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Você pode apostar comprando ou vendendo ações dos bancos e fintechs na bolsa. A batalha está longe de acabar, mas já temos o ganhador, o cliente
Caro leitor, a conversa deste domingo abordará um tema da moda, por assim dizer. A crescente competição, disputa ou até mesmo briga de torcidas entre os bancões e as fintechs, empresas tecnologia financeira.
Estive no Fórum de Investimentos Brasil, em São Paulo, no dia 11, e um dos painéis de discussão proporcionou um duelo ao vivo entre esses dois competidores. Mas não tivemos nada como um UFC. São inimigos cordiais, por assim dizer, mas assistimos a algumas trocas de golpes.
O painel reuniu o sócio fundador da Creditas, fintech que opera crédito com garantia, Sergio Furio, o sócio e fundador do NuBank, David Vélez, o CEO do ING Bank, Willem Sutherland, e CEO do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior.
Podemos dizer que também tivemos dois “juízes”. O do painel foi o gestor do fundo Alaska, Henrique Bredda, e o moderador da “briga” em termos mais amplos foi Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC).
Começando pelo fim, uma avaliação feita pelo CEO do Bradesco merece destaque. Lazari disse que há 10 anos acordava e sabia que iria competir com o Itaú, Caixa e Santander. Mas que hoje ele acorda e não sabe se a pancada vem do NuBank, PagBank ou outro. “E os caras são bons, são ótimos concorrentes”, disse.
Mas uma ponderação feita por Lazari, marcou bem a posição não só do Bradesco, mas dos demais bancões: “Temos capacidade de nos reinventar.”
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Lazari lembrou que os bancos incumbentes sobreviveram a todos os Planos Econômicos, todas as crises locais e externas e que nenhum deles ficou pelo caminho. “Essa capacidade de se reinventar é que nos deu esse sistema financeiro forte e robusto e que serve de exemplo para o mundo”, concluiu.
O recado é claro, algo como: “pode vir, nós sempre estivemos aqui, sobrevivemos a tudo, a cenários que vocês não têm a mais vaga ideia, e vamos sobreviver a isso também”.
Claro que não será incólume. O próprio Lazari reconhece que essa nova forma de fazer negócios “vai diminuir a rentabilidade dos bancos. Mas não vai destruir os bancos que têm posição importante no mercado.”
Essa fala final de Lazari, veio depois das explanações dadas por Fúrio, espanhol, e Vélez, colombiano, sobre alguns “absurdos” que para nós são “normais” no nosso sistema financeiro e que levaram os dois a desafiar a “tirania do status quo”, como diz Milton Friedman.
Vélez, do NuBank, contou um pesadelo de cinco meses, tempo que levou para conseguir abrir uma conta bancária. Inconformado, foi estudar o mercado e se deparou com uma série de mitos e crenças que cercavam o setor.
Entre as lendas que elencou, temos que no Brasil não se confiam em marcas novas, que banco tem que ter agência, que o BC dificulta a entrada de novos participantes, que estrangeiros não podem atuar no sistema financeiro (um fato, mas que já está mudando) e que a internet é muito ruim para suportar sistemas totalmente digitais.
“E se esses mitos não estiverem certos? E se todos estiverem errados?”. Foi esse o questionamento que Vélez se fez antes de apostar em duas coisas: as pessoas querem mais alternativas e o regulador (BC) vai deixar sim.
Demorou um pouco, mas em 2014 o cartão roxo foi lançado com uma demanda muito maior do que eles mesmos imaginavam. A meta era ter um milhão de clientes em cinco anos, marca atingida no segundo ano. Esse crescimento explosivo levou à conhecida fila de espera pelo cartão.
Uma digressão. Fila para ter cartão de crédito? Fila para ter acesso a algo que é praticamente uma commodity financeira? Sim, o NuBank transformou o cartão roxo em um objeto de desejo e não apenas em um meio de pagamento.
