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Hino de resistência recente ao regime cubano, música do Orishas volta ao Brasil em março; ao Seu Dinheiro, Yotuel Romero pondera sobre o impacto de sua arte junto aos exilados cubanos: “causas boas, consequências difíceis”
Cuba, para o Orishas, nunca foi apenas uma questão de território, mas de memória e resistência. Formado em Paris no final da década de 1990 longe da Havana, terra natal dos músicos Yotuel Romero e Roldán González, o grupo transformou a distância geográfica em uma ferramenta de análise social, consolidando-se como a voz de uma nação que pulsa fora de suas fronteiras oficiais.
O exílio não é aqui uma circunstância acidental, mas o alicerce de uma obra que, há quase 30 anos, documenta as tensões de uma sociedade real, fragmentada entre a retórica do regime e as aspirações de quem habita a aspereza das ruas.
O retorno do Orishas ao Brasil, com apresentação marcada para 15 de março em São Paulo, serve como um lembrete da permanência desse deslocamento. Enquanto a produção cultural chancelada pelo Estado cubano historicamente exportava uma nostalgia imobilizada no tempo, o Orishas introduziu o hip-hop como uma linguagem de confronto e crônica cotidiana.
O que o grupo opera é uma forma de cartografia política: utilizam o ritmo para conectar a diáspora e dar vazão aos desejos de liberdade de um povo sob censura, provando que a música é o único território onde a identidade cubana pode ser exercida sem as amarras do governo de Havana.
A banda, então, faz hip-hop com swing latino como linguagem para falar da vida cotidiana, dos bairros populares e das contradições sociais que raramente apareciam na produção cultural exportada pela ilha.
“O que saía de Cuba naquele momento eram artistas de academia, músicos incríveis, mas que não falavam da vida dos bairros, da rua, do povo”, afirma Yotuel Romero, em entrevista direto de Miami, Estados Unidos. “Naquele momento, o Orishas veio para dizer: esta é a nova Cuba", completa.
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O impacto dessa proposta se materializou em A Lo Cubano (1999), álbum que ajudou a consolidar o hip-hop latino em escala internacional. Mais de duas décadas depois, o disco segue como referência.
“Hoje tocamos A Lo Cubano e as pessoas se surpreendem, dizem que é moderno, essencial. E foi feito há mais de 26 anos”, diz Yotuel. Para ele, a longevidade do álbum está ligada ao fato de o grupo ter antecipado transformações culturais que só se tornariam evidentes anos depois.
Com o passar do tempo, a experiência do deslocamento se tornou um elemento central da obra do Orishas. Longe de Cuba, a música do grupo passou a incorporar temas como nostalgia, ausência e memória, especialmente em discos como Emigrante, de 2002.
O exílio deixou de ser apenas circunstancial para se tornar parte da identidade artística. “Escrever Cuba de fora nos faz senti-la muito mais e escrever canções mais profundas”, afirma Yotuel.
Essa abordagem ampliou o alcance do grupo para além da comunidade cubana. A identificação passou a incluir diferentes públicos latino-americanos e comunidades migrantes espalhadas pelo mundo.
“Conectamos com um público completamente variado, não apenas cubanos, mas com toda a América Latina”, diz. Nesse processo, o Brasil ocupa um lugar singular. “Somos um dos poucos artistas latinos que, desde o primeiro minuto, tiveram uma conexão incrível com o Brasil.”
Para Yotuel, essa conexão não se explica apenas pelas letras. Ele aponta para a musicalidade como um idioma próprio, capaz de atravessar fronteiras culturais.
“A música é comum. A vitamina C que cura um brasileiro é a mesma que cura um parisiense”, afirma. A metáfora resume uma percepção recorrente na trajetória do grupo: públicos de países distintos reagem de forma semelhante às apresentações do Orishas.
Segundo ele, a resposta costuma ser igualmente intensa em lugares como Argentina, Chile, Alemanha ou Holanda, o que reforça a ideia de que a música funciona como território compartilhado.
A relação entre música e política se tornou ainda mais explícita após o lançamento de “Patria y Vida”, canção que se transformou em um dos principais símbolos recentes da oposição ao regime cubano.
