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Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Mercados

Como o Fed e um muro deixaram os investidores desnorteados em Wall Street

Noticiário do dia e grande oscilação dos índices internacionais sugerem que os mercados estão mais guiados por seu lado emocional do que o normal

Eduardo Campos
Eduardo Campos
20 de dezembro de 2018
19:48 - atualizado às 8:17
Presidente dos EUA, Donald Trump; Facebook; Mark Zuckerberg
Imagem: Shutterstock

O humor nos mercados já não estava bom desde ontem, quando o Federal Reserve (Fed), banco central americano, foi menos “pombo” do que o mercado esperava. Depois vem o presidente Donald Trump e ameaça um “desligamento” forçado do governo se não derem a ele US$ 5 bilhões para construir o muro na fronteira com o México.

O "tuite" abaixo ilustra bem o que aconteceu quando saíram as notícias de que Trump iria vetar qualquer proposta orçamentária que não estive a seu gosto. O Dow Jones caiu quase 3%. No fim do pregão terminou com baixa de 1,99%. O S&P 500 cedeu 1,58% e o Nasdaq cedeu 1,63%.

No mercado de commodities, o petróleo seguiu afundando e barril do tipo WTI fechou negociado na casa dos US$ 46, menor cotação deste julho de 2017. Contrariando correlações históricas, o dólar também perdeu força ante seus pares. O DXY que mede o valor do dólar ante uma cesta de moedas recou cerca de 0,7%, para 96,3 pontos.

Commodities e dólar em baixa parecem condizentes com o "medo" que ronda os mercados de que uma forte desaceleração global está a caminho.

Olhando os dados acima seria de esperar um dia de pânico por aqui também. Mas o Ibovespa caiu apenas 0,47%, para os 85.269 pontos, reforçando um descolamento com relação ao S&P que já dura alguns dias. No câmbio, o dólar passou o dia em baixa e fechou com uma queda de 0,83%, a R$ 3,8561, menor cotação desde a abertura do mês.

Também no "Twitter", o gestor do fundo Alaska Henrique Bredda, invocou o lendário gestor americano Howard Marks para lembrar da prevalência dos ciclos, algo que discutimos aqui antes da decisão do Fed, dizendo que o movimento de juros se mostra menos relevante que o momento do ciclo econômico americano, que parece estar chegando ao fim.

De fato, desde o fim de setembro, Marks vinha alertando sobre alguns exageros no mercado americano e lembrando que o dinheiro relativamente fácil e grande é feito quando os preços estão baixos, o pessimismo é generalizado e os investidores estão fugindo do risco.

  • "Ciclos sempre prevalecem. Nada vai em uma única direção para sempre. As árvores não crescem até o céu"

No meio da tarde, enquanto os investidores (os comprados) se descabelavam em Wall Street, surgiram notícias de um discurso do ex-membro do Fed William C. Dudley com a seguinte frase: “O Fed não está lá para aliviar a dor dos mercados”. Ele também disso que o aperto de juros vai seguir enquanto o BC enxergar que o crescimento da economia está acima do que seria sua tendência de longo prazo de cerca de 2%.

Para alguns isso foi uma grande piada, já que a função do Fed seria, justamente, aliviar os mercados. Já outros observadores avaliam que essa história do Fed garantir a "continuidade da festa", acabou. Powell estaria ciente da pouca "munição" que o Fed dispõe caso uma crise financeira ou forte desaceleração econômica realmente venha prevalecer.

Essas notícias e a grande oscilação dos índices internacionais sugerem que os mercados estão mais guiados por seu lado emocional do que o normal. Para encerrar com Howard Marks, ele ensina que as emoções inevitavelmente levam o preço dos ativos para patamares que são insustentáveis. Ou altas vertiginosas ou quedas extremamente pessimistas.

Assim, ao manter essa consciência de que os ciclos são inevitáveis algumas palavras devem ser excluídas do vocabulário do investidor, como "nunca", "sempre", "para sempre", "não pode", "não deve", "tem que que" e "certamente vai". Essas palavras vão aparecer com maior frequência no noticiário econômico e de investimentos conforme os EUA passam pelo seu "fim de ciclo" e o Brasil parece estar começando o seu. Cuidado com elas.

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