Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado: é hora de vender ou comprar mais?
Desde os piores momentos da nossa crise, entre 2014 e 2016, títulos públicos prefixados e atrelados à inflação se valorizaram bastante; ainda há espaço para valorização ou é hora de vender?

Quem, como eu, comprou títulos públicos prefixados e atrelados à inflação nos idos de 2014, 2015 e 2016 deve abrir um sorriso ao olhar seu extrato do Tesouro Direto. As NTN-B, negociadas na plataforma do governo como Tesouro IPCA+, e os títulos prefixados se valorizaram um bocado. Principalmente os de longo prazo.
Em geral, especialistas não recomendam que o investidor pessoa física opere títulos públicos com o intuito de ganhar com a sua valorização. Eu mesma nunca pensei em fazer isso.
A orientação é levar os títulos até o fim do prazo, garantindo a rentabilidade contratada. E sempre casar os vencimentos com as datas de concretização dos seus objetivos financeiros.
Isso porque os títulos prefixados e atrelados à inflação, especialmente os mais longos, têm altíssima volatilidade.
“Especular com títulos públicos não é trivial. A perda pode ser maior do que na bolsa de valores, sendo que na bolsa o investidor já espera volatilidade, e na renda fixa, nem sempre”, diz Rodrigo Borges, gestor de renda fixa da Franklin Templeton.
“Se o investidor quer aproveitar oportunidades de compra e venda na renda fixa, melhor investir num fundo”, diz Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama. Para ela, a especulação com títulos públicos é mais para o investidor profissional.
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Só que quando a gente vê uma valorização gorda, é difícil não ficar tentado e não se perguntar se é hora de vender e embolsar os ganhos.
A resposta, como quase sempre acontece no mundo dos investimentos, é: depende. Mas, no geral, daria para afirmar que é melhor manter até o vencimento, salvo algumas exceções. E eu vou te explicar por quê.
O que mexe com os preços dos títulos públicos
Bem, primeiro vamos entender, em linhas gerais, o que mexe com os preços desses papéis e por que eles se valorizaram tanto nos últimos anos. Se você já estiver familiarizado com isso, pode pular para o intertítulo seguinte.
A gente diz que os títulos públicos têm baixo risco porque são garantidos pelo governo federal. Mas os prefixados e os atrelados à inflação têm alta volatilidade. Em outras palavras, os títulos públicos têm baixo risco de calote, mas alto risco de mercado.
Se você leva um título público até o vencimento, você vai receber exatamente a rentabilidade contratada: a variação da Selic, no caso do Tesouro Selic (LFT); uma taxa prefixada, no caso do Tesouro Prefixado (NTN-F e LTN); ou uma taxa prefixada mais a variação da inflação oficial, no caso do Tesouro IPCA+ (NTN-B e NTN-B Principal).
No entanto, quando vendidos antes do vencimento, os títulos são sempre negociados a preço de mercado.
No caso do Tesouro Selic, a tendência é que o preço de venda seja maior que o preço de compra, então você acaba tendo uma rentabilidade positiva de qualquer forma.
Mas os prefixados e as NTN-B podem tanto se valorizar quanto se desvalorizar. Seus preços de mercado são influenciados pelas perspectivas para as taxas de juros até a data do seu vencimento.
Se a perspectiva do mercado for de alta nos juros, a remuneração desses papéis hoje sobe, mas seu preço de mercado cai. Do contrário, se a expectativa for de que os juros caiam, a remuneração desses papéis diminui e seu preço aumenta.
Entre 2014 e 2016, as remunerações das NTN-B estavam superiores a 6% ao ano mais IPCA, e hoje estão na casa dos 5% - algumas abaixo disso. No caso dos prefixados, as remunerações estavam em dois dígitos naquela época, e hoje estão entre 8% e 10%.
Conforme as perspectivas para as taxas de juros foram caindo, os preços de mercado desses títulos foram subindo. E quanto maior o prazo, mais voláteis os papéis, e portanto, maior a valorização.
Veja bem, em outubro de 2015 eu comprei uma NTN-B com vencimento em 2024 a uma taxa de 7,25% ao ano acima do IPCA. De lá para cá, a rentabilidade dela, segundo o meu extrato do Tesouro Direto, foi de 11,59% ao ano + IPCA.
