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Eduardo Campos

Eduardo Campos

Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.

Eleições 2018

A morte do Centro e da candidatura de Alckmin  

Centrão e mercados já acenam desembarque da candidatura tucana

Eduardo Campos
Eduardo Campos
25 de setembro de 2018
14:00 - atualizado às 15:57
Presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) posa para foto antes de debate do SBT
Presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) posa para foto antes de debate do SBT - Imagem: Marcelo Chello/Seu Dinheiro

A aliança que o tucano Geraldo Alckmin fechou com o famigerado Centrão, garantindo tempo de TV e ampla base de divulgação nos Estados e municípios garantiu boa parte do oba-oba dos mercados, com alta de quase 9% do Ibovespa em julho. Naquele momento, acompanhando as negociações sobre quem seria ungido pelo Centrão e a reação do mercado e seus participantes lembrei de um assunto com o qual venho esbarrando em leituras pela internet e fora dela. E que nas últimas semanas parece que ganhou algum relevo.

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A teoria da morte do que se tem como “centro” no contexto político. Esse mesmo tema pode ser inserido dentro de uma discussão mais ampla sobre o que estudiosos chamam de uma crise da democracia representativa. Fenômeno global apoiado na percepção generalizada de que nada funciona, ninguém presta, de que o sistema pode ser corrompido, que os eleitores fazem más escolhas. Um cansaço ou mesmo esgotamento com relação à política como a conhecemos. Mas que no fim pode ser visto apenas com um “efeito colateral” do sucesso do próprio modelo.

O assunto pode parecer um pouco etéreo em termos do dia-a-dia dos investimentos e formação de patrimônio, mas modificações da cena política têm implicações relevantes na construção da agenda econômica. E creio ser possível identificar alguns componentes desse debate no nosso quadro político atual.

A pesquisa Ibope divulgada ontem reforça essa tese de polarização entre Bolsonaro e Haddad e trouxe renovada preocupação nos mercados ao mostrar que Bolsonaro perderia em todos os cenários do segundo turno. No mercado, há mais incerteza com um eventual retorno do PT do que preocupação com um governo Bolsonaro. O mais temido seria Ciro Gomes, visto como de postura mais radical.

Observando diferentes públicos em seus debates, a percepção é de que a saída pelo centro e pelo consenso parece cada vez mais coisa de gente ingênua. Ninguém aguenta mais e a solução seria radicalizar (Bolsonaro, Haddad e Ciro?). Fernando Henrique Cardoso (FHC) chegou a fazer uma carta pedindo união do centro, mas parece um movimento sem sucesso, ou como disse Ciro Gomes: "É mais fácil boi voar de costas."

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Sinais desse esgotamento, morte do centro ou crise democrática seriam a eleição de Trump nos EUA, o Brexit, o crescimento dos partidos de “direita” ou "extrema direita" na Europa e, por aqui, o surgimento de movimentos de “direita” e/ou “conservadores”.

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Os donos do poder

Para alguns observadores da cena política, o que se tem como “centro” político de fato nunca existiu. Foi e apenas é uma nova forma do "establishment", do "status quo", dos “donos do Poder” de ganhar uma nova roupagem e se manter onde sempre estiveram, no centro do poder.

Recentemente me deparei com algumas considerações sobre o tema nos EUA e com um diagrama que guarda semelhanças com o quadro político local. De um lado temos as empresas cada vez mais poderosas e do outro um governo também bastante poderoso. O ponto de intersecção entre os dois é composto pelo lobby das grandes empresas em troca de leis e regulações favoráveis (ex. regimes tributários diferenciados, acesso a crédito direcionado, reservas de mercado).

A contrapartida é o financiamento eleitoral para que os grupos políticos continuem onde estão, mantendo essa engrenagem funcionando. Lembrou do escândalo do Petrolão? Eu também. Lembrou que diferentes categorias do funcionalismo público formam a maior bancada do Congresso e que conseguem barrar reformas? Eu também.

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Com uma difusão dessa percepção de conluio entre poderosos dos setores público e privado e políticos, a resposta a essa composição vem ganhando uma qualificação de populismo para os dois extremos políticos. Que apesar de extremos, por vezes se tocam.

Do lado que vamos convencionar chamar de “esquerda”, o populismo quer bater no imenso poder das empresas (Ocupe Wall-Street, nacionalize os bancos, o petróleo, controle as várias faces da mídia). No outro lado, a “direita” bate no imenso poder do governo (imposto é roubo, mais Brasil e menos Brasília e também desacredita a grande mídia). Ambos se oferecem ao público como uma resposta “contra tudo isso que está aí”. Na verdade, é um longo embate de posturas políticas que se contrapõem entre os conceitos de “liberdade” e “igualdade”.

