Qual é o melhor seguro para comprar agora? As pessoas mudam?
Eu me defino liberal. Isso tanto na esfera econômica quanto no escopo dos costumes. O liberalismo não é, para mim, apenas uma prescrição de política econômica. Trata-se também de uma filosofia moral e de uma proposta ética que valoriza o indivíduo e suas escolhas acima de grupos específicos (de qualquer natureza) ou do interesse do Estado.

“Deixe os mortos enterrarem seus mortos.” Segundo o Evangelho de Mateus, capítulo 8, versículo 22, essa teria sido a resposta de Jesus ao pedido de um homem que, antes de segui-Lo, gostaria de sepultar seu pai.
Não é a única passagem dentro do Evangelho de Mateus em que Jesus parece desafiar o conceito mais tradicional de família. No capítulo 12, versículos 48-50, há outro trecho interessante.
Avisado da presença de sua mãe e de seus irmãos quando falava à multidão, Jesus teria respondido: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?”. Apontando para todos os presentes, completaria: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos”.
Juntando os dois momentos, vê-se Jesus valorizando o indivíduo acima dos grupos e das instituições, ao mesmo tempo em que alarga o conceito de família.
De acordo com Jacob Neusner no livro “A Rabbi Talks with Jesus”, há algumas situações em que Cristo flerta com desafios ao Quarto Mandamento, que comanda honrar pai e mãe. Contardo Calligaris tem posição semelhante e identifica certa confusão naqueles que ligam a valorização da família (em seu conceito estrito) ao Cristianismo — o tema foi alvo de parte de sua palestra na sexta-feira à noite, a que assisti com grande interesse.
Interpretações
Talvez sejam interpretações duras com as quais não necessariamente eu concorde. Mas, de certo, há algo pertinente aí: Jesus parecia ser liberal e universalista. Valorizava a vocação e as liberdades individuais, acima de grupos e instituições. O Deus cristão é para todos, não somente o Deus de um povo ou de outro, o que inclusive é uma novidade diante de religiões mais antigas.
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Se você conecta os pontos, nota certa contradição nos autoproclamados cristãos nacionalistas. O cristianismo é necessariamente universal. Também não acho que possa haver liberal nacionalista, porque, para um liberal de fato, o indivíduo está acima do Estado-nação.
Eu me defino liberal. Isso tanto na esfera econômica quanto no escopo dos costumes. O liberalismo não é, para mim, apenas uma prescrição de política econômica. Trata-se também de uma filosofia moral e de uma proposta ética que valoriza o indivíduo e suas escolhas acima de grupos específicos (de qualquer natureza) ou do interesse do Estado. Como tal, precisa ser universal, tanto para fronteiras geográficas quanto para humanitárias.
Assim me declaro um liberal/liberal; não liberal com ressalvas. Para mim, dentro da lei, do respeito à rês-pública e da capacidade de também enxergar seus limites a partir da liberdade e do território do outro, vale tudo. Sempre com proteção, é claro.
A tentativa deste texto é de ligar a discussão do liberalismo com a necessidade de se ter proteções no portfólio. E, mais especificamente, com qual proteção você deve montar agora.
O encontro
Começamos o dia com a notícia de que Paulo Guedes se encontra hoje com Jair Bolsonaro. Ao que parece, será a conversa para “consertar tudo”, nas palavras do ministro, em referência, claro, à decisão do final da semana passada de impedir o aumento do preço do diesel.
Conforme falei no grupo de Telegram dos assinantes da série Palavra do Estrategista na sexta-feira à tarde, acredito numa resolução para o caso específico. Tomada de forma intempestiva e atabalhoada, a decisão encontraria, cedo ou tarde, alguma solução menos dura à Petrobras.
É curioso como a proposta de selar a paz entre o liberalismo de Guedes e o intervencionismo de Bolsonaro tenha acontecido justamente no Domingo de Ramos. O jumento em que Jesus entra montado em Jerusalém é um símbolo de humildade e pacifismo, em oposição ao cavalo, mais opulento e beligerante.
O problema, para mim, não é tanto a questão em si — de novo, acho que haverá solução melhor para a Petrobras do que aquela com a qual fomos dormir na sexta-feira. E, sim, acho que as ações podem ter aberto uma interessante oportunidade de compra.
