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Entre a crise geopolítica e a rigidez inflacionária: volta ao normal no Brasil é adiada em um mundo fragmentado

Há risco de pressão adicional sobre as contas públicas brasileiras, aumento das expectativas de inflação e maior dificuldade no cumprimento das metas fiscais

Montagem da bandeira dos EUA, do Brasil e do Irã
Bandeiras dos EUA, Brasil e Irã - Imagem: ChatGPT

Os mercados globais iniciam a semana após o feriado de Páscoa com um respiro pontual de otimismo, sustentado por rumores de um possível acordo entre Estados Unidos e Irã, mediado por países como Paquistão e Omã, que contemplaria um cessar-fogo e a reabertura do Estreito de Ormuz.

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Esse alívio, no entanto, convive com um pano de fundo ainda bastante frágil, em que qualquer mudança de narrativa tem sido suficiente para provocar movimentos relevantes nos preços dos ativos.

Embora esses sinais tenham melhorado momentaneamente o humor dos mercados, o cenário permanece delicado.

O Irã já demonstrou resistência a um cessar-fogo limitado, sem garantias mais amplas, e as chances de um acordo imediato seguem reduzidas. As negociações continuam ocorrendo de forma indireta, o que por si só evidencia a complexidade do processo e a dificuldade de construção de um entendimento mais duradouro entre as partes envolvidas.

Ao mesmo tempo, o conflito segue em escalada, com troca de ataques diretos, destruição de infraestrutura e uma retórica cada vez mais dura por parte de Donald Trump, que passou a estabelecer novos prazos e ameaças explícitas ao Irã.

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Nesse contexto, a combinação de mensagens contraditórias e prazos instáveis amplia a incerteza e mantém os mercados dependentes de uma janela diplomática extremamente estreita, na qual as próximas horas tendem a ser determinantes para definir entre um processo de descompressão ou uma escalada adicional do conflito.

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Brasil no fogo cruzado da guerra entre Estados Unidos e Irã

Como consequência, o petróleo permanece em patamares elevados, enquanto os mercados seguem altamente sensíveis ao fluxo de notícias, alternando rapidamente entre momentos de maior apetite por risco e episódios de aversão, um retrato fiel de um ambiente em que a visibilidade ainda é bastante limitada.

No Brasil, seguimos, em grande medida, acompanhando o humor do cenário internacional.

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Ainda assim, o principal destaque doméstico da semana será a divulgação do IPCA de março, na sexta-feira, que deve começar a revelar, de forma mais concreta, os impactos do conflito sobre os preços na economia brasileira.

Minha leitura, neste momento, é pouco construtiva. Já vínhamos de uma prévia de inflação fraca, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo — e isso ainda sem incorporar plenamente os efeitos da guerra.

Com o dado cheio, há espaço para uma deterioração adicional, especialmente via alta do petróleo, seus derivados e outros insumos impactados, como fertilizantes, cujo efeito tende a aparecer nos alimentos em um segundo momento.

As indicações mais recentes sugerem que a inflação na ponta segue pressionada, o que aumenta a probabilidade de mais uma surpresa negativa, possivelmente com aceleração frente ao mês anterior. Para o Banco Central, que apenas iniciou o ciclo de cortes de juros, esse cenário impõe um desafio relevante.

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Não se trata, necessariamente, de interromper o processo de flexibilização, mas certamente de torná-lo mais contido. Em outras palavras, a direção pode até se manter, mas o espaço para cortes mais intensos parece, neste momento, significativamente reduzido.

Pressão inflacionária no Brasil

Apesar desse pano de fundo, o mercado local tem demonstrado alguma resiliência.

Mesmo com a volatilidade recente, o Ibovespa acumulou valorização de 3,58% na semana passada, encerrando acima dos 188 mil pontos, refletindo um equilíbrio ainda favorável entre fluxo, expectativas e preço dos ativos. Ainda assim, é difícil dissociar a trajetória doméstica do que acontece no exterior.

A resolução do conflito no Oriente Médio segue sendo a principal variável: quanto mais cedo houver uma descompressão — e, idealmente, sem uma escalada mais ampla —, maiores serão as chances de iniciarmos um processo de normalização, ainda que gradual, dado que parte dos danos à cadeia de suprimentos já foi contratada.

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Esse risco não passa despercebido pelo governo. Nesse contexto, o presidente Lula prepara um pacote amplo de medidas com o objetivo de conter a queda de popularidade, combinando ações para segurar os preços dos combustíveis com subsídios ao gás, energia elétrica e programas de renegociação de dívidas.

A preocupação central é o elevado endividamento das famílias, que pressiona a percepção econômica da população e exige respostas no curto prazo.

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O risco fiscal de volta ao radar

O desafio, no entanto, é evidente: diferentemente dos ciclos eleitorais de 2006, 2010 e 2014, quando havia aprovação líquida positiva, o cenário atual mostra um quadro desfavorável, com desaprovação superior à aprovação e menor margem de manobra.

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As medidas em discussão podem, de fato, aliviar o ambiente no curto prazo, mas carregam custos relevantes.

Há risco de pressão adicional sobre as contas públicas, aumento das expectativas de inflação e maior dificuldade no cumprimento das metas fiscais. Em última instância, isso tende a elevar o custo do ajuste fiscal que já se desenha como inevitável a partir de 2027.

Vale lembrar que parte relevante do nível ainda elevado de juros no Brasil está diretamente associada a esse quadro fiscal mais frágil: na ausência de uma âncora fiscal crível, recai sobre a política monetária o papel de compensar — muitas vezes trabalhando por dois.

Por isso, o caminho dos bancos centrais se torna tudo menos trivial.

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Não é só no Brasil: Estados Unidos enfrenta desafio semelhante

O mesmo dilema enfrentado pelo Banco Central brasileiro também se impõe ao Federal Reserve (Fed), que precisa equilibrar os efeitos de um choque inflacionário vindo da energia com sinais ainda presentes de desaceleração na atividade.

Nesse sentido, a agenda econômica da semana nos Estados Unidos será particularmente relevante, com a divulgação de indicadores-chave como inflação (CPI e PCE), PIB e a ata do Fed, que devem ajudar a calibrar a leitura sobre a intensidade e a persistência desse choque.

Ao mesmo tempo, indicadores antecedentes, como o PMI, já indicaram alguma perda de dinamismo, reforçando a percepção de um ambiente mais sensível.

Em um cenário mais à frente, uma eventual retomada do ciclo de cortes de juros pelo Fed poderia abrir espaço adicional para o Banco Central brasileiro avançar com maior conforto na flexibilização monetária. No curto prazo, no entanto, essa possibilidade parece ter saído do radar.

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A incerteza em torno da duração e da intensidade do conflito ainda impede uma leitura mais clara do cenário à frente, o que mantém as expectativas pressionadas e limita a visibilidade dos agentes econômicos.

A normalização desse quadro será condição necessária para a retomada de maior previsibilidade — até lá, o ambiente tende a seguir marcado por cautela e elevada sensibilidade a novos desdobramentos.

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