2026 sem alívio: projeções do Itaú indicam juros altos, inflação resistente e dólar quase parado
Cenário deve repetir 2025, apesar de R$ 200 bilhões em impulsos fiscais que turbinam o PIB, mas mantêm pressão nos preços

Quem espera grandes transformações na economia em 2026 pode ter que repensar as expectativas. Os juros não devem cair tanto assim. A inflação não vai arrefecer muito mais. Mesmo o dólar em R$ 5,40 e a taxa de desemprego nas mínimas históricas devem andar de lado.
Essas são as projeções do Itaú para o próximo ano. Em coletiva com a imprensa na terça-feira (24), o economista-chefe do banco, Mário Mesquita, afirmou que o cenário se desenha para repetir a fórmula deste ano:
“Olhando 2026 em relação a 2025, o que vai ajudar a economia são os estímulos fiscais, e o que vai segurar é a política monetária. Naquele padrão brasileiro bem clássico”, disse Mesquita.
E o fato de ser um ano eleitoral entrou na conta. Mesmo considerando cerca de R$ 200 bilhões que devem ser injetados na economia via os inúmeros benefícios promovidos pelo governo federal, a expectativa ainda é de repeteco econômico.
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Juros não vão cair tanto assim
A grande expectativa para a economia brasileira em 2026 é o corte de juros. Do varejo ao mercado financeiro, todos os setores esperam o fim do regime de Selic em 15% ao ano — o maior nível em quase duas décadas.
No entanto, a projeção de redução do Itaú é quase um balde de água fria.
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O banco vislumbra um corte de 225 pontos-base, para os juros fecharem o próximo ano com a Selic a 12,75% ao ano.
Trata-se de uma projeção mais conservadora do que a de economistas consultados pelo Banco Central para o Boletim Focus. Nesta semana, o relatório apresentou uma revisão baixista, com a projeção de juros em 2026 a 12% ao ano.
Mesquita afirmou que a visão do Itaú, de fato, é mais conservadora do que a do mercado.
“O ponto de partida é uma inflação de 4,5% neste ano, sem expectativa de redução significativa diante da política fiscal do próximo ano. No contexto global, não vemos mais cortes de juros nos EUA. Então, não vemos tanto espaço assim para cortes [no Brasil]”, disse Mesquita, que já foi diretor de política econômica do Banco Central.
Projeção do Itaú para a Selic:
- 2025: 15%
- 2026: 12,75%
Inflação na corda bamba
Pode soar estranha a afirmação de que não há expectativa de redução significativa da inflação em 2026, sendo que estamos em clara tendência de queda neste momento — novembro de 2025.
Em outubro, o principal índice de preços do país, o IPCA, foi de 0,09%, e surpreendeu boa parte do mercado ao registrar o menor valor do ano. Para novembro, o IPCA-15, uma prévia da inflação oficial, aponta para 0,18%.
Porém, em 2026, o Itaú não vê espaço para esses movimentos. Mesquita cita apenas um possível gatilho de queda: o preço dos combustíveis.
Há uma expectativa de queda no preço do barril de petróleo no mercado internacional no próximo ano. Se acontecer, os preços de gasolina, diesel, frete, entre outros valores relacionados ao transporte também podem cair.
Na outra ponta, bilhões de reais devem ser despejados na economia na forma de impulsos “eleitoreiros”, o que deve ter efeito contrário: alimentar os preços ao longo do ano.
“Em ano eleitoral, tem estímulos em todas as esferas do governo. Do estadual ao federal, principalmente no primeiro semestre. Finalização de obras, benefícios, de modo geral os custos aumentam”, disse Mesquita. E esses estímulos alimentam a inflação.
Neste ano, o IPCA ganhou um aliado improvável que pode não acompanhar o índice em 2026, o câmbio. A desvalorização do dólar internacionalmente derrubou o preço de alimentos e de produtos industrializados.
Mas isso não deve se repetir em 2026...
Projeções do Itaú para o IPCA
- 2025: 4,5%
- 2026: 4,2%
Dólar: o curinga dos indicadores
As vezes um aliado, as vezes um detrator. Neste ano, a desvalorização do dólar internacionalmente ajudou a acalmar os principais indicadores do Brasil: juros, inflação e câmbio.
Mas isso não foi mérito próprio. Foi demérito dos Estados Unidos.
As políticas comerciais e crises institucionais do governo Donald Trump, a trajetória da dívida norte-americana e cortes nos juros fizeram a moeda perder valor. Em todo o mundo, países emergentes se beneficiaram da situação — o Brasil só seguiu o bonde.
No entanto, o Itaú não vislumbra essa “ajudinha” para 2026. Mesquita acredita que a desvalorização do dólar atingiu um platô, e a moeda deve ficar estagnada. Como o real não tem motivos internos para ganhar valor, o câmbio é mais um indicador que vai andar de lado.
“Não é que os investidores estão otimistas com o dólar, mas estão menos pessimistas. Não tem muito lugar para o capital escoar. Europa e Ásia não têm empresas com capacidade de crescimento como os Estados Unidos com as empresas de tecnologia. No final, o dólar ganha essa competição”, disse Mesquita.
Isso não significa que o dólar vai estacionar e ficar em R$ 5,40 o ano inteiro. A volatilidade da taxa de câmbio é a única constante dessa equação. O que muda é que, ao final do ano, a tendência é quase um zero a zero. Diferente deste ano, em que a diferença é de quase 1 real.
Projeções do Itaú para o dólar:
- 2025: R$ 5,35
- 2026: R$ 5,50
O efeito final na atividade econômica
Segundo o Itaú, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil será de 2,2% neste ano e de 1,7% no próximo. No entanto, quase metade desse resultado (0,8 ponto percentual) se dará por causa dos estímulos “eleitoreiros” previstos pelo governo federal.
A equipe de Mesquita incorporou a maior parte dos benefícios aventados pelo Planalto na mídia:
| Medidas Governamentais | Aporte financeiro (R$) | Impacto incorporado no PIB 2026 |
|---|---|---|
| Consignado privado | 70/80 bilhões | +0,20 p.p. |
| Isenção do IR até R$ 5 mil | 35 bilhões | +0,30 p.p. |
| Ampliação MCMV | 5,6 bilhões | +0,05 p.p. |
| Luz para todos | 7,1 bilhões | +0,03 p.p. |
| Liberação do compulsório da Poupança | 40 bilhões | +0,10 p.p. |
| Crédito para reformas | 40 bilhões | +0,10 p.p. |
Tudo isso resultou em um aumento de 0,8 ponto percentual no PIB. Somente a isenção do imposto de renda para salários até R$ 5 mil aumentou o Produto Interno Bruto em 0,3 ponto percentual.
“A isenção de IR resulta em uma renúncia fiscal de R$ 35 bilhões a R$ 40 bilhões para famílias de renda média. Incorporamos isso aos cálculos, considerando que todo esse dinheiro vai para consumo. Já a compensação da renúncia vai sair praticamente de empresas, o que não penaliza a atividade”, disse Mesquita.
Existe ainda um “risco altista” para o PIB de outros impulsos que são “possibilidades não incorporadas”, como o aumento do Pé-de-Meia e a redução da fila no INSS. Com outros benefícios, o crescimento do PIB pode chegar a 2,1%.
No entanto, a maior parte da atividade econômica se resume a impulsos financeiros do governo. O crescimento que vem da indústria, dos serviços ou mesmo do agronegócio não apresentam o mesmo potencial — uma trava atribuída ao freio de mão da Selic em 15%.
Projeções do Itaú para o crescimento do PIB:
- 2025: 2,2%
- 2026: 1,7%
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