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Carolina Gama

Formada em jornalismo pela Cásper Líbero, já trabalhou em redações de economia de jornais como DCI e em agências de tempo real como a CMA. Já passou por rádios populares e ganhou prêmio em Portugal.

INFLAÇÃO E JUROS

IPCA de dezembro deixa gosto amargo na boca: corte da Selic em janeiro sai da prateleira e março finca lugar na mesa 

Apesar de o índice ter fechado o ano dentro do intervalo de tolerância da meta do Banco Central, bancos e corretoras descartam o relaxamento dos juros agora; saiba o que esperar da inflação em 2026

Carolina Gama
9 de janeiro de 2026
13:10 - atualizado às 15:16
selic ação fundo imobiliário fii taxa de juros
Selic - Imagem: Rmcarvalho/iStock - Montagem: Giovanna Figueredo

Sabe aquele chocolate que vem em uma embalagem bonita, parece apetitoso, mas tem teor de cacau acima de 80%? Assim foi a inflação de 2025: dentro do teto da meta com um trimestre de antecedência ao previsto pelo Banco Central, mas deixou um gosto amargo para a maioria dos investidores.  

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O índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) de dezembro subiu 0,33% em dezembro, encerrando 2025 com um acumulado de 4,26% — dentro do intervalo de tolerância da meta do BC, que ia até 4,5%. 

O resultado, o menor para um ano fechado desde 2018, foi beneficiado pelo alívio na energia elétrica e nos alimentos. Contudo, o recheio do índice trouxe preocupação para os investidores: a inflação de serviços e a disseminação de altas de preços (difusão) aceleraram no último mês de 2025, o que fez o mercado colocar as fichas no corte de juros a partir de março ou depois, e não mais agora em janeiro. Atualmente, a Selic está sendo mantida em 15% ao ano.  

Alberto Ramos, diretor de macroeconomia do Goldman Sachs para a América Latina, avalia que a inflação no Brasil continua a apresentar pressões significativas, especialmente no setor de serviços.  

Segundo ele, apesar de um IPCA relativamente comportado e em linha com o esperado nas últimas leituras, a inflação dos serviços permanece elevada, refletindo um mercado de trabalho apertado e um hiato do produto positivo.  

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“A política monetária apertada está operando conforme o esperado — crescimento moderando, crédito desacelerando, expectativas de inflação diminuindo lentamente —, criando, gradualmente, as condições para o início de um ciclo moderado de corte nos juros, provavelmente na reunião de março”, diz.  

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Na mesma linha, o Daycoval espera corte da Selic em março, mas considera que o resultado do IPCA em dezembro eleva o risco do afrouxamento monetário ser adiado. 

O economista Julio Barros explica que os preços dos serviços em dezembro tiveram "alta expressiva", o que costuma ser motivado por fatores sazonais, como o aumento no valor das passagens aéreas.  

Apesar disso, a parte mais perene da inflação de serviços, o núcleo de inflação e a parte intensiva em trabalho, tiveram forte variação e são um desafio ao esforço do Banco Central para conter a alta de preços, segundo ele.   

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“O resultado não altera a nossa expectativa para o início de corte de juros apenas em março pelo Banco Central. Esse desafio na composição da inflação, com a parte mais perene, mais elevada do que a parte dos voláteis, coloca um viés, evidentemente, de postergação no nosso cenário base de corte de juros em março, justamente por conta desse desafio", diz Barros.   

Por dentro do IPCA de dezembro 

A alta de 0,33% registrada pelo IPCA em dezembro foi o resultado mais baixo para o mês desde 2018, quando havia subido 0,15%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em dezembro de 2024, a taxa tinha sido de 0,52%. 

Como consequência, o acumulado em 12 meses arrefeceu pelo terceiro mês consecutivo, passando de 4,46% em novembro de 2025 para 4,26% em dezembro, menor resultado desde agosto de 2024, quando alcançou 4,24%. 

Assim, o IPCA do ano ficou assim abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação (de 3%) perseguida pelo Banco Central — o resultado de 2025 foi o menor acumulado para o ano desde 2018, quando fechou em 3,75%. 

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Mas nem tudo é boa notícia quando se olha o índice no detalhe. O índice de difusão, que mostra o percentual de itens com aumentos de preços, passou de 56% em novembro para 60% em dezembro.   

A difusão de itens alimentícios saiu de 64% em novembro para 55% em dezembro. Já a difusão de itens não alimentícios sai de 49% em novembro para 65% em dezembro. 

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Se a queda de 4,2% na energia elétrica residencial exerceu o maior alívio individual sobre a inflação de dezembro — um impacto de –0,10 ponto percentual (pp) para a taxa de 0,33% do IPCA no mês —, na direção oposta, o preço das passagens aéreas pesou. 

A alta dessa categoria foi de 12,61%, com influência de 0,08 pp sobre o IPCA de dezembro. Houve contribuições positivas também do transporte por aplicativo (0,04 pp), lanche fora de casa (0,03 pp), etanol (0,02 pp), aparelho telefônico (0,02 pp), taxa de água e esgoto (0,02 pp) e plano de saúde (0,02 pp). 

