Páscoa sem chocolate? Como a escassez de cacau vai influenciar um dos feriados mais esperados pela criançada
Com a commodity disparando mais de 400%, fabricantes reformulam produtos e levam consumidores a buscar alternativas aos tradicionais ovos de chocolate

Marcas de “pegadas” pela casa, ovos escondidos atrás do sofá e barras surgindo dentro de armários ou no quintal. Para muitas famílias, a Páscoa começa assim: uma pequena caça ao tesouro improvisada que transforma o domingo em diversão para a criançada.
Nos últimos anos, porém, encontrar chocolate ficou um pouco mais difícil — e bem mais caro. A razão está longe da sala de casa. O cacau, a principal matéria-prima de ovos, barras e coelhos de chocolate, enfrentou uma das maiores crises das últimas décadas.
E isso significa que a Páscoa de 2026 chega com um gosto um pouco mais salgado: os tradicionais ovos podem chegar às prateleiras até 26% mais caros neste ano.
Queda na produção e preços recordes: o cacau que encareceu a Páscoa
A origem do problema está nas principais regiões produtoras do mundo.
Países da África Ocidental, como Costa do Marfim e Gana, que concentram 70% da produção mundial, enfrentaram quebras históricas de safra devido a eventos climáticos extremos associados ao El Niño e doenças nas lavouras nos últimos dois anos.
O déficit acumulado chegou a 500 mil toneladas, esvaziando estoques globais e pressionando os preços da commodity. Na bolsa de Nova York, o cacau chegou a ultrapassar os US$ 13 mil por tonelada em dezembro de 2024, um recorde histórico.
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Para efeito de comparação, essa commodity tradicionalmente oscila entre US$ 2 mil e US$ 3 mil por tonelada. Em dois anos, o preço acumulou alta de cerca de 420%.
Nas últimas semanas, a cotação do cacau nos mercados internacionais até caiu um pouco em relação ao pico, mas não a tempo de baratear um dos principais símbolos da Páscoa: o chocolate.
O impacto da escassez de cacau na indústria do chocolate
O aumento no preço da matéria-prima rapidamente chegou às prateleiras globais.
No Brasil, o preço do chocolate subiu quase 25% nos últimos 12 meses, bem acima da inflação oficial. No mesmo período, o IPCA acumulado foi de 3,77%.
Diante desse cenário, a indústria precisou se reinventar.
Fabricantes passaram a reformular produtos para reduzir a dependência do cacau puro, evitando repasses integrais ao consumidor e mantendo os produtos mais acessíveis.
Entre as soluções adotadas estão receitas com menor concentração de chocolate, substituindo por óleos vegetais, e tecnologias inovadoras como o “Cocoa Extender”, ingrediente com aroma natural idêntico ao cacau que permite substituir até 30% da matéria-prima sem alterar significativamente a qualidade sensorial do produto.
Uma possível ressurreição do cacau
Tal como o significado da Páscoa, o cacau passa por um renascimento em 2026.
As projeções para a safra 2025/2026, indicam um superávit global de cerca de 200 mil toneladas, sinalizando o início de uma recuperação na oferta.
Os preços internacionais já começaram a reagir. Depois de altas históricas, o cacau chegou a recuar para cerca de US$ 3.275 por tonelada em março, uma queda de aproximadamente 75% em relação ao pico.
Mas, embora o futuro indique que o chocolate ficará mais barato, a Páscoa de 2026 ainda será um ano de ajuste amargo.
Isso porque o chocolate que está nas prateleiras começou a ser produzido quando o cacau ainda estava caro. Além disso, custos industriais e logísticos continuam pressionando o preço final.
Por isso, mesmo com a queda recente da commodity, os ovos de chocolate da Páscoa de 2026 ainda devem chegar mais caros aos supermercados, chegando a custar até 26% mais do que no ano passado.
Produtos como o Lacta Sonho de Valsa (277g) subiram cerca de 26,64%, e o Garoto Crocante (227g) avançou aproximadamente 24,98%, segundo levantamento do Seu Dinheiro.
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Uma Páscoa diferente, mas não menos doce
Mas nada disso significa que a Páscoa precisa ser menos especial. A diferença é que, neste ano, muitas famílias podem trocar ovos gigantes e tradicionais por presentes mais criativos.
A alternativa direta é trocar ovos por barras e bombons, que costumam ter o preço por quilo até cinco vezes menor. Por exemplo, enquanto um ovo Lacta Chocolate Ao Leite de 157g pode chegar a R$ 78, a barra de mesmo sabor com 145g pode ser adquirida por apenas R$ 16.
Outra opção é buscar opções artesanais de pequenos empreendedores e chocolaterias com cascas mais finas e recheios variados — como brigadeiro, mousse e bolo —, mas igualmente deliciosas.
No fim das contas, o feriado continua carregando o mesmo espírito: compartilhar momentos e criar memórias. Mesmo que, por enquanto, o “coelhinho” precise ser um pouco mais estratégico.
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