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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

ELEIÇÕES HERMANAS

Em meio a ‘tempestade perfeita’, uma eleição regional testa a popularidade de Javier Milei entre os argentinos

Eleitores da província de Buenos Aires vão às urnas em momento no qual Milei sofre duras derrotas políticas e atravessa escândalo de corrupção envolvendo diretamente sua própria irmã

Ricardo Gozzi
7 de setembro de 2025
8:08 - atualizado às 17:12
Javier Milei, presidente da Argentina
Javier Milei, presidente da Argentina - Imagem: Montagem Seu Dinheiro / reprodução das redes sociais

Os eleitores da província de Buenos Aires vão às urnas neste domingo (7) para redefinir o Parlamento local. Embora se trate de um pleito regional, a votação testa a popularidade do presidente Javier Milei. Isso em um momento no qual o político radical de direita atravessa uma "tempestade perfeita", em meio a duras derrotas políticas e a um escândalo de corrupção envolvendo diretamente sua própria irmã.

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Trata-se de uma eleição legislativa local, é verdade. Mas ela pode servir de termômetro para o que está por vir na política argentina. Isso porque a província de Buenos Aires concentra cerca de 40% de todo o eleitorado argentino.

Embora a região seja considerada um reduto da centro-esquerda, pesquisas de intenção de voto apontam para um empate técnico entre peronistas e candidatos potencialmente ligados a Javier Milei.

Ao mesmo tempo, a Argentina passará por eleições nacionais de meio de mandato no mês que vem. Tudo em um momento no qual a popularidade do atual presidente encontra-se no ponto mais baixo desde que chegou ao poder, há quase dois anos.

Irmã de Milei envolvida em escândalo de corrupção

O escândalo envolvendo a irmã de Milei eclodiu em agosto.

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Um jornalista local divulgou no mês passado áudios nos quais Diego Spagnuolo, então diretor da Agência Nacional de Deficiência, falava sobre um esquema de propinas envolvendo a empresa Suizo Argentina, uma distribuidora de medicamentos.

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Nas gravações, uma voz que seria de Spagnuolo afirma que altos funcionários do governo, entre eles a irmã de Milei, Karina, e seu principal assessor, Eduardo Menem, teriam recebido subornos de US$ 500 mil e US$ 800 mil em troca de contratos com o governo. Karina Milei receberia uma comissão entre 3% e 4% do valor dos contratos.

“Eu disse a ele, ‘Javier, você sabe que estão roubando, que sua irmã está roubando’”, diz a voz que seria a de Spagnuolo.

A irmã do presidente é também a secretária-geral da presidência.

Não está claro quem capturou o áudio nem quando, mas especula-se que as gravações teriam ocorrido no decorrer dos últimos 12 meses.

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O áudio veio à tona logo depois de Milei ter vetado o aumento de benefícios a pessoas com deficiência, argumentando que isso colocaria em risco o superávit fiscal do governo. Em uma dura derrota política para o presidente, o Senado argentino derrubou o veto na última quinta-feira. Foram 63 votos pela derrubada do veto, contra apenas sete por sua manutenção.

A resposta de Milei

Conhecido pela eloquência, Javier Milei passou seis dias em silêncio depois da eclosão do escândalo.

Poucas horas depois da divulgação das gravações, ele demitiu Spagnuolo, que também era seu advogado pessoal.

Um juiz federal ordenou buscas nos escritórios e residências de Spagnuolo e dos executivos da Suizo Argentina.

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Sob pressão, assessores de Milei contestaram a veracidade das gravações e acusaram a oposição de orquestrar um escândalo para minar as chances eleitorais do governo.

Na última quarta-feira, durante ato de campanha, Milei explodiu ao ser questionado por um repórteres: “É tudo mentira."

O fim do comício foi caótico, com manifestantes atirando pedras na comitiva do presidente.

Vem mais por aí?

No dia seguinte, Milei saiu em defesa da irmã. Ela segue no cargo, mas parece figurar cada vez mais como calcanhar de Aquiles do irmão.

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Logo em seguida vieram à tona gravações de Karina Milei conversando com funcionários dentro de seu gabinete na Casa Rosada.

O teor das falas parece inócuo. No entanto, o jornalista Mauro Federico, responsável pelo áudio de Spagnuolo, afirma ter em mãos quase uma hora de gravações com potencial devastador.

A afirmação deixou o governo argentino em pânico. Manuel Adorni, porta-voz de Milei, alegou que as conversas foram “gravadas ilegalmente” e denunciou o vazamento como “uma operação ilegal de inteligência destinada a desestabilizar o país.”

A polícia realizou buscas nas casas de diversos jornalistas, inclusive a de Mauro Federico, apreendendo laptops, celulares e HDs. Um juiz federal proibiu os meios de comunicação de publicar quaisquer gravações feitas dentro da Casa Rosada.

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Grupos de defesa da liberdade de imprensa protestaram contra a decisão. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, trata-se de “uma das mais sérias ameaças à liberdade de imprensa no país desde o retorno da democracia.”

Em meio ao escândalo, a popularidade de Milei caiu abaixo de 40% pela primeira vez desde que assumiu o cargo, em dezembro de 2023.

Enquanto os mercados financeiros se preparam para mais incertezas, as ações argentinas despencaram e as taxas projetadas dos títulos da dívida dispararam.

Não que os argentinos nunca tenham visto esse filme antes, mas o dólar foi às alturas.

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Isso levou Milei a tomar uma decisão que contraria sua agenda ultraliberal: uma intervenção para deter a desvalorização do peso argentino.

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