Se eu a vendesse hoje, teria uma rentabilidade líquida acumulada de cerca de 55%, contra um retorno líquido de mais ou menos 31% em um CDB que pagasse 100% do CDI. Isso é quase 175% do CDI em cerca de três anos.
Eu não tenho Tesouro Prefixado (LTN) na carteira, mas se eu tivesse comprado, na mesma data, uma LTN com vencimento em 2021, eu teria contratado uma taxa de 15,20% ao ano. Ela teria se valorizado quase 178% desde então.
Por que NTN-B e prefixados valorizaram
Mas por que os títulos naquela época estavam pagando taxas tão altas (e, com isso, ficaram tão baratos)? Bem, o período de 2014 a 2016 coincidiu justamente com a nossa mais recente recessão.
As nossas contas públicas mostravam sinais de forte deterioração (e até hoje preocupam), o que inclusive culminou com a perda do nosso grau de investimento no fim de 2015.
Passamos também, entre dezembro de 2015 e agosto de 2016, por uma forte crise política, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Além disso, o cenário externo atrapalhou. Os sinais de recuperação da economia americana em 2014 levaram o mercado a se preparar para que os Estados Unidos começassem a elevar suas taxas de juros, o que atrairia capital dos países emergentes de volta para lá.
O processo de alta dos juros americanos de fato começou no fim de 2015, quando o dólar chegou a ir a R$ 4. E a cotação do dólar também pesa nas projeções das taxas de juros.
Conforme o governo interino foi implementando reformas e a economia voltou lentamente aos trilhos, os juros futuros foram recuando.
Durante a corrida eleitoral, chegamos a ter novamente pressão nos juros futuros e na inflação, devido ao temor do mercado de que o PT retornasse ao poder e, com ele, a política econômica que nos levou à crise.
Mas depois da eleição de Jair Bolsonaro, a perspectiva de um governo mais liberal na economia e potencialmente reformista derrubou as taxas novamente.
Mas e agora: é para vender, manter ou comprar mais?
A situação fiscal brasileira ainda preocupa e há incertezas sobre a capacidade de o novo governo de fato implementar medidas de caráter mais liberal, notadamente a reforma da Previdência.
Mesmo assim, por ora há um certo otimismo em relação às nossas perspectivas econômicas. A Selic está em 6,5% ao ano, patamar mais baixo da nossa história, e o mercado espera apenas uma leve alta para 8% para os próximos anos. A inflação está bastante controlada, pouco abaixo do centro da meta de 4,5% nos últimos 12 meses.
Os títulos prefixados e atrelados à inflação teriam espaço para valorizar mais? É hora de comprar, dado esse relativo otimismo? Ou seria uma boa embolsar os ganhos?
Vamos por partes.
Vender ou não vender, eis a questão
Não há uma resposta pronta para essas questões, mas de maneira geral, a decisão de vender agora está condicionada ao que você vai fazer com esse dinheiro.
Se você vai precisar usar esses recursos no curto prazo, para concretizar um objetivo, digamos, dentro de um ano, pode ser uma boa vender e deixar o dinheiro aplicado em um investimento pós-fixado, como o Tesouro Selic (LFT) ou um CDB de liquidez diária.
Dessa forma, você sai do risco e entra na certeza de estar atrelado à taxa básica de juros, garantindo os recursos de que você já sabe que irá precisar dentro de pouco tempo.
Essa é a opinião do planejador financeiro Raphael Cordeiro, sócio da Inva Capital. “Mas se o seu objetivo é de longo prazo, como poupar para a aposentadoria, é uma temeridade vender”, diz o CFP.
A orientação de manter vale também para quem recebe juros de títulos que pagam cupom semestral; ou, ainda, para quem simplesmente não tem nada melhor para fazer com o dinheiro investido nos títulos.
Cordeiro lembra que, ao vender, você paga imposto de renda. “Vender um título desses agora, pagar imposto e depois investir em outra coisa é como estar correndo uma maratona e parar por dois minutos para depois voltar a correr. Você vai ter que compensar [a perda com o IR]”, exemplifica.
Além disso, se você tiver papéis de médio e longo prazo, lembre-se de que você contratou, lá atrás, rentabilidades superiores a 6% ou 7% acima da inflação, que são elevadas em termos históricos.
