Nem juros nem crédito: bets já são a maior causa de dívidas no Brasil, diz estudo
Pesquisa mostra que as plataformas de apostas online se tornaram um fator macroeconômico relevante para as dívidas dos brasileiros

Embora os juros em patamar elevado e o acesso ao crédito sejam vistos como os grandes vilões para o endividamento das famílias brasileiras, há um outro fator que já se tornou o principal fator de dívidas: as apostas online.
Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar), em parceria com a FIA Business School, mostra que as bets agora tem papel central nas dívidas dos brasileiros. Pela primeira vez, o impacto das plataformas de apostas online superou os efeitos dos juros e da oferta de crédito.
O estudo analisou o endividamento entre os anos de 2011 e 2025 a partir de modelos estatísticos baseados em dados do Banco Central, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e interesse dos brasileiros pelas bets nas redes sociais.
Os resultados indicam que o coeficiente das apostas nas dívidas domésticas chega a 0,2255, o crédito representa 0,0440 e os juros são 0,0709.
Na prática, a pesquisa mostra que o avanço das apostas tem um peso muito maior no crescimento da dívida do que os juros ou o crédito. O impacto estimado das bets é mais que o dobro da soma dos dois fatores tradicionais.
Ou seja: quando o interesse em apostas cresce, o endividamento das famílias acelera mais do que quando os juros sobem ou quando o crédito fica mais farto.
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Mudança na dinâmica da dívida
Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, explica que, apesar de os dados coletados pela pesquisa mostrarem uma leve desaceleração no crescimento do endividamento, houve uma mudança na dinâmica da dívida.
"O crescimento acelerado do mercado de bets não é apenas uma questão regulatória ou tributária. Trata-se de um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo”, defende Felisoni.
Não é um problema exclusivamente brasileiro
Legalizadas em 2018 e com regulamentação que entrou em prática em 2025, as apostas online se popularizaram rapidamente no Brasil.
Porém, embora a fama seja grande entre os brasileiros, os efeitos econômicos não são vistos somente no país.
A pesquisa explica que um cenário semelhante é observado nos Estados Unidos desde 2018, quando Suprema Corte liberou esse mercado.
Segundo o Ibevar e a FIA Business School, estudos norte-americanos apontam que a legalização provocou aumento persistente no volume de apostas, gerou uma redução da poupança e a queda nos investimentos financeiros.
Os dados indicam que, em média, cada US$ 1 gasto em apostas reduziu quase US$ 1 em investimentos no mercado financeiro, com queda de cerca de 14% nos aportes líquidos em corretoras.
Em linha com o crescimento das apostas, houve a deterioração do orçamento pessoal, principalmente entre famílias de classes mais baixas com:
- Aumento do endividamento no cartão de crédito;
- Redução do crédito disponível;
- Menor pagamento de faturas; e
- Maior uso de cheque especial.
“O padrão sugere deslocamento de recursos de atividades produtivas e poupança de longo prazo para apostas de retorno esperado negativo”, explica a pesquisa.
Apostas pesam no orçamento
Outro estudo que mostra as apostas online como um dos grandes motores de fragilidade financeira foi realizado no fim do ano passado pela Loft, em parceria com a Offerwise, com foco no mercado imobiliário.
Segundo a pesquisa, que considerou dados entre setembro e outubro de 2025, 31% dos inquilinos que moram de aluguel afirmam já ter atrasado ou conhecer alguém que atrasou o pagamento do aluguel devido às bets.
E os entrevistados mostram que reconhecem os riscos das apostas online.
Cerca de 74% dos participantes da pesquisa acreditam que as bets aumentam o endividamento da família — percepção que foi comprovada pelo estudo recente do Ibevar com a FIA Business School.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) procurou o Seu Dinheiro para se posicionar sobre os resultados da pesquisa realizada pelo Ibevar com a FIA Business School.
Em nota, afirmou que a metodologia usada no estudo, ao considerar a métrica de "interesse por apostas nas redes sociais", não estabelece impacto monetário real nos orçamentos domésticos. "A pesquisa constrói uma associação entre endividamento e a visibilidade de um tema. Não relaciona endividamento e desembolsos concretos com apostas".
Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL, declarou que "o estudo levanta uma hipótese relevante, mas não apresenta evidências robustas".
*Este conteúdo foi editado em 27 de março de 2026 para incluir o posicionamento da ANJL.
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