O modelo local

Por aqui, a expressão máxima do que seria esse centro foi e é encarnada pelo MDB, que foi fiador da tal governabilidade desde a redemocratização. Aqui em Brasília há uma boa “piada” sobre isso: Não importa quem for eleito, a única certeza é que o senador Romero Jucá (MDB-RR) será líder do governo. E, de fato, ele foi líder.

O modelo MDB de ficar de fora do pleito majoritário, mas ser grande o suficiente para ter controle da máquina, fez escola. Há outro punhado de partidos e parlamentares que souberam desenvolver a imprescindível capacidade de barganha para poder formar “consensos” entre empresas e corporações poderosas e um governo igualmente poderoso.

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Sinal claro dessa força do centro foi essa briga que assistimos pelo apoio do Centrão ou Blocão. E reflexo de como ainda se acredita (ou se acreditava) na força do centro foi a reação do mercado e analistas políticos de como esse apoio poderia representar um “passe” para um eventual segundo turno. Mas até agora tudo indica que não. E já vemos notas de jornais falando que o Centrão vai abandonar o tucano e que o mercado também o deixou. Nada é mais forte do que instinto de sobrevivência, especialmente na política.

Como não existe almoço grátis, o escolhido pelo centro tem de estar disposto a ceder cargos e espaço em nome da governabilidade. Não há um Norte ideológico ou de programa governamental, mas sim o pragmatismo político para prevalecer a lógica de Lampedusa – muda-se tudo, para tudo permanecer exatamente como sempre foi (Tomasi di Lampedusa fez a observação no livro O Leopardo, sobre a revolução que levou à unificação Italiana nos idos de 1860).

Os tons de cinza

E essa teoria da morte ou ao menos enfraquecimento do centro é que torna a eleição um tanto incerta e de difícil explicação. Pode ser que estejamos vendo um processo novo, com lentes ainda antigas. Subestimando o grau de insatisfação, cansaço, desilusão, ressentimento, revolta e mesmo um desejo de vingança em boa parte do eleitorado.

Não por acaso sempre se buscam paralelos como as eleições de 1989. Gostamos de paralelos pois isso facilita o processo de cognição e o cérebro está sempre disposto a economizar energia e, principalmente, evitar decepções. Assim se obtém resposta e convicção sobre uma questão, por paradoxal que seja, onde os tons de cinza são mais relevantes que a certeza binária do branco e preto ou vermelho e azul.

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Por estar mais preocupado com esses tons de cinza, vi com certo ceticismo aquela alegria ou alívio com o apoio do centro ao Alckmin. E ao comentar com amigos e colegas fui prontamente rechaçado. É certo que a estrutura política fragmentada e regionalista favorece quem te apoio do centro, mas isso está se mostrando insuficiente.

Com ou sem o centro, e quem quer que esteja no comando nos próximos quatro anos, o grande desafio será enfrentar essa crescente pressão de maiorias ou minorias organizadas que se mesclam nos extremos e nos diversos tons que os separam. Elas também se manifestam dentro do Judiciário, que vem tomando o espaço perdido pelo Executivo e Legislativo, embaralhando a clássica separação dos Poderes e seus freios e contrapesos.

A eleição é só uma prévia do que o próximo governo vai enfrentar em termos de dificuldades para tentar achar pontos mínimos razoáveis e exequíveis dentro da agenda de reformas fiscais e tributárias para manter inflação e juros baixos. Dois dos principais vetores da previsibilidade necessária ao desenvolvimento econômico e bem-estar, mas que sempre esbarram nos distintos grupos que controlam o Governo de olho nos seus direitos adquiridos e naqueles que faltam adquirir.

O Centro sabe que tem de fazer alguma coisa, mas sempre faz o mínimo necessário para evitar a ruptura e continuar onde sempre esteve. A frieza do cálculo político, entenda-se aqui a chance de reeleição, também ajuda nessa movimentação do centro, que já fala em ir com Bolsonaro em uma roupagem de centro-direita. Com Haddad eventual costura é mais fácil, pois o centro já esteve lá e o candidato vem amansando o discurso. Mas a gravidade da situação fiscal parece não acomodar mais “reformas mínimas”, à moda Lampedusa. A conferir.

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