu irmão, ainda deitado, colocou o braço para fora do quarto e conseguiu puxar o cachorro sabe-se lá como e segurá-lo firmemente: “A pomba foi embora? Posso soltar?” — gritou.
Minha irmã sentou na cama sonolenta e espichou o olhar. Respondeu em alto e bom som: “Pode!!!”.
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E aqui jaz uma pomba.
Contei essa história dia desses para a Ana, que trabalha comigo na avaliação de fundos aqui na Empiricus. Ela, que é míope e também tem um cachorro invocado, foi rápida: “Nossa, uma boa metáfora para os gestores que se metem a fazer o que não sabem”. Obrigada, Ana, por essa oportunidade de sacanear minha irmã em rede nacional.
O fenômeno relatado pela Ana e tão bem exemplificado pela minha irmã tem nome lá fora: “style drift”. O “desvio de estilo” é uma preocupação constante dos alocadores de fundos: você seleciona um gestor por sua capacidade de navegar em uma estratégia e, de repente, sem te perguntar, ele parte para outros mares, para os quais não necessariamente está capacitado.
Há uma preocupação de alocadores de fundos de que o fenômeno do style drift esteja tomando conta dos gestores de fundos multimercados brasileiros neste momento.
É fato que os gestores têm sido empurrados pela conjuntura macroeconômica brasileira a buscar novas fontes de retornos. Historicamente, eles ganharam muito dinheiro com a renda fixa local – seja com o patrimônio parado em LFTs (Tesouro Selic), seja com a queda dos juros.
Abre parênteses. Há quem menospreze essa capacidade dos gestores locais de ganhar com juros em queda. Dizem que qualquer um poderia fazer isso com uma dúzia de LTNs e NTN-Bs (títulos prefixados e indexados) adquiridas no Tesouro Direto. Eu discordo.
Acho que boa parte desses caras realmente se diferenciou com uma capacidade de antecipar movimentos do Banco Central e escolher os vencimentos certos. E considero os multimercados, quando bem escolhidos, um excelente instrumento para o investidor pessoa física que nada entende de investimentos aplicar como um profissional. Fecha parênteses.
Com o juro em patamar baixo e muito menos gordura na curva de juros futuros — que reflete as expectativas para a taxa —, os multimercados vão ter que buscar novas fontes de ganhos (ou reduzir a taxa de 2 por cento ao ano com 20 por cento de performance, mas isso é assunto pra outra hora).
E, sim, a maior parte deles têm procurado caminhos de diversificação, trocando a roda com o carro andando. Dentre as saídas estão principalmente investir mais em Bolsa e também em ativos no exterior (reduzir a taxa não vi ainda).
Essa guinada poderia ser chamada de “style drift”? E é potencialmente negativa, motivo para pedir resgates?
Não necessariamente. Em primeiro lugar porque, ao investir em um multimercado, por incrível que pareça, espera-se que o dinheiro seja alocado em múltiplos mercados. Não se trata de um fundo de renda fixa começando a operar ações.
Vejo com bons olhos a busca por novos mercados pelos gestores locais. Até acho que faz parte do trabalho pelo qual eles são remunerados.
Por outro lado, considero que nós, investidores de multimercados, podemos tomar alguns cuidados para que isso não coloque nossos retornos e, principalmente, preservação de capital em risco. Listo quatro abaixo:
1. Não concentrar demais – 10 por cento do seu patrimônio em um único gestor de multimercados está de bom tamanho. Mesclar uns cinco seria ótimo. Eles estão experimentando novos mercados e, principalmente no começo, podem errar a mão. Ter dinheiro demais ali pode levar você a se desesperar e sacar antes da recuperação. Rogério Xavier, Luis Stuhlberger, Marcio Appel são todos excelentes — mas também erram.
2. Dar preferência a gestores brasileiros que já operam Bolsa e mercados internacionais há algum tempo. Como? Observando o perfil da equipe, de onde vêm seus principais integrantes e, se possível, a atribuição de performance passada dividida por classe de ativo. Gestoras como SPX, pela expansão internacional, e Absolute, cujo gestor integrou a mesa de Bolsa do Santander e do Merrill Lynch, são bons exemplos de perfis que devem ser buscados.
3. Dar preferência a casas que adicionam uma nova estratégia aos poucos. O gestor recebe uma mesa, mas só vai adquirindo mais possibilidade de tomar risco à medida que mostra capacidade de ganhar dinheiro. A Kapitalo é um exemplo desse tipo de modelo (além de operar mercados internacionais e Bolsa há bastante tempo).
4. Há bons gestores de ações no Brasil, com históricos longos e bem testados. Se você só investe em multimercados, faz sentido diminuir um pouco sua alocação neles e dedicar um pouco a fundos de ações. Já que vamos para a Bolsa, melhor dividir essa tarefa com quem tem experiência no riscado. Apenas para dar três exemplos, sob risco de ser injusta, estão aí IP, Brasil Capital e Bogari com mais de uma década de história e bons retornos.
Estamos sempre de olho nos fundos que são oferecidos na indústria e, acredite, até em produtos que sequer nasceram. O mais novo a entrar no nosso radar é o multimercado da Kairós Capital, nova casa de um velho conhecido desse mercado, Luiz Fabiano Gomes Godoi.
Depois de dez anos na gestora do Safra — que totalizam uma história de mais de 20 anos na área —, Fabiano decidiu deixar o cargo de CEO e montar sua própria asset. Assim nasceu a “Kairós”, que, em grego, significa “tempo oportuno”.
O Kairós Macro, único fundo da casa, será lançado no fim deste mês. E, segundo Fabiano, terá o mesmo perfil do famoso fundo do Safra, o Galileo, que perdeu sua equipe ao longo dos últimos três anos: primeiro saiu Marcio Appel, para montar a Adam; depois Nicholas McCarthy, para o Itaú; e, por último, Fabiano.
É exatamente como sempre descreveu o segredo da consistência do Galileo que Fabiano explica a estratégia do Kairós: posições estruturais de longo prazo, traçadas para capturar um cenário macro projetado, complementadas por outras o menos correlacionada possíveis com elas. As segundas tendem a funcionar como uma proteção enquanto as teses principais não se realizam, porém não têm esse único objetivo: também têm potencial de ganho.
Não espere de Fabiano uma posição convencional, como o combo “comprado em Bolsa + vendido em real + aplicado em juros futuros”, estratégia preferida de muitos multimercados hoje. Em sua avaliação, o famoso “kit Brasil” é semelhante a investir em um só tema, aquele em que o país vai dar certo, com todas as classes de ativos viradas para um mesmo lado.
Ele prefere diversificar: “Quando pensamos em portfólio, a ideia é tentar refletir temas diferentes, em que entendamos que há valor para ser extraído ao longo do tempo, nas diferentes classes de ativos e diferentes geografias. E o ideal é que esses temas tenham a menor correlação possível entre si”.
Tradicionalmente, os fundos multimercados se concentram em estratégias de juros e câmbio, fruto da experiência pregressa dos gestores em tesouraria de bancos, mas Fabiano adianta que em seu time não há preferência por classe de ativos. Ele lembra que, antes da experiência no Safra, começou como gestor de ações no Banco Bozano e também foi responsável pela área de ações do Santander.
Na Kairós, as decisões serão centralizadas em Fabiano, com contribuições da equipe, que inclui Jorge Eduardo Kattar (ex-colega de Santander), Adriano Ouchi (ex-Itaú e Franklin Templeton), Rodrigo Gatti (ex-Rio Bravo e Ibiuna) e do economista Marco Maciel (ex-Bloomberg).
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