De volta ao ringue, Sergio Furio, da Creditas, também citou alguns mitos que o inspiraram a deixar Nova York para trabalhar sem terno em outro lugar. Ele teve um empurrão de sua esposa brasileira, que contou que as margens de operações de crédito, por aqui, estavam sempre no dois dígitos altos, algo impensável para um gringo.
Assim como Vélez, a primeira coisa que Furio enfrentou foram os mitos de que o custo do funding é alto no Brasil, que a inadimplência é muito elevada e afins. Para ele, esses eram pontos que se poderiam ser melhorados.
O foco acabou recaindo sobre o crédito com garantia, que era e é pouco explorado no país, e foi nesse nicho que a Creditas se especializou. Um cliente com crédito pessoal paga taxas de 70% ao ano, e no modelo desenhado pela fintech esse custo cai para cerca de 13%.
Segundo Fúrio, o papel das fintechs é fazer com que os grandes bancos se inspirem, fiquem mais agressivos. É um grupo de empreendedores que está “tocando o tambor” para fazer com que os grandes bancos acordem.
“Fintech é o mesmo que banco. Só que ao invés de começar abrindo agência e construindo cofre. Começa olhando o cliente e o que ele quer”, resumiu Furio.
Como juiz do mercado, o recado dado por Campos Neto ao fim da discussão foi claro: o consumidor é o chefe e não o governo. O governo dá as condições e o BC está aqui para ajudar.
Todas essas discussões sobre foco no cliente e maior competição no sistema decorrem das mudanças econômicas do país e do próprio sistema financeiro, que começou da necessidade de financiar o governo. Com juro alto e a garantia de recebimento, outros segmentos como pessoa física e empresas foram naturalmente negligenciados.
O quadro começa a mudar com o país conquistando alguma estabilidade financeira, abrindo espaço para ganhos de escala nos segmentos que não fossem governo. Depois temos a revolução tecnológica que deixou cada vez mais barato produzir, armazenar e analisar dados. Junto disso as barreiras de entrada, ou a dificuldade de alguém atuar no setor, começam a cair ou se flexibilizar.
Uma dessas barreiras era a necessidade de rede de agências. Até a internet, o banco tinha que existir fisicamente e em todo o Brasil. Agora, basta um celular, o tal custo de distribuição caiu de forma assustadora. O próprio NuBank tem clientes em todos os municípios do país, enquanto a rede bancária física atende a 80%.
Outra barreira derrubada é plataforma fechada, ou seja, você só consumia os produtos do próprio banco. Hoje, com disse Campos Neto, é difícil um banco sobreviver só com os seus produtos. Tem que abrir a prateleira para outros (lembrou do caso Itaú e XP? Pois é...).
O mesmo raciocínio vale para os pagamentos. A cada dia tem uma nova empresa oferecendo maquininha de cartão e afins e em breve teremos pagamentos instantâneos. Nada de arranjos fechados.
O balanço, a necessidade de capital, ainda é uma fortaleza dos bancos, segundo Campos Neto. Mas como a expectativa é de que o mercado como um todo cresça, “os grandes bancos terão uma fatia menor de uma torta muito maior”.
E a grande barreira de entrada, segundo o BC, é o monopólio de dados. Crédito é informação assimétrica e para derrubar essa barreira, o governo aposta no cadastro positivo e no open banking, que dará ao cliente a tutela sobre seus dados bancários, que poderão ser compartilhados com todas as instituições, que passariam a competir para ofertar produtos financeiros.
O leitor pode apostar em quem vencerá essa batalha comprando ou vendendo ações dos bancos e fintechs na bolsa. Essa briga está longe de acabar, mas já temos o ganhador, o cliente, que deixa de ser refém de uma instituição, começa a ser tratado um pouco melhor (não ir à agências é uma benção, vamos concordar) e, em breve, deve ter acesso a crédito a taxas um pouco mais civilizadas (nesse ponto ainda ficamos na torcida).
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