Após anos de decepção, PIB vai surpreender de novo, mas agora para cima, dizem gestores de fundos
Responsáveis pela gestão de mais de R$ 30 bilhões, Ibiúna, Kapitalo e Legacy veem espaço para Banco Central manter o processo de queda de juros, mas piso para a Selic é ponto de discórdia. Eles também contam onde estão investindo e quais os riscos no radar

Depois de anos de decepção, incluindo agora em 2019, a economia brasileira vai voltar a surpreender. Mas agora para melhor. A expectativa é de três experientes gestores de fundos multimercados: Rodrigo Azevedo, da Ibiúna, Carlos Woelz, da Kapitalo, e Felipe Guerra, da Legacy. Juntos, eles são responsáveis por administrar mais de R$ 30 bilhões em recursos.
Com a inflação controlada, os gestores veem espaço para o Banco Central manter o atual ciclo de queda da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 5,5% ao ano. Mas a volta do crescimento vai permitir ao BC testar novas mínimas para as taxas sem a necessidade de apertar ainda mais o passo.
Ou seja, a aposta é pela manutenção do atual ritmo de cortes de 0,5 ponto percentual. O ponto de discórdia é sobre qual será o novo piso da Selic.
[captacao]
Azevedo, Woelz e Guerra participaram de um painel em um evento promovido ontem à tarde pelo BTG Pactual para assessores de investimento plugados na plataforma digital do banco.
Para dar uma dimensão da importância que esse negócio ganhou para o BTG, o evento foi aberto por André Esteves, o principal sócio do banco, e quem mediou o debate dos gestores foi o próprio presidente da instituição, Roberto Sallouti.
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Lado a lado
Para Azevedo, que foi diretor do Banco Central, a queda da Selic para as mínimas históricas é fruto de uma inédita situação em que a política monetária e fiscal caminham juntas. "O juro caiu e, mais importante, essa condição veio para ficar", disse.
Azevedo e Mário Torós, sócio dele na Ibiúna e que também passou pelo BC, participaram de nada menos que 46 decisões do Copom. Com toda essa experiência, Azevedo diz que o BC faz bem em testar gradualmente qual será a nova taxa de juros de equilíbrio da economia.
"É possível que a gente descubra que a taxa de juros no final do ciclo seja abaixo de 4%."
A atual combinação de um pé no freio nos gastos públicos e o outro no acelerador com a redução de juros tem como resultado a taxa de câmbio depreciada. "Esse é um mix muito mais saudável para o crescimento do país a médio prazo", disse Azevedo.
O fim do pibinho
Felipe Guerra, sócio fundador da Legacy, também vê espaço para o BC para pelo menos mais um corte da Selic no atual ritmo de 0,50 ponto. Mas está mais conservador com relação a uma queda maior das taxas.
O motivo, contudo, é nobre: ele se diz mais animado com o crescimento do país que a média do mercado. Para Guerra, a era das expectativas frustradas com o PIB brasileiro, que dura pelo menos três anos, chegou ao fim.
"Estou bastante seguro de que desta vez vai ser diferente."
O gestor afirmou que os dados da economia estão melhorando e mostram que o país já está crescendo. A Legacy projeta um avanço de 0,5% do PIB no terceiro trimestre e de 1% nos últimos três meses do ano. "O Brasil fecha o ano crescendo forte."
Para 2020, o gestor espera uma expansão da economia superior a 2,5%, acima da média de 2% projetada hoje pelo mercado. Com o aquecimento da atividade, ele acredita que o BC deve diminuir o ritmo de cortes da Selic.
Carlos Woelz, sócio-diretor da Kapitalo, concorda com o diagnóstico de que a economia desta vez vai surpreender para melhor. Mas, ao contrário do gestor da Legacy, ele vê espaço para os juros continuarem em queda diante do atual cenário de inflação abaixo da meta.
"Toda vez que a gente tentou jogar contra o que o sistema de metas estava dizendo foi um erro."
Os cinco bês
Nesse cenário de juros baixos e volta do crescimento, onde as gestoras de fundos multimercados estão aplicando o dinheiro dos investidores?
O gestor da Legacy resume o portfólio dos fundos da casa com a sigla "BBBBB". O que isso significa? Comprado no Brasil em Bolsa, BRL (real), Breakeven (inflação implícita) e NTN-B (título público corrigido pela inflação).
"O bê" que a gente mais gosta é a bolsa, e depois o câmbio", detalhou Guerra, que aposta no dólar em queda com a expectativa de uma forte entrada de recursos estrangeiros ao país, combinada com uma depreciação global da moeda norte-americana.
Suco e relógio
Para a Ibiúna, reconhecida no mercado pela especialização em política monetária, o "suco" que podia ser extraído ganho com a queda estrutural dos juros no mundo está se exaurindo, mas ainda existem oportunidades de aproveitar o corte e a manutenção nas taxas em níveis baixos no Brasil.
A gestora também resolveu recentemente experimentar as águas de um mercado no qual não havia navegado nos últimos meses: a bolsa.
Azevedo disse que a posição parte do princípio de que a economia global não deve entrar em recessão, que levaria a uma queda das ações no mercado norte-americano e, por consequência, também no Brasil.
Woelz, da Kapitalo, também se mostrou otimista com a bolsa brasileira. Mas disse que as perspectivas poderiam ser ainda melhores se o resto do mundo ajudasse.
Ao comparar o tempo restante de expansão da economia global real a um relógio, o gestor disse os ponteiros passaram das 9 horas para as 10 e meia. "Piorou muito a minha previsão de tempo de expansão da economia global pela frente."
Nuvens carregadas
Os maiores riscos para o cenário otimista traçado pelos gestores vêm de fora. Além da possibilidade de um pouso turbulento da economia norte-americana, outro fator de preocupação vem das eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2020.
O risco, no caso, se chama Elizabeth Warren. A possibilidade de a senadora democrata se tornar candidata e bater Donald Trump nas eleições deve afetar os mercados lá fora e também por aqui. "Nessa hora a gente vai ser só passageiro", afirmou Guerra, da Legacy.
Para o sócio da Kapitalo, a guerra comercial, outro fator que balançou os mercados ao longo deste ano, veio para ficar. Mas teve menos efeitos para a economia como um todo do que se esperava.
O fator Paulo Guedes
E aqui no Brasil, como podemos estragar o bom momento a economia? A resposta do gestor da Ibiúna também tem nome e sobrenome: Paulo Guedes.
É consenso que uma eventual saída do ministro pode provocar um desarranjo. "É um problema institucional depender de uma pessoa, mas sem ele meu cenário muda muito", afirmou o gestor da Ibiúna.
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