Tarifas de Trump podem afastar investimentos estrangeiros em países emergentes, como o Brasil
Taxação pode ter impacto indireto na economia de emergentes ao afastar investidor gringo, mas esse risco também é limitado

A onda de protecionismo que tomou o comércio global por conta das tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaça respingar em uma fonte importante de crescimento para os países emergentes: os investimentos estrangeiros diretos.
No Brasil, que foi taxado em 50%, a maior alíquota anunciada até então, esse pode ser o principal risco caso a tensão com Washington tome proporções ainda maiores.
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Protecionismo vem aumentando no mundo
Desde a Grande Crise Financeira Global, países ricos têm avançado na direção de políticas de protecionismo como a adoção de tarifas.
O número de novas restrições impostas por economias avançadas sobre importações de emergentes cresceu a uma média anual de 8% entre 2009 e 2023, segundo alerta o Banco Internacional de Compensações (BIS, na sigla em inglês), em seu mais recente relatório anual.
Já o total de produtos impactados saltou de cerca de 5% para 62% no período.
"À medida que o protecionismo comercial continua a aumentar, menos investimento estrangeiro direto fluirá das economias avançadas para as emergentes, reduzindo o potencial de crescimento desses países e piorando as perspectivas de convergência econômica entre esses dois mundos", alerta o BIS, considerado o pai dos bancos centrais, com sede em Basileia, na Suíça.
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Tarifas podem inibir investimentos estrangeiros diretos
Nesta semana, os holofotes globais se voltaram para o Brasil, com o presidente Trump taxando todos os produtos brasileiros em 50% a partir de 1º de agosto.
Embora os EUA ocupem a posição de segundo maior parceiro comercial do País, sua relevância em termos de balança comercial é pequena, de menos de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o que deve limitar os danos econômicos no País, segundo economistas. Na pior das hipóteses, pode tirar até 0,4 ponto porcentual do crescimento do Brasil, prevê o Goldman Sachs.
No entanto, o BIS alerta para o fato de que um maior protecionismo pode ter impacto sobre o investimento estrangeiro direto de países emergentes que, por sua vez, também seria uma outra fonte de risco para o avanço do PIB dessas economias.
Nações que receberam uma maior parcela de Investimento Estrangeiro Direto (IED) daquelas que adotam restrições comerciais em pelo menos 50% de suas importações experimentaram um crescimento médio mais lento, conforme o organismo.
"Tudo na economia está relacionado, então uma grande mudança fundamental nas políticas de comércio global certamente poderia afetar muitas outras variáveis, como o investimento estrangeiro direto", diz o co-chefe de títulos soberanos da América Latina da Fitch Ratings, Todd Martinez, em entrevista ao Estadão/Broadcast.
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Para o economista-chefe do banco de investimentos UBS BB, Alexandre de Ázara, a principal preocupação quanto aos impactos da escalada de tensões entre os EUA e o Brasil são exatamente os Investimentos Diretos no País (IDP).
"Se o Brasil for taxado como 'não amigável' pelos EUA, o risco é claramente esse", avalia, em entrevista ao Estadão/Broadcast. Mas, apesar disso, ele não antevê um colapso no volume de IDP.
O Brasil teve ingresso líquido de mais de US$ 30 bilhões em investimento estrangeiro direto no acumulado deste ano até maio, uma queda de quase 1,90% ante o mesmo período de 2024.
O Banco Central espera entrada líquida de US$ 70 bilhões em IDP em 2025, o equivalente a 3,2% do PIB e abaixo dos mais de US$ 71 bilhões registrados no ano passado. O recorde foi em 2022, quando ingressaram US$ 74,6 bilhões no País.
Os norte-americanos respondem por aproximadamente um quarto do total do investimento estrangeiro novo no Brasil. O País, ao lado de Espanha e Portugal, se destacou no apetite externo entre os anos de 2018 e 2024, mostra o Índice de Confiança de IDP do Citi.
"O Brasil sempre contou com fluxos robustos de IED apesar de muitos desafios de competitividade. E a atratividade do País vem do fato de ser um mercado interno muito grande, e isso não vai mudar como resultado da política comercial", avalia Martinez, da Fitch.
Produção pode ser realocada no mundo
Pesquisa recente feita pelo Bank of America indica que as empresas não pretendem fazer um reforço em estratégias de reshoring, ou seja, trazer de volta operações aos seus países de origem, acima da tendência recente por conta das tarifas de Trump.
Por sua vez, pode haver mais nearshoring (comércio entre países mais próximos) ou friendshoring (centralização de negócios entre nações mais amigas).
"É aí que alguns países podem se beneficiar", diz o chefe de Pesquisa Econômica Global do Bank of America (BofA), Claudio Irigoyen, mencionando como exemplos o México e a Índia.
Para o ex-presidente do Federal Reserve (Fed) de Nova York William Dudley, ainda é muito cedo para fazer uma avaliação, porque ninguém sabe onde o regime tarifário dos EUA vai acabar.
Mas uma coisa é certa: as empresas vão diversificar suas fontes de produção em busca de mais flexibilidade para reagir aos surtos de protecionismo comercial, diz.
"Os investimentos têm uma vida útil que se estende por muitos anos. E quem sabe por quanto tempo essas tarifas realmente estarão em vigor?", questiona Dudley.
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