Ditados, superstições e preceitos da Rua
Aqueles que têm um modus operandi e se atêm a ele são vitoriosos. Por sua vez, os indecisos que ora obedecem a um critério, ora a outro, costumam ser alijados do mercado.
Antes de mais nada, convém esclarecer que o termo “Rua”, do título acima, se refere a Wall Street.
Para quase tudo que acontece nos mercados financeiros americanos à vista e de futuros, os traders têm uma explicação. Às vezes, trata-se de uma verdade incontestável; em outras, pura superstição ou mesmo anedota.
Digamos que os caros amigos, leitoras e leitores, tenham uma carteira de ações formada pelos seguintes papéis: Chumbinho, Amalgamated Mining, Western Chemicals e Rent-a-Truck.
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Em duas dessas empresas, Amalgamated e Western, está empatado: não ganha nem perde. Na Rent-a-Truck perde uma nota preta: o papel perdeu metade de seu valor de compra.
Felizmente, a Chumbinho disparou para cima, triplicou de preço e compensou o resultado pífio das demais.
É aí que acontece a armadilha, que derruba boa parte dos investidores: o caro, ou a cara, vende Chumbinho, garantindo o lucro nesse papel, e aplica tudo que recebeu em papéis da Rent-a-Truck, de modo a fazer preço médio. Ou “mérdio”, conforme se costuma dizer no mercado.
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Aí entra o ditado, que deve ser decorado por todos, para que não cometam o mesmo erro:
“Cut your losses, let your profits run.”
Em bom português, numa tradução livre: “Livre-se de seus prejuízos, deixe seus lucros fluírem”.
Um ótimo guia para os traders
Há um outro ditado cujo significado é o mesmo do princípio acima. Trata-se de “Lucro nunca deu prejuízo a ninguém”, uma asneira sem tamanho, cuja aplicação, por um colega meu de trading desk, acabou tirando-o da profissão. Isso aconteceu no início dos anos 1980.
Outro desses mantras, que muitos dizem ter sido criado por mim, mas que na verdade aprendi com meu grande amigo, e analista de metais da Merrill Lynch, Edwin (Ted) Arnold, é o seguinte:
“Mercado que responde bem a notícias ruins, é mercado de alta.”
Esse ditado acima é um ótimo guia para os traders.
Suponhamos que você esteja comprado em Bolsa e o Banco Central do Brasil aumenta a taxa Selic numa dosagem bem acima do esperado. E que, em lugar de cair, como seria de se supor, o Ibovespa dá uma boa arrancada.
Nesse caso, podem comprar. Indicativo melhor não pode haver.
A recíproca é totalmente verdadeira:
“Mercado que responde mal a um fundamento teoricamente ‘bullish’ (altista) é mercado de baixa.”
Exemplo do fenômeno acima ocorreu comigo em 1994.
Eu estava comprado, na minha carteira própria e nas dos meus clientes, em café futuro na CSCE (Coffee, Sugar & Cocoa Exchange), em Nova York.
Ganhávamos verdadeiras fortunas graças a uma geada mortal que atingira os cafezais de São Paulo e do Sul de Minas.
Eis que, à geada, sobreveio uma seca.
Por mais que uma nova alta parecesse óbvia, os preços do café futuro começaram a derivar.
Imediatamente, liquidei todas as posições, antes da inevitável queda, que não demorou a ocorrer.
Foi graças à decisão tomada naquela oportunidade que pude sair de vez da linha de frente do mercado e me dedicar às pesquisas de campo para conclusão de meu primeiro livro, Os Mercadores da Noite. Elas incluíram viagens a Nova York, Chicago, Davenport (Iowa), Londres, Paris e Bruxelas.
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Venda em maio e vá embora
“Sell in May and Go Away.”
Nos Estados Unidos, quando o tempo começa a esquentar, o mercado perde boa parte de sua liquidez. É que muitos traders viajam de férias e só voltam na primeira semana de setembro, logo após o Labor Day (Dia do Trabalho, por lá).
Tanto é assim que essa época é conhecida como Driving Season.
No Brasil, ocorre a mesma coisa, só que do início dos feriados de Fim de Ano até a segunda-feira que sucede ao Carnaval.
“Bulls make money, bears make money, pigs get killed.” (Touros fazem dinheiro, ursos fazem dinheiro, porcos são mortos)
O ensinamento contido no curioso ditado acima é que aqueles que têm um modus operandi e se atêm a ele são vitoriosos. Por sua vez, os indecisos que ora obedecem a um critério, ora a outro, costumam ser alijados do mercado.
A propósito disso, eu escrevi a crônica “Asdrúbal, o pé trocado”, publicada na extinta Resenha BM&F há um quarto de século.
Acho que esse artigo merece um repeteco, coisa que farei na próxima semana.
Um forte abraço,
Ivan Sant'Anna
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