O aumento no endividamento mundial apresentou forte desaceleração em 2018. A constatação é do Instituto Internacional de Finanças (IIF) que computou um aumento de apenas US$ 3,3 trilhões na dívida global no ano passado, depois um salto de US$ 21 trilhões em 2017.
Ainda assim, a montanha de dívida mundial é de US$ 243 trilhões, o equivalente a 317% do Produto Interno Bruto (PIB) global, considerando população, empresas, governos e bancos.
O acompanhamento dessas cifras astronômicas é relevante pois ajudam a mostrar o quadro geral de alavancagem da economia e quão desastrosas pode ser a próxima crise financeira.
Não por acaso vimos o mundo tremer quanto o Federal Reserve (Fed), banco central americano, chegou a falar em três ou quatro elevações de juros neste ano de 2019, no fim do ano passado, e o consequente alívio com o aceno de que novas elevações no custo do dinheiro saíram no radar ao menos no curto prazo.
Segundo o IIF, todo o aumento de dívida aconteceu no primeiro trimestre do ano passado, quando a soma atingiu US$ 248 trilhões. Depois houve um recuou e relativa estabilidade para o restante do ano.
E o Brasil com isso?
Olhando apenas as economias emergentes, onde o Brasil está incluso, o crescimento da dívida foi de US$ 1 trilhão, menor ritmo desde 2001, e ficou concentrado no setor doméstico não financeiro. Como as economias também cresceram, a relação dívida sobre o PIB emergentes ficou praticamente estável em 212%.
O Brasil é destaque negativo quanto se olha a dívida governamental, que na métrica do IIF, bateu 86,8% do PIB no ano passado, contra 83,2% em 2017.
A média dos pares emergentes é de 49,7% do produto. Segundo o IIF, esse percentual é recorde e foi puxado pelos países da América Latina e Ásia.
De toda a amostra considerada, a dívida pública brasileira só não é maior que a do Egito (92,5%) e a do Líbano (150%).
O IIF alerta que esse elevado estoque de dívida tem resultado em crescente pagamento de juro da dívida, notadamente no Brasil, Egito e Líbano, cenário que pode resultar em maiores impostos junto com um esvaziamento do investimento público.
Esse alerta do IIF nos é bastante familiar, pois é o crescimento das despesas públicas, financiadas via emissão de dívida, que o governo quer atacar com a reforma da Previdência. Ao mesmo tempo, Paulo Guedes fala em fazer grandes privatizações para reduzir essa conta de juros.
Ainda sobre o Brasil, o IIF mostra que a dívida das famílias equivale a 28,1% do PIB, contra a média emergente de 37,6%. Já a dívida das empresas é pequena se comparada aos pares, totalizando 42,2% do PIB, contra 91,7% do PIB dos emergentes. Já a dívida do setor financeiro se mostra em linha com os demais, ficando em 35,5% do PIB, ante 33,6% da média.
Desenvolvidos
Entre os mercados desenvolvidos a relação dívida/PIB ficou em 390% do PIB. A estabilidade do dado agregado, no entanto, mascara discrepâncias entre os países. Japão, França e Austrália se endividaram mais, enquanto Irlanda, Holanda e Portugal reduziram seus patamares de endividamento.
Dívida nos EUA
A dívida total nos EUA subiu em US$ 2,9 trilhões, somando US$ 68 trilhões em 2018, maior crescimento anual desde 2007. Quem puxou o aumento do endividamento por lá foi o governo, respondendo por 40% do aumento, tendência que deve se repetir em função do elevado déficit público.
No entanto, como a economia cresceu de forma vigorosa no ano passado, a relação dívida total sobre o PIB ficou em 326%, menor patamar desde 2005.
Enquanto a dívida doméstica e do setor financeiro cresceram de forma moderada, permanecendo em patamares inferiores ao da crise de 2008, a dívida das empresas não financeiras foi a 73% do PIB do país, se aproximando dos patamares pré-crise.
A dívida das empresas é vista como um vetor de risco, ainda mais se o Fed retomar alta de juros e a economia entrar em recessão. Juros mais altos aumentam o gasto com o serviço da dívida em um momento de perda de receita.
A dívida do governo se mantém ao redor dos 100% do PIB desde 2015 e segue cerca de 30 pontos percentuais acima do período pré-crise.
China
Os esforços governamentais para reduzir a alavancagem financeira mostram resultado, com a dívida total da China rondando os 290% do PIB desde 2016. A dívida do setor não financeiro está entre 150% a 155% do PIB, abaixo do pico de 2016, mas ainda entre os maiores patamares do mundo.
Já a dívida doméstica, carregada pelos chineses, subiu mais de 40% desde 2016, marcando 52% do PIB, com o aumento do endividamento da população acontecendo em velocidade muito superior ao crescimento de sua renda. O IIF alerta que tal crescimento deixa a população muito mais vulnerável às oscilações do ciclo econômico.