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Carina Brito

Carina Brito

Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP) com pós-graduação em Marketing e Mídias Digitais pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Trabalhou como repórter da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e já escreveu para Valor Econômico, Revista Galileu e UOL. Hoje é editora de Pequenas e Médias Empresas (PMEs), Carreira e ESG do Seu Dinheiro.

NOVOS MERCADOS

Maior concorrência e oportunidade de exportação: os possíveis impactos do acordo Mercosul–UE para PMEs brasileiras

Pequenas e médias empresas ganham acesso ao mercado europeu, mas também precisarão lidar com maior concorrência em solo nacional

Carina Brito
Carina Brito
9 de janeiro de 2026
16:47 - atualizado às 13:37
Quer exportar para a Europa? Veja riscos e oportunidades com o acordo Mercosul–UE para PMEs brasileiras - Imagem: iStock

A aprovação provisória do acordo Mercosul-UE, nesta sexta-feira (9), abre uma nova etapa na relação econômica entre os blocos. Pequenas e médias empresas (PMEs) podem ter vantagens ao ganhar um novo mercado para seus produtos.

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Ao mesmo tempo, precisam dar atenção especial aos seus negócios para se manterem competitivas com a presença maior de empresas estrangeiras no mercado brasileiro.

O acordo com a União Europeia prevê a criação da maior zona de livre-comércio do mundo, com redução gradual de tarifas e maior integração regulatória.

O Mercosul eliminará as tarifas sobre 91% das importações vindas da UE ao longo de um período de 15 anos. Do outro lado, a UE eliminará progressivamente as tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul para o bloco por até dez anos. A previsão é que o documento seja assinado na próxima semana.

Acordo Mercosul-UE aumenta o mercado em potencial

Em 2025, a União Europeia respondeu por 14,3% das exportações brasileiras, segundo dados da balança comercial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Do lado das importações, UE comprou 17,9% de tudo que o Brasil exportou.

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Apesar da relevância do bloco europeu no comércio exterior, o número de pequenas empresas brasileiras que exportam ainda é reduzido. Hoje, elas representam menos de 1% do valor exportado e seguem concentradas no mercado interno, o que limita, na prática, o aproveitamento imediato das vantagens previstas no acordo.

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Os efeitos do acordo Mercosul-UE sobre as PMEs brasileiras devem ser graduais e melhorar a competitividade de produtos brasileiros no mercado europeu, ampliando margens e permitindo preços mais atrativos, diz João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Ainda assim, segundo ele, o ganho tarifário isolado não é o principal fator de entrada no comércio internacional.

“O diferencial mais relevante está na previsibilidade regulatória proporcionada pela integração com um mercado altamente institucionalizado”, afirma.

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Isso significa que empresas conseguem antecipar custos, riscos e obrigações antes de investir ou firmar contratos de longo prazo.

“Na União Europeia, as normas seguem processos formais, com consultas públicas, períodos de transição e fiscalização relativamente consistente, reduzindo mudanças abruptas por decisões políticas pontuais”, diz.

PMEs brasileiras também veem a concorrência se acirrar

Já para o economista Paulo Feldmann, professor da FIA Business School, o acordo Mercosul-UE tende a ter efeitos mais negativos para as PMEs brasileiras.

“O acordo é considerado benéfico para o Mercosul como um todo e para as grandes empresas brasileiras, mas as pequenas empresas serão prejudicadas devido a uma profunda assimetria competitiva com as pequenas empresas europeias”, afirma.

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Segundo Feldmann, empresas europeias contam com maior apoio governamental e já têm mais tradição em exportar. “Existe um abismo na experiência de comércio exterior. Na Europa, as pequenas empresas são responsáveis por uma grande parte das exportações, enquanto no Brasil esse número é muito baixo”, diz.

Na ausência de políticas públicas de incentivo, ele avalia que as PMEs brasileiras não possuem experiência suficiente para acessar o mercado europeu. Além disso, a entrada de empresas estrangeiras mais organizadas e estruturadas pode intensificar a concorrência no mercado interno.

Estratégias para enfrentar o novo cenário

Para Nyegray, a principal estratégia para as PMEs brasileiras é compreender que o acordo não deve ser tratado como um evento distante, mas como um processo já em curso. A preparação começa pela redefinição da proposta de valor.

“Para acessar o mercado europeu, não basta oferecer preço competitivo; é necessário demonstrar qualidade consistente, capacidade de entrega, conformidade regulatória e uma narrativa clara sobre origem, sustentabilidade e confiabilidade”, afirma o docente.

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Entre as estratégias estão papear exigências técnicas e ambientais, estruturar sistemas de rastreabilidade e organizar a documentação de origem.

Também fundamental elevar padrões de gestão, qualidade e logística. “O mercado europeu penaliza atrasos, inconsistências e falhas contratuais, o que exige profissionalização de processos, revisão de contratos internacionais e atenção à gestão de riscos cambiais e logísticos”, diz.

Para PMEs que não pretendem exportar ou que atuam em setores mais pressionados pela concorrência europeia, a estratégia tende a ser defensiva e adaptativa. Isso envolve reduzir a dependência de produtos comoditizados, investir em diferenciação por serviço e customização e considerar parcerias estratégicas com empresas europeias.

Setores com maior potencial de ganho — e de risco

Segundo o professor da PUCPR, os maiores beneficiários tendem a ser setores nos quais as PMEs brasileiras conseguem combinar acesso preferencial com diferenciação, valor agregado e narrativa de origem.

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“Alimentos e bebidas premium, como cafés especiais, chocolates de origem, mel, frutas processadas e ingredientes naturais, encontram na União Europeia um mercado disposto a pagar mais por qualidade, sustentabilidade e identidade territorial”, afirma.

As PMEs brasileiras pode se integrar no nicho B2B, desde que atendam aos padrões técnicos exigidos pelo mercado europeu para fornecer insumos utilizados no produto final.

O setor de serviços exportáveis — como tecnologia da informação, engenharia, design e serviços corporativos e criativos — também tende a se beneficiar, por enfrentar menos barreiras tarifárias e contar com maior aproximação institucional entre os blocos.

Setores mais vulneráveis incluem aqueles em que PMEs brasileiras competem diretamente com produtos europeus no mercado interno, especialmente bens industriais de média intensidade tecnológica, máquinas leves, químicos especializados e alguns bens de consumo duráveis. A entrada de produtos europeus nessas áreas pode reduzir margens e eliminar empresas menos eficientes.

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Cadeias intensivas em carbono ou com baixa rastreabilidade ambiental também tendem a sofrer pressão adicional, já que clientes passam a exigir comprovações ambientais mais rigorosas.

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