Você garantiu esse rendimento por muitos anos, e se seu título paga cupom semestral, você já está usufruindo dessa rentabilidade formidável.
“Nos últimos dez anos, a média da Selic foi de 10% ao ano, a da inflação foi de 6% ao ano, o que nos deixa com uma média de juro real de cerca de 4% ao ano. Se eu tenho um título que paga um juro real superior a este, considero que é um retorno interessante”, diz Sandra Blanco, da Órama.
Rentabilidades como essas podem não se repetir no futuro. Ao menos, não é o que precifica o mercado com base nas perspectivas que temos hoje.
E, mesmo que se repitam, pode ser que não ultrapassem o patamar de 6% ou 7% acima da inflação, que tem sido o nosso máximo histórico.
Mas a principal questão que se coloca é: se você vender agora, onde vai reinvestir esses recursos?
Com a Selic em 6,5%, as aplicações conservadoras estão rendendo menos. Os títulos prefixados e atrelados à inflação estão oferecendo prêmios menores que no passado. A opção seria recorrer a aplicações de mais risco.
A menos que você esteja considerando investir em um fundo ou uma carteira de fundos com potencial de ganho maior e volatilidade menor.
Delegar a gestão dos seus recursos a um profissional, neste caso, seria uma mudança de estratégia para quem não tem mais estômago para ver os preços dos títulos públicos dando cambalhotas.
Espaço para valorização
Títulos que estão para vencer em breve, no ano que vem ou no próximo, já apresentam um rendimento bastante próximo do retorno contratado e não vão se mexer muito mais. Eles já precificam um juro estável por um bom período de tempo.
Mas, estando esses papéis perto do fim do prazo, também é tranquilo deixá-los vencer se você não tiver nada melhor para fazer com esse dinheiro.
Agora, as NTN-B mais longas ainda têm algum espaço para valorização, segundo as fontes com quem eu conversei.
“As pessoas que estão sendo nomeadas para a equipe econômica do novo governo têm orientação bastante ortodoxa, e a inflação está baixa. A dinâmica da nossa inflação foi quebrada na recessão, o que pode nos levar de fato a um patamar de juros menor por algum tempo”, diz Rodrigo Borges, da Franklin Templeton.
Ele destaca que o momento é diferente daquele vivido em 2012 e 2013, quando a Selic chegou a 7,25% ao ano, mas havendo pressão inflacionária.
Esse otimismo relativo daria espaço, portanto, para que os juros futuros reduzissem ainda mais, aumentando o ganho dos títulos Tesouro IPCA+ com ou sem juros semestrais.
Borges diz que, entre os títulos de longo prazo, prefere justamente as NTN-B, pois elas oferecem proteção contra a inflação e dispensam o investidor de tentar projetar o IPCA. Assim, o risco, para o investidor pessoa física, é menor.
Então ainda dá para comprar?
As taxas das NTN-B ainda estão acima daqueles 4% de juro real histórico e dos 4,5% do centro da meta de inflação. Os títulos com vencimentos mais longos (2035, 2045 e 2050, este último com pagamento de juros semestrais) ainda estão remunerando mais que 5% ao ano + IPCA.
Como o juro real no Brasil variou bem menos que o juro nominal nos últimos 20 anos, ele é um bom parâmetro para saber se a rentabilidade de um título atrelado à inflação está atrativa ou não.
Para Rodrigo Borges, 5% ainda é um prêmio razoável, então vale a pena comprar. Mas só se o investidor ainda tiver bastante caixa. Isto é, se ainda conseguir manter uma boa reserva de emergência aplicada em investimentos pós-fixados e conservadores.
O fato de ainda haver oportunidade de compra tem feito com que Raphael Cordeiro, da Inva Capital, oriente alguns clientes a trocar NTN-B Principal, que não paga juros semestrais, por NTN-B que pagam cupom.
Trata-se de uma estratégia específica para quem está perto da aposentadoria, pois o investidor consegue vender o seu título agora com valorização e comprar um similar, que ainda gera renda a uma taxa atrativa.
“Assim, essa pessoa evita ter de comprar um título menos rentável no futuro, quando o seu papel atual vencer”, diz o planejador financeiro.
E você, investidor, ganhou dinheiro com títulos públicos recentemente? Conta pra gente nos comentários!
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