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Estadão Conteúdo

Entrevista

‘Não se pode ficar de malzinho com os EUA’

Executivo da Cargill assume hoje o conselho da Amcham, entidade que comemora 100 anos no Brasil

Estadão Conteúdo
10 de abril de 2019
10:40 - atualizado às 10:43
Luiz Pretti
Luiz Pretti - Imagem: Youtube/ Reprodução

O alinhamento entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos é um avanço para as relações comerciais brasileiras e a expectativa da Câmara Americana de Comércio (Amcham) é que os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump evoluam nas conversas de negociação de um acordo de livre-comércio. "Os EUA são o maior consumidor do mundo. Não se pode ficar de malzinho, entre aspas, com eles", diz o presidente da Cargill no Brasil, Luiz Pretti.

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Confira uma entrevista com o executivo, que assume nesta quarta-feira, 10, a presidência do conselho de administração da Amcham, em cerimônia de comemoração dos 100 anos da entidade no Brasil.

Como o sr. vê a relação entre Brasil e EUA sob as administrações de Bolsonaro e Trump?

A relação no governo anterior (de Dilma Rousseff) estava meio jogada de lado. Os EUA são o maior consumidor do mundo. Não se pode ficar de malzinho, entre aspas, com ele. As empresas americanas, em 2018, injetaram no Brasil US$ 3,2 bilhões, o que representa 25% do total de investimento estrangeiro direto. Elas geram 650 mil empregos diretos aqui. O Brasil é hoje o segundo maior gerador de empregos nos EUA entre os países emergentes. A gente vê com muito otimismo essa aproximação do novo governo. Claro, tem muita coisa para ser desenvolvida, que precisa ser debatida pela sociedade no Congresso, mas (a aproximação dos países) é um fator bastante produtivo. Nós fizemos um estudo, com a FGV, que mostra que, se Brasil e EUA assinassem um acordo de livre-comércio, o PIB brasileiro acumulado até 2030 cresceria 0,44% ao ano.

Quando o presidente Bolsonaro foi aos EUA, havia uma expectativa de que ele e o presidente Trump falassem que os países iriam caminhar em direção ao livre-comércio. Isso não ocorreu...

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Mas somos otimistas nesse ponto. Com certeza, essa é a pretensão dos dois governos. Não é uma coisa mais de governo, mas de Estado. É como a reforma da Previdência, o Brasil precisa fazer, não o governo. Deixar o Brasil um pouco mais aberto e criar um ambiente melhor de negócios, isso com certeza está alinhado (entre os dois países).

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O Brasil tem de se abrir, mas trabalhando um projeto de livre-comércio, acabando as barreiras protecionistas e burocráticas dos dois lados. O Brasil tem uma participação muito pequena no comércio internacional. Nossas trocas com o mundo equivalem a 1,2% do comércio global. Precisamos dar maior prioridade ao comércio exterior como plataforma de transformação econômica do País. Nos últimos 70 anos, todos os países que conseguiram mudar de patamar econômico tiveram entre 40% e 50% do seu PIB como resultado da soma de exportações e importações. Precisamos ser protagonistas dessas negociações internacionais, e não apenas espectadores. Nesse quesito, o mercado americano deve ser prioritário.

O momento em que o sr. assume o conselho da Amcham é, então, de caminho aberto entre os países?

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Tenho muita sorte. Os dois governos estão sentados, conversando. A Amcham está fazendo cem anos e somos otimistas. A Câmara acredita que a reforma tributária vai ser aprovada, que o combate à corrupção vai ser intensificado, que governo vai propor queda da burocracia.

Há uma preocupação que o alinhamento entre Brasil e EUA possa se romper se um democrata vencer as eleições americanas no ano que vem. Caso isso ocorra, o fato de Bolsonaro ter dito que torce por Trump em 2020 pode prejudicar os empresários brasileiros?

A relação entre os maiores países da América tem de ser institucional, e o americano entende muito bem isso. Nossa relação não poderia estar tão afastada quanto já esteve. Independentemente do apoio a um ou a outro presidente, é importante que as relações sejam de longo prazo e institucionais. O americano é muito pragmático e acredito que vai continuar sendo se for o governo A ou B.

O alinhamento entre Brasil e EUA não pode acabar prejudicando o empresariado brasileiro, ao colocar a China em segundo plano?

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Vou usar uma analogia super pobre: é como amor de mãe. O fato de o Brasil ter se reaproximado dos EUA não é excludente. A relação Brasil e China tem de continuar sendo construtiva. A China é o maior consumidor de produtos agrícolas. O fato de a gente se aproximar dos EUA não quer dizer que a gente precisa se afastar da China.

Surgiu uma preocupação porque o presidente já criticou a China e provocou os países árabes ao anunciar a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, apesar de ter recuado.

O que pode ter acontecido é que o presidente entrou em campo e não estava totalmente aquecido. As coisas então sendo revistas. Esse negócio de Israel mesmo: o ministro Ernesto Araújo disse nessa terça-feira, 9, que tem uma aproximação forte com os países árabes também. Não dá para querer se isolar, estrategicamente é ruim para qualquer país.

Com informações do jornal O Estado de S. Paulo.

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