Boom dos carros elétricos e eletropostos deve fazer esta empresa faturar R$ 8 milhões com tecnologia própria
Sistema elétrico criado em parceria com a universidade pública foi o que fez a franqueadora Tcharge crescer no mercado de eletropostos

Os carros elétricos vivem um verdadeiro boom no Brasil. Para se ter ideia, em setembro, esse mercado ultrapassou pela primeira vez a marca de 1 milhão de automóveis vendidos com marcas como BYD, Geely, GWM e GAC, por exemplo, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Com esse aumento, há também uma demanda crescente por um serviço: o de eletropostos.
De acordo com a mesma instituição, existem cerca de 30 mil pontos de recarga de carros elétricos pelo Brasil, com uma média de 33 veículos por ponto. Só no Google, houve um avanço de 250% nas buscas pelo serviço de eletropostos nos últimos 12 meses.
De olho nesse cenário, o empreendedor Edgar de Sá Pereira percebeu uma oportunidade de entrada no mercado.
Ele faz parte da quarta geração de uma família com atuação no setor de energia elétrica, e decidiu criar a Tcharge, uma empresa de infraestrutura para veículos elétricos.
Como contou em entrevista ao Seu Dinheiro, a companhia nasceu como uma montadora de eletropostos, mas evoluiu até criar uma tecnologia própria de gerenciamento de energia, considerada o principal diferencial no mercado.
“No início éramos uma empresa igual a várias outras, que montava carregador em pontos estratégicos”, diz o fundador da Tcharge.
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Porém, com a maturação, Pereira percebeu uma demanda de condomínios, postos de combustíveis, supermercados e academias que gostariam de oferecer recarga para veículos elétricos, mas tinham uma limitação da rede elétrica.
Foi a partir disso que a empresa deu um outro passo e decidiu investir também no desenvolvimento de um sistema de gestão elétrica. Hoje, essa tecnologia é a principal aposta da companhia, que espera faturar R$ 8 milhões neste ano.
Os primeiros passos da Tcharge
Antes de entrar no mercado de carros elétricos, Pereira atuava como advogado tributarista, ao contrário de sua família já bastante experiente no setor de energia.
No entanto, ele estava em uma fase de demanda fraca nos processos judiciais, enquanto percebia o crescimento desenfreado dos veículos elétricos.
Ele tinha uma certa dose de conhecimento no setor pela convivência familiar e imaginou que poderia entrar no ramo. Foi aí que surgiu a ideia, em 2019, de abrir uma empresa de eletropostos.
A primeira iniciativa da Tcharge, nascida no estado da Paraíba, foi a instalação de estações de recarga para veículos elétricos, um mercado que ainda engatinhava no Brasil.
A proposta era criar uma rede de eletropostos em parceria com investidores locais, dividindo os custos de implantação e operação, com divisão dos lucros.
Essa é, inclusive, uma frente do negócio que existe até hoje, que é a franquia colaborativa. Nela, o franqueado participa com 50% do investimento, custos e resultados. Os eletropostos podem ser inseridos em diferentes locais: condomínios, supermercados e academias, por exemplo.
O modelo surfa a tendência de venda dos veículos elétricos e necessidade de postos de abastecimento, mas havia o problema de muitos locais não autorizarem a instalação devido à capacidade elétrica.
A partir disso, o empreendedor imaginou que, com tecnologia, seria possível chegar a uma solução. Ele buscou apoio da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que chegaram a um sistema próprio.
Investimento massivo
O processo para a criação da tecnologia, batizada como Maestro Tcharge, levou nove meses, segundo Pereira. Quatro meses foram dedicados à pesquisa e ao desenvolvimento, e cinco adicionais para testes e validações do sistema.
Embora não abra valores exatos do investimento, o fundador da Tcharge diz que, para a criação da empresa sete anos atrás e o desenvolvimento dessa tecnologia, que começou no ano passado e foi finalizada em março de 2026, gastou “alguns milhões de reais”.
Segundo o Centro de Energias Renováveis (CEAR) da UFPB, o sistema é um controlador de carga de energia e “foi criado para solucionar o problema que surge quando os carregadores ultrapassam o limite da instalação”.
Isso acontece porque vários veículos recarregando ao mesmo tempo geram sobrecargas, e correm até o risco de penalidades tarifárias.
Parece um processo bastante técnico, mas, na prática, o que esse sistema faz é monitorar o consumo de energia em tempo real e redistribuir a potência disponível.
Isso permite que, em um mesmo local, seja autorizado um número maior pontos de recarga, porque não vão sobrecarregar a rede elétrica do imóvel.
"Quando o consumo do prédio está baixo, o sistema consegue direcionar mais potência para os carregadores. Quando aumenta, ele reduz automaticamente essa carga para evitar sobrecargas", explica o empresário.
O sistema custa a partir de R$ 12 mil. Para a Tcharge, ele abre espaço para a empresa aumentar as vendas de carregadores, já que permite uma instalação maior.
A empresa tem diferentes modelos de carregadores de veículos elétricos, que variam entre carregamento lento, rápido e ultrarrápido. O aparelho mais barato custa R$ 3.950 no site da companhia, enquanto há modelos que chegam a R$ 160 mil.
Com isso, Pereira afirma que a empresa consegue atender a diferentes públicos, tanto em espaços residenciais quanto em locais de alta movimentação.
"Hoje somos procurados pelas pessoas porque precisam resolver um problema de infraestrutura energética", defende.
Empresa pretende crescer via franquias
Segundo o fundador da empresa, a projeção de R$ 8 milhões para o fim 2026 é o dobro do que a companhia alcançou no ano passado. Ele atribui o crescimento à nova tecnologia Maestro Tcharge e ao foco em expansão da companhia.
Pereira diz que 90% dos resultados da empresa vêm de franqueados. Existem dois modelos: microfranquias e franquias colaborativas — aquela que deu início a toda a operação da Tcharge, em 2019.
Segundo o empresário, no modelo colaborativo, o prazo médio de retorno para os parceiros varia entre 12 e 18 meses, a depender da localização do eletroposto, do fluxo de veículos e do custo da energia na região.
A companhia afirma que um carregador rápido de 60 quilowatts operando cerca de seis horas por dia pode gerar faturamento mensal entre R$ 14 mil e R$ 15 mil, embora os resultados variem conforme a utilização do equipamento. Neste caso, o investimento inicial é de R$ 39 mil.
Já nas microfranquias, o investidor atua como revendedor dos carregadores e do sistema da companhia. Dessa forma, a taxa de entrada é R$ 1 mil.
Atualmente, a empresa conta com cerca de 40 franqueados em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pernambuco, Bahia, Sergipe e Alagoas. A meta é encerrar este ano com 100 franquias.
Segundo Pereira, a procura vem crescendo à medida que mais empreendedores enxergam oportunidades na expansão da infraestrutura para veículos elétricos. "O volume de pessoas interessadas em entrar nesse mercado é muito grande. Mas a gente pretende crescer com qualidade", afirma.
A empresa também destaca o otimismo no segmento de condomínios residenciais, principalmente com a tecnologia do Maestro Tcharge. O empreendedor acredita que, nos próximos anos, os imóveis devem aparecer mais entre os resultados da empresa.
Dentre outros objetivos no radar que ainda não saíram do papel está, por exemplo, um modelo de aluguel de veículos elétricos por turno para motoristas de aplicativo, que combina a venda do automóvel e a infraestrutura de recarga para o franqueado.
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