Como o Itaú se vê em constante transformação, mas avesso a ‘apostas’
Maior banco privado brasileiro se prepara para um cenário de competição acirrada e regulação mais difícil

O Itaú Unibanco prefere ser essa metamorfose ambulante. Só faltou tocar Raul no tradicional evento anual promovido pelo maior banco privado brasileiro com analistas e investidores. "Transformação" foi uma das palavras mais repetidas para uma plateia que acompanha de perto os números do banco..
Passei a tarde de hoje no Hotel Unique, em São Paulo, para ouvir o que pensam os principais executivos do banco. Um sinal dos novos tempos estava na bancada sobre o palco onde estavam perfilados. Todos se apresentaram sem gravata, inclusive o presidente Candido Bracher e o copresidente do conselho de administração, Roberto Setubal.
Foi Bracher quem sintetizou a receita do Itaú para atravessar os muitos períodos de turbulência, sem deixar de ganhar (muito) dinheiro: a capacidade de se adaptar a mudanças e gerenciar riscos.
Diante do avanço da tecnologia e da pressão por mais competição, o Itaú decidiu tomar um caminho diferente do Bradesco, seu principal e histórico rival. O banco não vai adotar, por exemplo, iniciativas como a criação de um banco digital para atrair os clientes mais jovens, da chamada geração “millennial”.
“Escolhemos ser um banco só. Começar do zero seria negar a nossa capacidade de transformação”, disse.
Dinheiro no bolso
Para além dos lucros bilionários, Bracher destacou outro indicador que o banco persegue: a criação de valor. Em linhas gerais, trata-se do resultado obtido por cada atividade menos o custo de capital para desempenhá-la.
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Foi de olho na criação de valor que o Itaú decidiu virar o rumo do transatlântico a partir de 2012. O objetivo foi aumentar as receitas com prestação de serviços e reduzir a exposição a linhas de crédito mais lucrativas, porém de maior risco.
Para os 123 mil acionistas diretos do banco, a estratégia rendeu em mais dinheiro no bolso. Em 2017, o Itaú distribuiu 83% do lucro de quase R$ 25 bilhões em dividendos. E caminha para mais um pagamento generoso aos acionistas neste ano.
Mas o vento a favor com que o Itaú e os outros grandes bancos brasileiros navegaram começou a virar. O surgimento de novas empresas de tecnologia financeira, as chamadas fintechs, fez o tema da concorrência volar ao radar.
O resultado mais visível da maior competição ocorreu nas áreas de investimentos e cartões. No primeiro caso, o Itaú decidiu se unir ao rival que não conseguia deter, com a compra de 49,9% do capital da XP Investimentos, por R$ 6,3 bilhões.
Ao atuar em segmentos que os bancos tradicionais operavam de forma menos eficiente, as fintechs trazem outro efeito colateral: chamam a atenção dos órgãos reguladores, que procuram incentivar a concorrência nessas áreas.
“O ambiente regulatório está se tornando mais difícil para nós”, disse Bracher.
Rigoroso com XP
Foi justamente ao ser questionado sobre a XP que a temperatura do evento subiu. Para Bracher, a decisão do Banco Central de impor restrições adicionais ao negócio foi “rigorosa demais”.
O contrato original dava ao banco a opção de comprar o controle da XP no futuro, desde que com a aprovação dos órgãos reguladores. Mas o BC condicionou a aprovação da compra ao fim dessa cláusula.
A mudança no desenho do negócio fez com que a compra da participação da XP deixasse de ser estratégica e passasse a ser vista como mais um investimento para o Itaú. “Mas o banco continua acreditando que o modelo é muito bom, vai crescer e criar valor para o acionista”, disse o copresidente do conselho do Itaú, Roberto Setubal. Ele disse que a XP opera hoje acima do avaliação feita pelo banco na época do negócio.
Estresse e eleições
Durante as três horas de apresentação, praticamente não se falou de política. Mas coube a Setubal dizer que o banco está preparado para um cenário de estresse. Em uma simulação no caso de o dólar atingir a cotação de R$ 5, o índice de capital do Itaú poderia cair para 13,3%, abaixo do mínimo de 13,5% definido pelo banco. Mas com as medidas de gestão de capital adotadas pela administração, o banco tem condições de manter um patamar de 14,5% mesmo nesse cenário.
Em meio às inovações e mudanças na cultura do banco apresentadas durante o evento, Setubal reassumiu o discurso do Itaú tradicional ao ser questionado sobre a política de concessão de crédito: “Não é o momento de tomar riscos, assumindo que um candidato A ou B vencerá [a eleição] e sair na frente. Seria fazer uma aposta, e a gente não faz aposta.”
Quebra-queixo
Em rápida entrevista após o evento, o chamado "quebra-queixo", no jargão da imprensa, Bracher falou diretamente sobre eleições e disse esperar por uma volatilidade nos mercados até o segundo turno. Para ele, o lado bom é que os principais candidatos abordam a importância da questão fiscal, ponto fundamental para a retomada do crescimento no ano que vem.
O presidente do Itaú disse que pretende estudar propostas como a renegociação de dívidas de devedores negativados, como defende o candidato Ciro Gomes, “se e quando” forem apresentadas. Quanto à possível taxação das operações de crédito com spreads maiores, projeto do petista Fernando Haddad, Bracher disse que não vê a tributação como eficaz.
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