Na rotação de Sylvio Fraga, a mente por trás dos discos de vinil que reconquistam o Brasil
À frente da Rocinante, gravadora que fundou em 2018 ao lado de Pepê Monnerat, o músico, poeta e economista Sylvio Fraga conta como vem renovando o interesse do brasileiro nos discos de vinil
Sylvio Fraga tinha seis anos quando ouviu, do banco de trás do carro de seus pais, o violão de João Bosco no álbum Acústico (1992). “Foi minha primeira experiência forte com música”, conta. “Lembro que eu fiquei quicando pelo carro, foi uma coisa meio transcendental. Isso ficou muito marcado na minha memória, logo depois eu quis aprender a tocar violão.”
A relação com a música foi além das aulas de violão. Além da carreira consistente de instrumentista, cantor e compositor, desde 2018 Sylvio comanda a gravadora Rocinante, fundada por ele em sociedade com o engenheiro de som Pepê Monnerat. À frente do negócio, ele é movido pela mesma paixão indefinível que o tomou naquele dia no banco de trás do carro dos pais. Assim, tem lançado discos de artistas que estão entre os mais destacados da nova música brasileira — como Thiago Amud e Ilessi — e nomes consagrados — como Hermeto Pascoal, Orkestra Rumpilezz, João Donato e Jards Macalé.
A paixão vem da infância, mas o negócio é de gente grande. Além da gravadora, que tem feito um trabalho marcante de lançar luz sobre a produção contemporânea da música brasileira com seus lançamentos, a estrutura da Rocinante inclui também uma fábrica de vinil que prensou 150 mil discos em 2024. Entre eles, os campeões de venda Caju e Indigo Borboleta Anil, ambos de Liniker, e Batidão Tropical, de Pabllo Vittar. Para 2025, a gravadora está modernizando suas instalações e ampliando a capacidade de produção de discos em até 70%.
- No Brasil, as receitas de vendas de discos de vinil cresceram 136% em 2023, segundo relatório da Pró-Música. O faturamento bruto no país foi de R$ 11 milhões naquele ano contra R$ 5 milhões dos CDs.
A virada de disco
O caminho que Sylvio traçou do menino que foi arrebatado por João Bosco ao sócio da Rocinante não foi uma linha reta. Filho do economista e ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, ele conta que nunca sofreu nenhum tipo de pressão para seguir a carreira. Ao mesmo tempo, porém, o seu horizonte parecia apontar nessa direção.
“Eu tinha 18 anos, estava fazendo vestibular, e não conhecia nenhum outro artista no meu ambiente”, lembra. “Eu nem cogitava a ideia de ter uma vida dedicada à arte. É muito louco, porque eu tocava violão todo dia, o dia inteiro, escrevia poemas, fazia música o dia inteiro… Mas nem concebia fazer isso na faculdade.”
Durante o curso de Economia da PUC-RJ, porém, caiu a ficha. “Me dei conta na sala de aula que eu só pensava em música e poema, e meus colegas estavam tarados naquela aula de microeconomia que eu estava achando a coisa mais chata do planeta.” Achou importante, porém, concluir o curso antes de se lançar nos estudos de cultura brasileira, história da arte ou poesia — assuntos que já despertavam seu interesse então.
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Na reta final da faculdade, teve uma oportunidade inusitada que apontava um primeiro desvio de rota: aos 22 anos, foi convidado para dirigir o Museu Antônio Parreiras, em Niterói. “É uma história meio maluca”, conta Sylvio.
“Eu estava estudando um período da história da arte brasileira que naquela época pouquíssima gente estava estudando, o século XIX. Um dia, escrevi uma crítica de uma exposição do pintor Antônio Parreiras, que eu tinha achado muito ruim. Era uma crítica de jovem, um pouco arrogante – mas eu até hoje concordo com o conteúdo.”
Adriana Rattes, secretária de Cultura do Estado do Rio na época, leu a crítica e comentou com pessoas que conheciam Sylvio. No meio da conversa, disse que estava precisando trocar a direção do museu. Sugeriram a ela chamar “o garoto da crítica” para ser o novo diretor.
“Fiz coisas legais lá, tenho muito orgulho, mas foi muito estressante. Tive azia, fiquei careca. Como na Economia, percebi que aquilo não era pra mim. Me dei conta que estava há um ano sem escrever um poema.”
Decidiu estudar poesia nos Estados Unidos, onde sua irmã morava. Concluiu um mestrado na New York University, onde se aproximou da poesia americana contemporânea — mais tarde, traduziu três desses artistas para a coletânea O andar ao lado, organizada por ele e lançada em 2013. Com seus poemas, que atraíram elogios de poetas como Antonio Cicero e Armando Freitas Filho, lançou três livros: Entre árvores, Cardume e Quero-quero na várzea.
Na música, sua estreia é o álbum Rosto (2012). Depois vieram Cigarra no trovão (2015), Canção da cabra (2019), que assina com Letieres Leite, e Robalo nenhum (2022). Com o trio Mocofaia, que Sylvio integra ao lado de Luizinho do Jêje e Marcelo Galter, ele lançou um álbum homônimo em 2024. Em todos eles, Sylvio mostra seu desejo de explorar terrenos novos, investigar a arquitetura musical, inventar um caminho próprio.
“Entre os 16 e 19 anos, eu fazia meio que um pastiche de João Bosco, depois de Clube da Esquina, comecei a imitar aquilo um pouco”, conta Sylvio.
“Depois comecei a achar uma onda minha. Foi isso que sempre me interessou: a singularidade. E é isso que guia o meu trabalho na Rocinante também. É um caminho empresarial que espelha o processo criativo.”

