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Fase um do acordo comercial entre EUA e China pode ficar para 2020, diante das dificuldades dos dois países em alcançar consenso
Relatos de que a fase um do acordo comercial entre Estados Unidos e China pode ficar para o ano que vem preocupa o mercado financeiro, que teme por um novo impasse, pouco tempo depois do anúncio de que a primeira etapa seria assinada em meados deste mês garantiu um rali nos ativos de risco. O ressurgimento das incertezas pesou ontem em Wall Street, que fechou no vermelho e contrata um ajuste negativo nos negócios locais hoje, após a pausa por causa do feriado em São Paulo.
Ainda assim, o desmentido da Casa Branca sobre o adiamento da primeira fase do acordo para 2020 aliviou a pressão sobre as bolsas de Nova York, que tiveram quedas moderadas ontem. Hoje, na Ásia, as principais bolsas fecharam no vermelho, com as perdas lideradas por Hong Kong (-1,5%), diante da possibilidade de EUA e China não alcançarem um consenso ainda neste ano. Xangai caiu 0,3% e Tóquio recuou 0,5%.
Nesta manhã, os índices futuros em Nova York têm leves baixas, após o vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, dizer que está “cautelosamente otimista” sobre conseguir um termo preliminar com os EUA. Ele é o principal negociador comercial da China e, durante um jantar, teria dito que estava “confuso” sobre as demandas da Casa Branca para firmar um acordo, mas que acredita que algo será alcançado.
Com isso, os demais ativos de risco mostram cautela, sem descartar totalmente que não haverá um acordo comercial sino-americano. Pela perspectiva do mercado, um pacto será assinado - do contrário, a volatilidade será extrema. Por isso, ainda não há um busca desenfreada por proteção. O iene e o ouro recuam, devolvendo os ganhos da madrugada, com o dólar medindo forças em relação às moedas rivais. O petróleo também cai.
Os investidores esperam que as duas maiores economias do mundo cheguem a um consenso antes que novas e mais prejudiciais tarifas norte-americanas contra US$ 160 bilhões em produtos chineses entrem em vigor, em meado de dezembro. Essa rodada adicional de taxação tende a atingir o consumidor dos EUA, uma vez que abrange smartphones, laptops e outros bens de consumos, às vésperas das compras de fim de ano.
Mas a dificuldade de EUA e China de chegar a um consenso, assinando um termo preliminar que seria o primeiro passo para um acordo mais amplo, capaz de resolver uma série de questões polêmicas, testa a confiança dos investidores. Antes, acreditava-se na eficácia de estímulos adicionais por parte dos principais bancos centrais para mitigar os impactos da guerra comercial. Mas talvez o mercado tenha se animado cedo demais.
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A teimosia do presidente dos EUA, Donald Trump, em reverter as taxações existentes e suspender novas tarifas contra produtos chineses sem novas concessões de Pequim, que vão além de compras agrícolas - querendo uma vitória unilateral na guerra comercial - e o pessimismo da China de que a Casa Branca irá cumprir o combinado tornaram-se um obstáculo. Tanto que não está certo quando nem onde a fase um do acordo será assinada.
O fim do impasse depende de uma postura pró-ativa de ambos os lados, mas EUA e China resistem em assumir tais compromissos, o que pode resultar em um acordo “magro”. Tudo isso causa tensão nos mercados globais, realimentando o temor em relação ao crescimento econômico à frente, pois quanto mais prolongada for a guerra comercial, maior tende a ser o impacto na atividade.
Como se não bastasse essa disputa comercial, o projeto aprovado no Congresso dos EUA nesta semana que trata da questão de direitos humanos em Hong Kong tensiona ainda mais a relação sino-americana. A lei, que foi aprovada pela Câmara dos Deputados ontem após aprovação no dia anterior no Senado, foi encaminhada para assinatura de Trump, o que irritou Pequim, dizendo que Washington não deve se intrometer em assuntos internos.
