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Iminência do fim do ciclo de alta dos juros e fluxo global favorecem, posicionamento técnico ajuda, mas ruídos fiscais e políticos impõem teto a qualquer eventual rali
Após uma das semanas mais congestionadas por decisões de política monetária no trimestre, os mercados agora tentam reorganizar suas expectativas para o rumo das taxas de juros.
Lá fora, Jerome Powell reconheceu que a guerra tarifária deve sim pressionar a inflação, mas suavizou o possível impacto.
Adicionalmente, o Federal Reserve anunciou a redução no ritmo do Quantitative Tightening — ou seja, o balanço do banco central será enxugado mais lentamente. Menos aperto no curto prazo, mais fôlego para os ativos.
No Brasil, Gabriel Galípolo entregou o que já estava mais do que precificado: a alta contratada da Selic, com uma sinalização discreta de que virá mais um ajuste em maio, menor na dosagem.
Em resumo, caminhamos vagarosamente para o fim do ciclo de aperto por aqui, enquanto os EUA já ensaiam — com cautela e muitas entrelinhas — discussões sobre eventuais cortes de juros. Ou pelo menos permitem que o mercado alimente essa ideia.
E, no caso brasileiro, os milagres são ainda mais improváveis quando o fiscal continua sendo tratado como um detalhe inconveniente.
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A aprovação do Orçamento de 2025 é, claro, positiva — mas não porque resolve algo.
Serve apenas para formalizar o que o mercado já vinha assumindo por conta própria há meses.
Infelizmente, porém, o texto aprovado insiste em vender a ilusão de um superávit improvável, e todos sabem que, mais cedo ou mais tarde, ajustes serão inevitáveis.
A dúvida é se este governo, que tropeça em qualquer tentativa de coerência fiscal, será capaz de conduzi-los.
Nota-se um reconhecimento mais explícito por parte do BC da desaceleração econômica, já denunciada por uma série de indicadores desde o início do ano.
Isso não significa que o ciclo de alta chegou ao fim, mas sim que o final da linha está perigosamente próximo — e só isso já basta para começar a animar os ativos, que andam famintos por qualquer sinal de que a agonia pode estar com os dias contados.
Mas sejamos francos: a política monetária segue tentando conter um incêndio que tem origem, claramente, na irresponsabilidade fiscal. E pior: o fogo não dá sinais de recuo. A conta segue subindo, até porque há um receio de que o governo volte à cartilha populista para tentar reconquistar a classe média.
Lula já flerta com novos pacotes de crédito, uma espécie de pedalada disfarçada de bondade social, mas que na prática equivale a pisar fundo no acelerador com o freio de mão puxado. É fiscalmente desastroso, economicamente contraproducente e politicamente conveniente.
Que fique claro: o problema estrutural continua sendo o apetite insaciável por gastar mal e gastar demais. E pior, o governo não dá o menor sinal de que pretende encarar esse problema de frente.
Ao mesmo tempo, na semana passada, o ministro Fernando Haddad deu duas entrevistas tentando explicar a proposta de isenção do Imposto de Renda.
O problema não é o "quê", mas sim o "como".
O governo conduziu todo o processo de forma desajeitada, com comunicação confusa e timing questionável — e o produto final mais parece um improviso eleitoreiro do que uma política pública robusta.
O esboço da proposta prevê isenção total para quem ganha até R$ 5 mil por mês, um crédito tributário parcial para a faixa de R$ 5 mil a R$ 7 mil, e manutenção das regras atuais para quem recebe acima disso.
Considerando a defasagem absurda da tabela do IR, há um consenso sobre a necessidade de correção. Até a Receita Federal apoia a medida e a aprovação no Congresso deve ser relativamente tranquila.