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Alta fidelidade
Sylvio nota que, em primeiro lugar, não há um modelo análogo no Brasil, de uma gravadora com uma fábrica de discos: “Não fomos uma gravadora iniciada por empresários, mas por um músico e um engenheiro de som”.
“Havia várias lacunas, que viemos sanando ao longo dos anos. Recentemente, por exemplo, contratamos o Bruno Vieira, que foi da Amazon e da Deezer, pra pensar o aspecto digital do nosso negócio. Mas uma certeza a gente tinha desde o início: a primeira coisa que a gente tinha que garantir eram bons discos, feitos com muito cuidado e muito critério, com som bom e com capa boa.”

Os discos da Rocinante vêm cumprindo esse propósito, de excelência e invenção. Uma amostra dos lançamentos de 2024 até aqui sustenta isso: Mascarada, de Sergio Krakowski Trio e Jards Macalé juntos fazendo uma releitura jazz vanguardista de Zé Ketti; Atlântico Negro, de Ilessi, que assim como Mascarada foi apontado entre os melhores discos do ano passado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte; e Enseada perdida, de Thiago Amud, artista avalizado por nomes como Guinga, Francis Hime, Caetano Veloso e Chico Buarque (os dois últimos participam do novo disco).
Para sustentar sua perspectiva artística, a Rocinante desenvolveu — e segue desenvolvendo — seu modelo de negócio, suas soluções de mercado. A própria fábrica foi integrada ao projeto como forma de fazer com que uma gravadora com esse perfil fosse economicamente viável.
Com a Três Selos, clube de assinatura de vinis, a Rocinante estabeleceu a parceria Rocinante Três Selos. Juntos, eles fazem a curadoria dos discos que serão licenciados, lançados (ou relançados, no caso de clássicos) e distribuídos aos assinantes — desde o início da parceria, já foram 40 títulos. A fábrica da Rocinante prensa os vinis. Os discos de Liniker e Pabllo Vittar, citados aqui como os mais vendidos de 2024, se incluem nesse caso.
“Como acabamos de dobrar nossa infraestrutura de duas para quatro prensas, quero dedicar uma delas aos compactos. A gente quer reintroduzir o compacto no mercado. Uma ideia que temos é distribuir compactos dos artistas da Rocinante como brinde na assinatura Rocinante Três Selos. A gente faz, por exemplo, uma prensagem de 5 mil discos da Liniker e manda junto um compacto de Ilessi. É uma propaganda imensa do nosso catálogo.”
Outro plano que a gravadora estuda é lançar um modelo de assinaturas que inclui um toca-discos. “A ideia é ter um toca-disco Rocinante, endossado por nós com um ótimo custo-benefício. Porque tem muitos aparelhos no mercado, com uma diferença grande de preço, ninguém nunca sabe qual comprar. A gente pensa em facilitar isso pro assinante.”

Sylvio acredita que o fato de ter nascido na família em que nasceu não tinha como não influenciar os rumos de sua vida e, mais especificamente, na construção da Rocinante.
“É muito importante, no Brasil, que quem tem privilégio fale disso e reconheça isso. Se eu não tivesse vindo de onde eu vim, imagina se eu teria condições de levantar a Rocinante. Isso pra começar, porque outras coisas indiretamente conspiraram a favor. Tive a oportunidade de desenvolver um interesse pela história da arte, por exemplo. Isso me faz ter uma visão não imediatista da arte. Olho para a música sem a agonia de que ela bombe no presente, mas com a certeza muito firme de que aquela música vale a pena existir.”
O desejo de Sylvio é que a Rocinante siga viva por décadas, fiel à frase de Manuel Bandeira que encabeça seu site: “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.
Mas ele deixa claro: “O centro da minha vida é o violão que está do meu lado aqui. Não vou largar o violão e ficar na fábrica. O centro da minha vida é a música, a poesia”. É a partir desse olhar que põe a música no centro que a Rocinante vem se estabelecendo como referência mercadológica e artística.
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