Ig Nobel 2025 premia pesquisas sobre vacas listradas, morcegos embriagados e um molho cacio e pepe elevado ao nível da perfeição
Na 35ª edição do Ig Nobel, a premiação mais inusitada da ciência mostra mais uma vez como perguntas estranhas podem render prestígio — e boas risadas

A cena já diz tudo: aviões de papel cortando o ar, cientistas cantando sobre problemas estomacais e uma pessoa com fantasia de bolota gigante de mussarela. Foi assim que a 35ª cerimônia do Prêmio Ig Nobel mais uma vez transformou ciência em espetáculo — e espetáculo em reflexão.
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Criada em 1991 pelo editor e matemático Marc Abrahams, a premiação é organizada pela Improbable Research, que também edita a revista Annals of Improbable Research. O lema segue o mesmo: homenagear pesquisas que primeiro fazem rir, mas depois levam o público a refletir.
Ig Nobel: unhas, vacas e morcegos
Na edição de 2025, dez pesquisas se destacaram. Entre elas, um experimento no qual cientistas pintaram listras no corpo das vacas comprovou que a camuflagem zebrada reduzem as picadas de moscas. Já um outro sobre como o consumo de álcool afetaria a capacidade de voo dos morcegos não deu muito certo, mas foi recompensado pelo esforço.
Francisco Sanchez, biólogo da Universidade dos Llanos, na Colômbia, que estudou justamente os morcegos bêbados, resumiu o espírito da premiação:
“É uma grande honra para nós. É muito bom. Dá para ver que os cientistas não são tão quadrados e sérios, e conseguem se divertir enquanto realizam pesquisas interessantes”.
Outros premiados incluíram um historiador norte-americano que acompanhou o crescimento de suas próprias unhas por 35 anos, uma equipe internacional que analisou as escolhas de lagartos diante de diferentes sabores de pizza e um grupo de pesquisadores italianos que decifrou o segredo do molho cacio e pepe perfeito.
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O molho que virou física
O trabalho sobre o cacio e pepe tinha um objetivo culinário simples: eliminar os grumos de queijo. Mas, como explicou o biofísico Giacomo Bartolucci, da Universidade de Barcelona, o tema envolvia nada menos que a física da separação de fases.
No fim, o estudo foi mais do que ciência aplicada: foi também um motivo para amigos se reunirem em torno de uma panela.
“Somos todos teóricos por formação, então não fazíamos experimentos práticos com frequência. Não havia nenhum professor envolvido, e queríamos apenas nos reunir e trabalhar nisso”, disse Bartolucci.
O valor do absurdo
Para Carly York, bióloga da Universidade Lenoir-Rhyne, pesquisas que soam tolas são, muitas vezes, o embrião de descobertas transformadoras.
“Pesquisas básicas, guiadas pela curiosidade, abriram caminho para alguns dos avanços médicos e tecnológicos mais importantes do século passado.”
A edição de 2025 teve como tema a digestão, com direito a uma mini-ópera intitulada The Plight of the Gastroenterologist (O Infortúnio do gastroenterologista, em tradução livre) e palestras-relâmpago de 24 segundos sobre temas que iam de sorvete a hemorroidas.
Prêmios que não valem em dinheiro, mas rendem carreira
Nada de cheques milionários: os vencedores do Ig Nobel recebem prêmios como um desenho de uma barriga e um lenço umedecido.
Ainda assim, o reconhecimento pesa. No ano passado, a revista Nature registrou que diversos homenageados atribuíram à cerimônia uma guinada positiva em suas carreiras.
E a festa não para na noite da entrega. Nos próximos meses, a Improbable Research organiza eventos “Face to Face” ao redor do mundo, nos quais os cientistas explicam suas pesquisas ao público.
No fim, a filosofia de Abrahams resume o espírito do Ig Nobel:
“Toda grande descoberta, à primeira vista, parecia estranha e ridícula. O mesmo vale para toda descoberta sem valor. Os Prêmios Ig Nobel celebram todas essas descobertas, porque, à primeira vista, quem realmente sabe?”
Entre vacas listradas, morcegos embriagados e panelas de cacio e pepe, a mensagem é clara: a ciência também vive de perguntas improváveis.
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