Contudo, resgate-se uma fonte de preocupação importante, de origem e essência desse governo: o quanto a conversão liberal do presidente Jair Bolsonaro é, de fato, para valer? Seria ele realmente fiel aos preceitos do liberalismo ou carregaria ainda as raízes intervencionistas do velho Bolsonaro? Conseguimos mesmo abandonar a fé em deuses antigos e registrar-nos no paganismo do livre mercado?
Dificuldades
A dificuldade é grande, porque saímos do modelo desenhado para a Petrobras, já bastante complexo e em si uma cama de Procusto, para modelarmos o homem. E, me desculpem, o homem é “imodelável”.
Não estamos aqui no campo da racionalidade econômica estrita. Não se trata de perguntar quanto o congelamento do preço do diesel anunciado na sexta-feira interfere no modelo de fluxo de caixa descontado para o preço-alvo de Petrobras — ali em torno de 35 reais por ação. O questionamento subjacente e relevante me parece ser: as pessoas mudam?
Claro que uma ou outra coisinha na superfície podemos alterar. Melhora daqui, piora dali, troca seis por meia dúzia em adereços estéticos. Mas e a essência? Podemos mudar a nossa alma?
Não tenho resposta.
Otimismo
No geral, sigo otimista com o momento do ciclo nos mercados brasileiros. Para mim, trata-se mais de uma imposição das condições materiais do que propriamente da convicção pessoal do presidente. Com efeito, era justamente essa a tese do que chamei de “O Segundo Mandato Temer”, em que, a despeito de quem fosse o rosto a compor a foto presidencial junto à faixa diagonal verde e amarela cruzando o peito, necessariamente veríamos o pêndulo político-econômico-social migrando do espectro da esquerda intervencionista para a direita liberal.
Mesmo depois da trapalhada de sexta, reitero o diagnóstico. Contudo, o acontecimento serviu para lembrar-nos do óbvio (tudo é óbvio depois que acontece): este governo é frágil. Seja pelo ímpeto do presidente, seja pela sua falta de convicção, seja pela sua falta de conhecimento em economia (acompanhada de sua pronta capacidade de agir sobre economia sem consultar quem conhece), seja pela resistência do Congresso em aceitar a “nova política” (seja lá o que isso queira dizer), seja pelo temor de que o ministro da Economia, cedo ou tarde, antes ou depois da Previdência, venha a se cansar das destemperadas ingerências políticas ou da relação pitoresca (para usar um eufemismo) com o Congresso — ele próprio parece saber de seu temperamento mercurial.
Qual decisão pragmática tomar diante desse contexto?
A resposta parece passar por um portfólio mais líquido, mais diversificado e com mais proteções, ainda que inclinado ao otimismo com ativos de risco.
A ideia é colocar pouco dinheiro (aquele que você topa perder) e saber que, isoladamente, envolve bastante risco (toda opção fora do dinheiro envolve alto risco). Ao mesmo tempo, por mais contraditório que possa parecer, significa importante redução de risco quando considerado dentro de um portfólio com grande posição em Bolsa e em juros longos, conforme temos defendido. A defesa aqui é a mesma de sempre: foco na gestão do portfólio como um todo, no “asset allocation”, não somente neste ou naquele ativo em particular. É justamente a alocação de recursos diligente, diversificada e balanceada que vai gerar uma sólida construção patrimonial no longo prazo. O resto é tentativa irresponsável de ressurreição financeira, em ramos do paganismo charlatão.
Mercados
Mercados iniciam a semana próximos do zero a zero. Há grande expectativa sobre resultado de reunião entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro sobre a questão do aumento do diesel, ao mesmo tempo em que se repercute novo dado abaixo do esperado da atividade doméstica — IBC-Br apontou queda de 0,73 por cento, contra expectativa de recuo de 0,31 por cento. IGP-10, por sua vez, marcou inflação de 1 por cento em abril, acima do 0,87 por cento projetado. Relatório Focus completa a agenda macro brasileira. Nos EUA, sai Empire State Index.
Vencimento de opções sobre ações pode trazer dose adicional de volatilidade ao segmento Bovespa, bem como notícias sobre a tramitação da reforma da Previdência na CCJ.
Ibovespa Futuro sobe 0,3 por cento; dólar e juros futuros avançam ligeiramente.
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