Resposta literal ao slogan revolucionário “Patria o Muerte” (Pátria ou Morte) adotado desde 1960 pelo que se tornaria o regime, a canção acabou virando símbolo da resistência, que tomou as ruas de Havana em 2021. No caminho, arrebatou duas estatuetas no Grammy Latino daquele ano, como “Canção do Ano” e “Melhor Canção Urbana”.
Desde então, Yotuel está impedido de retornar à ilha.
“O regime me proibiu de entrar porque temiam que minha voz fosse mais profunda no povo”, afirma.

A situação individual reflete um contexto político mais amplo. Cuba permanece como um Estado de partido único, com forte controle institucional do Partido Comunista, restrições ao pluralismo político e repressão sistemática a vozes dissidentes.
Mesmo após os protestos de julho de 2021, considerados os maiores em décadas, o regime demonstrou capacidade de se manter coeso, combinando repressão interna, controle dos meios de comunicação e apoio de aliados estratégicos no cenário internacional.
Nos últimos anos, a crise econômica se aprofundou, com escassez de alimentos, apagões frequentes e deterioração dos serviços públicos, o que provocou uma das maiores ondas migratórias da história recente do país.
Ainda assim, organizações internacionais de direitos humanos seguem relatando detenções arbitrárias, censura e perseguição a artistas, jornalistas e ativistas, indicando que não há, no curto prazo, sinais concretos de abertura política.
É nesse cenário que se insere a expectativa de Yotuel, marcada mais pelo desejo do que por uma leitura otimista dos fatos. “Vivo feliz e confiante de que em breve celebraremos e cantaremos ‘Patria y Vida’ em frente a mais de 11 milhões de cubanos ao mesmo tempo”, afirma.
A imagem de um retorno coletivo, com a música ecoando por toda a ilha, funciona como projeção simbólica de um futuro ainda distante. Ao mesmo tempo, revela a permanência do vínculo afetivo com o país que ele deixou.
Yotuel reconhece o custo dessa escolha. “Na vida, é preciso lutar pelas causas boas, mesmo que tragam consequências difíceis”, diz, referindo-se ao impedimento de voltar ao país enquanto o regime permanecer no poder. Ainda assim, a música segue como instrumento de resistência e de preservação da memória coletiva.
Para o Orishas, a música nunca foi apenas entretenimento. Yotuel lembra que, na América Latina, existe uma tradição de artistas que conseguem unir celebração e reflexão. Ele cita Rubén Blades, do Panamá, e Djavan como exemplos de músicos que fazem o público dançar sem abrir mão da densidade emocional e política. “Podemos dançar e nos alimentar ao mesmo tempo”, afirma.
Essa concepção segue presente na fase atual da banda, que passou por uma reformulação completa. A nova formação reúne músicos de diferentes nacionalidades, entre cubanos, espanhóis e americanos, todos eles ouvintes e admiradores do Orishas desde a juventude. “Nunca tivemos uma banda tão potente como agora”, diz Yotuel, destacando o impacto geracional dessa renovação.
A turnê atual reflete essa expansão. O roteiro inclui Panamá, Chile, Brasil, Costa Rica e uma extensa agenda europeia, com países como Espanha, Holanda, Suíça, França, Alemanha e Itália. Há ainda planos para territórios inéditos na história do grupo, como o Japão. “Há muitos lugares levantando a mão e dizendo que querem um concerto do Orishas”, afirma.
Fora do palco, Yotuel acompanha de perto a produção musical latino-americana contemporânea. Ouve artistas argentinos como Milo J, o rap flamenco espanhol representado por nomes como Moncho Chavea e, no Brasil, grupos como o BaianaSystem.
Para Yotuel, a música segue sendo o principal elo entre passado, presente e um futuro ainda em disputa. Mesmo impedido de retornar à ilha, ele mantém a expectativa de um reencontro coletivo mediado pela canção que se tornou símbolo de resistência. “Cuba é o meu lar. Posso ter casas em muitos lugares do mundo, mas lar só existe um. E é por ele que continuo lutando.”

Data: 15 de março (domingo)
Abertura dos portões: 18h00
Local: Tokio Marine Hall, São Paulo (SP)
Endereço: Rua Bragança Paulista, 1281, Várzea de Baixo, São Paulo, SP
Realização: Top Link Music
Ingressos: https://www.ticketmaster.com.br/event/orishas-represent-cuba-tour-tokio-marine-hall
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