Como seria um trader fazendo política monetária?
Indicação de Roberto Campos Neto é bem recebida e mercado também comemora permanência de Carlos Viana como diretor. Mas qual será a postura do novo BC?

Conversei com gestores, economistas e ex-diretores do BC e a avaliação prevalente é de que a indicação de Roberto Campos Neto para presidir o Banco Central (BC) está sendo muito bem recebida pelo mercado. E essa percepção ganhou um "upgrade" com a permanência do diretor de Política Econômica, Carlos Viana.
Segundo um ex-diretor, além do presidente do BC “ser um cara bom”, ele tem de saber formar e fazer equipes funcionarem, e Campos Neto demostrou essa capacidade nos anos que esteve à frente da Tesouraria do Santander.
Para um gestor, a combinação de Campos Neto e Carlos Viana é “espetacular”, pois o primeiro é o executivo financeiro mais bem-sucedido do Brasil e o segundo é o melhor especialista em política monetária do país.
“É um Banco Central triplo A. foi um golaço do Guedes montar um BC dessa qualidade. Se eu soubesse que o Bolsonaro atuaria dessa forma, teria votado nele e não anulado o voto”, diz.
Para esse gestor, o BC de Ilan Goldfajn não tinha ninguém bom de mercado e Campos Neto traz esse conhecimento. O gestor lembra que Campos Neto tem um profundo conhecimento de crises financeiras adquirido nos anos em que passou operando dívida soberana.
Sobre o restante da equipe, o gestor acredita que dado que o BC já tem o Campos e o Viana, “tudo o que tiver além disso é luxo”. Ele chama atenção também para o atual diretor de Assuntos Internacionais, Tiago Berriel, tido como “gênio” de grande capacidade de aprendizado. “Ele evoluiu muito dentro do BC é um poço de bom senso. Contraria ele tranquilamente”, diz esse gestor.
Ainda sobre a equipe, fica a dúvida se será mantida a fórmula atual de manter funcionários de carreira e também "gente do mercado". Bons quadros não faltam no BC. Ilan buscou um equilíbrio entre as indicações "da casa" e "de fora" depois de um período em que o BC teve apenas funcionários de carreira nas diretorias.
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A influência de Paulo Guedes
A dúvida mais recorrente que ouvi tanto dos locais quando de estrangeiros é sobre qual seria a influência de Paulo Guedes sobre o BC. Para outro ex-diretor do BC, há uma dúvida sobre a independência efetiva que Campos Neto vai ter.
“Tem uma diferença de idades, a amizade, uma relação meio pai e filho. Não consigo pensar em uma dupla de presidente do BC e chefe da Fazenda tão próximos. Realmente foi uma escolha de laços pessoais”, diz.
Paulo Guedes é tido como uma “cria” do economista e ex-ministro Roberto Campos, expoente do pensamento liberal no Brasil e avô do novo presidente do BC.
“Acho uma escolha de risco. Temos agora as duas mais importantes pessoas da equipe econômica sem experiência de Brasília. Mas tudo isso são dúvidas e riscos”, diz esse ex-diretor.
Esse ex-diretor, no entanto, faz uma importante distinção, afirmando que “influência” é bem diferente de “mandar”.
Para outro ex-diretor, Guedes sabe da relevância de ter um BC independente.
“Os dois discutirem o que está acontecendo é uma coisa. Outra é ter uma ‘influência maligna’, como Guido Mantega e Dilma Rousseff tentaram ter”, avalia.
Para o gestor, não faz sentido pensar que Guedes vá mandar no BC.
“Olha o calibre dos caras, não só no BC, mas no restante do governo. São pessoas com agendas próprias e muito reconhecidas. Não são paus mandados e isso é uma tônica do governo”, avalia.
Outro ponto ressaltado é que “a cadeira muda a pessoa” e que a “cultura da casa” é muito forte e acaba se impondo, mesmo que internamente o presidente do BC tenha muito poder.
Falcão ou pombo?
Em política monetária é muito comum o uso dos termos “hawk”, falcão, e “dove”, pombo, para definir a inclinação de um BC e seus dirigentes. O falcão é aquele de postura mais rígida com os desvios da inflação à meta, enquanto o pombo seria mais condescendente ou de postura mais acomodativa.
Ainda não sabemos onde Campos Neto se coloca no range falcão e pombo, mas um interlocutor diz que o futuro presidente achava que o BC deveria ter subido o juro quando a pressão na taxa de câmbio, que levou o dólar para R$ 4,20, desviou algumas projeções da meta. No entanto essa é uma questão que só ele pode responder.
Reservas e atuação no câmbio
Outra dúvida é qual a postura de Campos Neto com relação ao uso das reservas internacionais e intervenções no mercado de câmbio.
Paulo Guedes já deu exemplo hipotético de venda das reservas em um momento de crise para posterior abatimento de dívida. E, agora, o BC volta a ter um trader o que traz recordações dos “temidos” tempos em que o BC entrava no mercado e era respeitado, como escreveu Jason Viera, economista-chefe da Infinity Asset.
O BC atual tem preferência pelo uso dos swaps cambiais nas intervenções, modelo que usa as reservas como lastro, mas sem alterações efetivas nos cerca de US$ 380 bilhões.
“É cedo para pensar em mudança na forma de atuação no mercadão de câmbio. Uma coisa é ser trader em banco privado outra é ser presidente do BC. A cadeira é outra, a função é outra”, diz o ex-diretor.
Outra dúvida, essa levantada pelo gestor, é qual o encaminhamento que Campos Neto dará para a “Agenda BC mais”, conjunto de reformas e ajustes microeconômicos lançado por Ilan Goldfajn, com foco em aumento da competição no sistema financeiro, redução do spread bancário, menor fardo regulatório e ampliação da cidadania financeira.
“A Agenda BC mais é importante demais para redução do spread bancário e aumento da competitividade. Ela busca aumentar a concorrência de verdade. Tem que cobrar o novo presidente se ele vai levar adiante ou mesmo acelera essa agenda”, diz o gestor.
Meu amigo gringo com seu mordaz senso de humor diz o seguinte: "Tenho lido e ninguém faz críticas à indicação de Campos Neto, que é basicamente um trader. Acho que nenhum jornalista quer ficar de fora das coletivas de imprensa do BC e o pessoal do mercado não quer ficar de fora das reuniões com os diretores."
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