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No geral, oito dos nove grupos que integram o IPCA registraram altas de preços em dezembro, de acordo com o IBGE.  

  • Alimentação e bebidas: + 0,27% e impacto de 0,06 pp;  
  • Artigos de residência: +0,64%, impacto de 0,02 pp;  
  • Comunicação: + 0,37% e impacto de 0,02 pp;  
  • Saúde e cuidados pessoais: +0,52% e impacto de 0,07 pp;  
  • Vestuário: +0,45% e impacto de 0,02 pp; 
  • Despesas pessoais: + 0,36% e impacto de 0,04 pp 
  • Educação: + 0,08%;  
  • Transportes: +0,74% e impacto de 0,15 pp 

 O único grupo com recuo foi Habitação, queda de -0,33% e impacto de -0,05 pp, segundo os dados do IBGE.  

“Analisando por grupos, vemos que a principal fonte de desinflação foi o grupo de Alimentos e bebidas, que teve um impacto de 1,02 pp menor em 2025 quando comparado com 2024, tendo encerrado o ano com alta acumulada de 2,95% ante alta de 7,65% em 2024”, diz André Valério, economista sênior do Inter.  

Segundo ele, esse desempenho reflete a reversão parcial dos preços das commodities agrícolas e a apreciação do real, que fez o grupo Alimentação e bebidas registrar cinco meses de deflação.  

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“Na ponta oposta, Habitação foi o grupo que mais pressionou a inflação em 2025 como um todo, refletindo o pior desempenho das chuvas e consequente pressão da bandeira de energia elétrica”, acrescenta.  

Entre as regiões, em dezembro, três das 16 registraram quedas de preços. O resultado mais brando ocorreu em São Luís (-0,19%), enquanto o mais elevado foi registrado em Porto Alegre, com aumento de 0,63%. 

O que esperar da inflação em 2026 

Além de reajustar as apostas no corte de juros neste ano, os bancos e corretoras também divulgaram as previsões para a inflação neste ano.  

O ASA, por exemplo, reduziu a projeção para o IPCA de 2026, de 4,2% para 4%, devido à expectativa de arrefecimento na inflação de serviços e alta mais contida nos demais preços livres. 

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Segundo o economista Leonardo Costa, a desinflação do IPCA de 2025 teve relação com o avanço mais modesto dos grupos de alimentação no domicílio e de bens industrializados, influenciado pela queda das commodities e a valorização do real. 

 Ele destaca ainda que os serviços e preços monitorados, em contrapartida, tiveram avanço na comparação anual, por passagem aérea e energia elétrica, respectivamente. Além disso, a inflação de serviços subjacentes apresentou resistência de 2024 para 2025, segundo Costa. 

O Daycoval, por sua vez, prevê inflação de 4,1% em 2026, e espera alta de 0,41% no IPCA em janeiro, mas com leve viés de baixa. 

O C6 Bank também não vê espaço para o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciar o ciclo de relaxamento na decisão de 28 de janeiro, quando a Selic deve ser mantida em 15%. O banco projeta o primeiro corte de juros em março, com a taxa básica retrocedendo gradualmente para 13% em 2026. 

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"No ano passado, o alívio veio basicamente da queda das commodities em reais, que segurou alimentos e bens industriais. Para 2026 e 2027, porém, nossa projeção é de um IPCA a 4,8%, impulsionado pelo mercado de trabalho robusto e pela perspectiva de um real mais depreciado, em meio às preocupações com o aumento da dívida pública no Brasil", disse e economista Heliezer Jacob.  

Como o mercado reagiu à inflação 

O Ibovespa iniciou as negociações desta sexta-feira (9) digerindo o IPCA de dezembro e o dado fechado de 2025.  

Embora o principal índice da bolsa brasileira tenha superado os 164 mil pontos na máxima do dia — um salto de cerca de 1.400 pontos em relação à mínima da sessão — o desempenho pouco tem a ver com a leitura da inflação por aqui.  

Em boa medida, o avanço do Ibovespa reflete a aceleração nas cotações do petróleo no mercado externo para mais de 2%, com as ações da Petrobras (PETR4) beirando as máximas do dia.  

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Além disso, o corte de juros nos EUA também entrou no radar dos investidores depois dos dados do payroll, como é conhecido o principal relatório de emprego do país.  

A economia norte-americana criou 50 mil empregos em dezembro, abaixo da previsão de 60 mil postos. A taxa de desemprego, por sua vez, caiu de 4,5% para 4,4%, ficando abaixo das previsões de manutenção. O salário médio por hora aumentou 0,33% em dezembro, na comparação mensal.  

No cenário corporativo, o mercado também monitora as negociações entre a Glencore e a Rio Tinto, que pode criar a maior mineradora do mundo, deixando BHP e Vale (VALE3) para trás.  

No cenário geopolítico, Venezuela e o acordo entre o Mercosul e a União Europeia também estão no radar dos investidores.  

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