Tchau, Adidas Samba: o novo tênis que faz sucesso na Europa é ‘feio’, mas funcional
Marca francesa Salomon saiu das montanhas para conquistar os bairros mais deslocados da Europa, com seus tênis impermeáveis e confortáveis

Nos últimos anos, ao andar pelas ruas da Europa, ou de metrópoles norte-americanas efervescentes como Nova York ou San Francisco, você tinha uma certeza em mente: o Adidas Samba era o tênis do momento. A marca alemã agregou mais dois modelos para comporem a “santíssima” trindade, o Gazelle e o Spezial. E graças a isso, conseguiu não apenas dominar o guarda-roupa dos europeus, americanos — e brasileiros —, como também ter resultados financeiros notáveis.
Acontece que esse mesmo passeio pelas ruas europeias hoje te leva a uma outra conclusão. Sim, os Sambas ainda dominam. No entanto, um novo personagem outsider já é facilmente reconhecível. É um tênis de trilheiros, considerado “feio” por muitos, mas que se destaca pela funcionalidade e pelo conforto, e por isso tem ganhado cada vez mais adeptos.
Estamos falando dos tênis da Salomon, uma marca francesa que se especializou em calçados para esportes ao ar livre. Agora, porém, ela furou a bolha ao conquistar os fashionistas das primeiras filas das Fashion Weeks e os trend setters das redes sociais.
Os Salomons saíram das montanhas de Annecy, cidade origem da empresa, para circularem no Marais, o bairro descolado de Paris.
Esse é o mesmo movimento que aconteceu com o Samba, uma chuteira antes de ser um tênis casual. Ou ainda com o Air Jordan da Nike, um tênis de basquete antes de ser um item de colecionador. E veio acompanhado também de resultados financeiros: em 2024, a Salomon ultrapassou US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões) em vendas.
“Toda cultura sneaker nasce de um propósito. A gente não pode esquecer que o Golden Goose, por exemplo, era um tênis de skate. Hoje você o compra para fazer trekking no shopping Iguatemi”, compara o estilista Giuliny Shauer.
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Conforto antes do estilo?
O fato de que os tênis “esportivos” estão ganhando cada vez mais espaço no streetwear não é trivial. Segundo a coordenadora da pós-graduação de Marketing de Moda e Beleza da ESPM, Andreia Meneguete, trata-se de uma expressão do espírito do tempo, diante de uma sociedade pós-pandêmica que se encantou pelo bem-estar e pela mistura do estilo atlético com o casual, através das tendências de wellness e athleisure.
Essa tese é corroborada também por Shauer, que explica que o transporte individual é cada vez mais preterido nas grandes cidades. “O que as pessoas estão buscando são soluções que elas continuem estilosas, mas que façam com que elas convivam nesse novo mundo”, diz.
E nesse novo mundo, a multifuncionalidade dos tênis também conta como um ponto importante, quando se vai da academia para o trabalho para o happy hour em um mesmo dia, usando o transporte público e as outras formas de mobilidade (como bikes e patinetes elétricos).
Em bom português: não dá para andar dez mil passos por dia, na chuva, com um tênis desconfortável.
Nesse contexto, três fatores jogam a favor dos tênis Salomon, segundo o estilista. Conforto, estética e tecnologia. Com uma membrana impermeável por fora e respirável por dentro, os sapatos aguentam condições climáticas adversas, já que foram pensados para os aventureiros que encaram esportes ao ar livre.
Trata-se, portanto, um tênis que se adequa à realidade urbana, mesmo tendo sido pensado para a natureza.
Das montanhas para os shoppings
A On saiu das quadras de tênis, a Nike saiu das quadras de basquete e a Adidas dos campos de futebol… mas essa tentativa de capturar a pecha de lifestyle não é uma trajetória imune de solavancos. E a Salomon pode aprender com erros de concorrentes.
Embora ainda seja o maior nome no mercado de sneakers mundial, a Nike teve que reajustar a estratégia em 2025 para reconquistar o público de performance esportiva.
Na tentativa de surfar o potencial dos segmentos de tênis casuais, competindo diretamente com o hype da Adidas, a Nike apostou em categorizações genéricas dos produtos e acabou perdendo espaço para marcas emergentes.
“Nós perdemos nossa obsessão pelo esporte. A partir de agora, vamos colocar o atleta no centro de cada decisão. A precisão em cada esporte é o que diferencia nossa marca e nosso negócio, e alimenta nossa cultura”, assumiu o próprio CEO Elliot Hill, em conferência com investidores no começo do ano passado.
Nesse sentido, o desafio da Salomon é manter, ao mesmo tempo, seu público trilheiro e os novos clientes fashionistas.
Na visão de Shauer, a marca francesa tem que continuar reafirmando seu posicionamento como fabricante de calçados para esportes outdoor. “O público está ficando cada vez mais maduro e querendo consumir marcas que são verdadeiras em relação ao seu propósito”, diz. Para Meneguete, o segredo é fazer uma gestão estratégica da marca diante desses públicos distintos, sem perder o DNA.
Os próximos passos da Salomon — e a chegada no Brasil
Em entrevista ao portal especializado Business of Fashion, o CEO Guillaume Meyzenq revelou que a Salomon pretende nomear o primeiro diretor criativo da sua história em 2026, um passo importante nessa guinada lifestyle.
Além disso, a empresa tornou-se patrocinadora de festivais de música importantes na França, como o We Love Green (voltado para um público jovem) e abriu uma loja conceito no — rufem os tambores — bairro do Marais em Paris, especializada nos modelos sportstyle. Na célebre Champs Elysées, uma flagship imponente de dois andares permite que os curiosos conheçam todo o amplo espectro da marca.

Durante a Semana de Moda de Paris, a marca fez um evento na loja do Marais para apresentar modelos icônicos e se conectar com nomes influentes da moda.
Por fim, ainda no final de 2025, a Salomon deu mais um passo relevante na sua trajetória de streetwear: uma parceria com a Carhartt, marca que também furou a bolha das vestimentas funcionais e vive um hype contínuo na Europa com seus gorros, calças oversized e casacos de boa qualidade.
Como reforça o Business of Fashion, “a questão crítica é até que ponto a marca pode ampliar seu público na área da moda sem comprometer sua credibilidade técnica.”
No Brasil, a marca ainda chega tímida e nichada, com poucos pontos de venda e uma popularização aos poucos. Por ora, o que mais se vê são brasileiros que viajaram à Europa ou à Nova York recentemente e trouxeram na mala um modelo. O mais famoso é o XT-6, que sai a 180 euros (R$ 1.145), mas ainda não está disponível no e-commerce brasileiro da marca.
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