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Percepção de que no fundo do poço não tem um alçapão vem da leitura de relatórios de casas especializadas no mercado chinês que vou apresentar ao longo desta conversa
O título da nossa conversa parece contra intuitivo, mas o ponto é que a economia chinesa dá sinais de que chegou ao fim de seu ciclo e, agora, teria espaço para voltar a se recuperar. O que é boa notícia para o Brasil e para o conjunto de economias emergentes.
A percepção de que no fundo do poço não tem um alçapão, ao contrário do que já vivenciamos aqui no Brasil, vem da leitura de relatórios de casas especializadas no mercado chinês que vou apresentar ao longo desta conversa de domingo.
Alpine Macro e GaveKal têm algumas diferenças nas avaliações, mas o ponto comum é que a China e os demais emergentes têm chance de surpreender positivamente ao longo da próxima década. Mais importante ainda e para sorte dos investidores, esse cenário que se mostra cada vez mais provável está longe de ser precificado nos mercados de títulos, commodities ou mesmo pelos mercados de ações.
Depois de um giro pela Ásia, o estrategista-chefe da Alpine Macro, Chen Zhao, escreveu um relatório falando que está convencido de que a economia chinesa está se estabilizando depois de um período de menor crescimento e que há espaço para retomada. Segundo Zhao, o pessimismo com o mercado financeiro chinês se mostrou exagerado.
Além das questões conjunturais chinesas, o analista avalia que o ambiente global de reflação, com os BCs dando estímulos de forma coordenada, é outro vetor-chave para o desempenho dos ativos de risco.
Zhao alerta para o fato de que o governo chinês não quer uma retomada rápida do crescimento. As autoridades chinesas estão fazendo um ajuste fino para garantir um patamar constante de crescimento anual na casa dos 6%.
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O que temos é uma combinação de estímulo fiscal, cortes de juros, injeções de liquidez e um câmbio desvalorizado. Todos vetores vão trabalhar para reverter o momento deflacionário, levando a uma recuperação no crescimento chinês já no começo de 2020.
Zhao também nos traz uma interessante avaliação sobre como as autoridades chinesas, ou parte delas, encaram o presidente americano Donald Trump.
Em Beijing é consenso que os EUA vão se tornar cada vez mais hostis às aspirações chinesas e o temor é com um confronto mais amplo e aberto. Mas Zhao se disse surpreso com a avaliação prevalente em alguns círculos políticos de que Trump é a melhor aposta para a China evitar um confronto ainda maior com os EUA.
No cálculo chinês, Trump é um comerciante, um negociador, portanto pode ser “comprado” com dinheiro e acordos comerciais. Já outros políticos americanos, como Marco Rubio, Nancy Pelosi ou Chuck Schumer, são mais ideológicos e encaram a China como uma ameaça à segurança nacional e ao “american way of life”.
Fica a dúvida levantada pelo especialista: ao aceitar os termos de um acordo comercial em fases e deixar que Trump se prepare para declarar “vitória” na guerra comercial, estaria Xi Jinping tentando ajudar a reeleição de Trump?
A GaveKal é uma casa de análises que se mudou de Londres para Hong Kong em 2003 dada à convicção de que o crescimento do mundo viria de lá. De fato, desde então, a própria casa se diz surpreendida com a economia chinesa. Mas acredita que os dias nos quais a China conseguia sozinha mudar o eixo de crescimento global estão chegando ao fim.
Assim, para responder à pergunta da clientela sobre de onde virá o crescimento, a GaveKal responde: “mercados emergentes”.
Vamos à tese de Louis-Vincent Gave. Primeiro ele cita uma mudança no panorama político, com o avanço do acordo EUA-China e do Brexit. São eventos que reduzem a incerteza e o risco, tirando força do dólar e dos títulos americanos como ativos de proteção. Dólar fraco, geralmente, é boa notícia para emergentes.
O segundo ponto é a mudança na política monetária. O Fed já cortou e pode fazer nova redução de juros. Além disso, também voltou a usar seu balanço para compra de títulos e fazer injeção de liquidez. Essa é mais uma indicação de dólar fraco. Tratamos um pouco dessa tese nesta matéria aqui.
Terceiro, a própria China está injetando liquidez no seu sistema financeiro e afrouxando a política monetária. A GaveKal fala que os dias dos enormes pacotes de estímulo ficaram para trás, mas que as autoridades chinesas não vão deixar a economia ir para o buraco. Os emergentes são os grandes beneficiados por esses ciclos de estímulos da China.
Segundo a GaveKal, a combinação de um fim de ciclo de dólar alto e estímulos na China já seria suficiente para uma boa retomada cíclica de emergentes. Mas tem algo mais acontecendo. Para quase todo emergente que olhamos, encontramos reformas fiscais significativas, como Brasil e Índia, importantes mudanças regulatórias (Brasil, Índia e Indonésia) ou ajustes de juros relevantes. Em suma: ajustes no lado fiscal, regulatório e monetário.
O exemplo prático dado pela casa de análises é o seguinte: Cortar juros de -0,4% para -0,5% tem pouco impacto sobre a atividade, em referência ao mundo desenvolvido. Mas um corte de juro de 7% para 5%, caso brasileiro, estimula o consumo, o investimento e a tomada de risco.
Considerando essas premissas todas, o que falta para os investidores se animarem com esse caso de retomada cíclica de emergentes?
Para a GaveKal, uma possível explicação é que os investidores se acostumaram a encarar os emergentes sob o prisma da China. Assim, como a perspectiva para a China parece modesta em termos históricos, grande parte dos investidores pode chegar à conclusão de que os demais emergentes também são pouco atrativos.
Mas isso também é boa notícia. Essa conclusão "precipitada e simplista", segundo a GaveKal, é sinal de que o investidor ainda pode se posicionar pagando preços relativamente baratos para ganhar dinheiro nessa retomada dos mercados emergentes. Em um mundo de dólar perdendo força, os emergentes ganham espaço para fazer políticas estimulativas e é isso que está acontecendo.
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