Para compensar a renúncia de arrecadação com a nova faixa de isenção do Imposto de Renda, o governo propõe a criação de um IR mínimo para quem recebe mais de R$ 50 mil por mês (R$ 600 mil por ano), com alíquotas progressivas que chegam a 10% para rendimentos mensais acima de R$ 100 mil (R$ 1,2 milhão ao ano).
Some-se a isso o efeito da elevação da renda disponível para quem ganha até R$ 5 mil, que tende a incrementar a inflação de alimentos — justo em ano eleitoral.
Isso escancara a distorção estrutural do sistema tributário brasileiro, onde a arrecadação se apoia majoritariamente no consumo, e não na renda.
Ou seja, tributa-se pesadamente os mais pobres, enquanto a base contributiva de renda permanece restrita e ineficaz — razão pela qual a alíquota do IVA na reforma do consumo tende a ser tão elevada.
Mais déficit. Mais inflação. E uma equipe econômica que, mesmo quando tenta manter um verniz técnico, como era o caso de Fernando Haddad, começa a deslizar ladeira abaixo rumo à retórica politizada.
Talvez porque o ministro saiba que, se Lula não for candidato em 2026, ele será o nome natural — apesar de seu histórico pouco animador nas urnas.
O descontrole fiscal foi um dos principais motores da escalada inflacionária — e tudo indica que a desorganização vai se intensificar.
É evidente que a maior parcela de responsabilidade recai sobre Lula e sua ala política, que encara a ciência econômica como um incômodo técnico que atrapalha o discurso. Mas isentar a equipe da Fazenda seria um erro: a omissão, neste caso, já virou conivência.
As contas públicas estão deterioradas, as contas externas idem.
O déficit nominal deve ultrapassar 7% do PIB em 2025, enquanto o déficit em conta corrente se aproxima de 4%.
Um clássico caso de déficits gêmeos — cenário simplesmente insustentável para qualquer economia emergente que ainda queira parecer séria.
A triste verdade é que o atual governo nem tem apetite para reverter esse quadro — e muito menos competência. Se houver alguma chance de ajuste, ela ficará para 2027.
Pelo menos o mercado encontrou algum alento no fato de que o ciclo de aperto monetário parece menos severo do que se temia no final de 2024.
A Selic segue alta, claro, mas o fim da escalada já está no horizonte, e isso naturalmente impulsiona os ativos de risco.
Não por acaso, a percepção de que o Brasil pode ter desempenho superior ao de outros emergentes latino-americanos, como o México, começa a ganhar força entre os gestores.
O fluxo global, com investidores fugindo do excesso de risco e valuation inflado nos EUA, ajuda a empurrar recursos para mercados vistos como mais baratos e tecnicamente mais saudáveis.
Mas há, sim, variáveis internas relevantes: o iminente fim do ciclo de aperto e, cada vez mais, o chamado trade eleitoral.
Paralelamente, o principal nome da oposição, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tenta equilibrar-se num campo minado.
Sua postura recente tem gerado ruído, e qualquer passo em falso pode custar caro.
Ele precisa evitar, ao mesmo tempo, parecer um traidor para a base bolsonarista e um adesista oportunista para o centro político. Um equilíbrio tão sutil quanto instável.
Por ora, ainda não cometeu um erro fatal — mas a linha entre um tropeço tolerável e um desastre irreversível é finíssima.
Apesar disso, os ativos locais seguem surfando o momento.
Estamos próximos das máximas nominais no Ibovespa, mas ainda com múltiplos de valuation bastante descontados — uma combinação rara.
O fluxo global favorece, o posicionamento técnico ajuda, mas sejamos realistas: essa onda tem prazo de validade.
Para que o movimento ganhe tração real, será preciso mais do que capital especulativo ou alívio momentâneo de juros.
O que falta é uma sinalização clara de que, em 2026, o pêndulo político poderá finalmente oscilar para o lado certo: uma agenda reformista, pró-mercado, com responsabilidade fiscal e compromisso com previsibilidade institucional.
Até lá, seguimos onde estamos: no modo cautela.
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