Nem mesmo a postura expansionista do Federal Reserve serve de contrapeso. Desde que teve início a quarta rodada do programa de afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês), o Fed tem conseguido prover liquidez aos mercados, apesar de negar que as operações iniciadas em meados de setembro e efetivadas a partir de outubro no mercado interbancário tenham os mesmos moldes das três edições anteriores.
Divulgada ontem, a ata da última reunião do Fed, quando sinalizou o fim do “ciclo preventivo” de cortes nos juros norte-americanos, pouco tratou do tema. O documento apenas tratou de esclarecer que uma continuidade do processo de afrouxamento monetário poderia levar a taxa básica nos EUA para próximo de zero, tornando-se uma ferramenta menos eficaz, em caso de piora do crescimento econômico e do comércio internacional.
A questão é que o dinheiro novo jorrado pelo Fed não transborda para a economia real e serve apenas para empoçar a liquidez dos mercados, após um problema de escassez de dólares detectado pela unidade de Nova York, que deu início às operações que não era vistas desde 2009. E essa atuação do BC dos EUA (e da zona do euro) serviu apenas para desviar o foco dos mercados da tensão comercial sino-americana, engatando um rali global.
Recentemente, porém, parte desse estímulo vindo do Fed perdeu força, sinalizando que o mercado financeiro exagerou ao precificar um acordo comercial sólido e estrutural entre as duas maiores economias do mundo, capaz de garantir uma recuperação da atividade pelo mundo. Ainda é cedo para falar em mudança de tendência nos negócios, mas certamente a dinâmica dos ativos mais arriscados está mais desafiadora - inclusive os brasileiros.
No âmbito local, porém, cabe um parênteses. Afinal, a disparada da Bolsa brasileira rumo a novas máximas históricas, em um processo iniciado após as eleições presidenciais de 2018, foi puxada fortemente pelos investidores locais. Como já dito aqui, o “gringo” não comprou o governo Bolsonaro e, por isso, já retirou mais de R$ 35 bilhões da renda variável doméstica (mercado secundário) desde o início do ano.
Essa ausência do capital estrangeiro no Brasil é evidenciada pelos dados do Banco Central sobre o fluxo cambial. No acumulado de 2019 até meados de novembro, houve a saída de US$ 37,9 bilhões apenas pela via financeira, que anula o saldo positivo registrado pela conta comercial no período, resultando em uma retirada recorde de dólares do país de quase US$ 23 bilhões no ano.
Por isso, o investidor local aguarda ansiosamente a chegada dos estrangeiros. A expectativa é de que quando os “gringos” vierem, haverá uma nova puxada no mercado doméstico, ampliando o rali da Bolsa para além dos 110 mil pontos e enfraquecendo o dólar, com a moeda norte-americana voltando a ficar abaixo de R$ 3,90. Mas, e se eles não vierem? Quanto mais fôlego os players locais têm para esticar os ativos domésticos? E quanto mais prêmios podem ser retirados dos juros futuros, renovando o piso histórico da Selic indefinidamente?
Aliás, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tratou de esclarecer ontem uma fala do dia anterior, dizendo que se houver contaminação da valorização do dólar na inflação, a resposta será dada nos juros, e não com intervenções cambiais. Durante audiência em outra comissão na Câmara, ele disse que tinha sido mal-interpretado e explicou que a condução da política monetária pode ser revista, caso o movimento do câmbio afete as expectativas, contaminando o canal da inflação.
A agenda econômica está mais fraca no Brasil, trazendo apenas o dados sobre o emprego formal (Caged) em outubro (15h). Entre os eventos de relevo, merece atenção a convenção em Brasília para a criação do novo partido do presidente Jair Bolsonaro, o Aliança pelo Brasil, após a desfiliação do PSL, na última terça-feira.
No exterior, o calendário nos EUA traz os pedidos semanais de auxílio-desemprego e o índice regional de atividade na Filadélfia em novembro, ambos às 10h30. Depois, é a vez de indicadores antecedentes e sobre o setor imobiliário em outubro (12h). No mesmo horário, será conhecida a prévia deste mês do índice de confiança do consumidor na zona do euro.
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