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Renan Sousa
Renan Sousa
É repórter do Seu Dinheiro. Formado em jornalismo na Universidade de São Paulo (ECA-USP) e já passou pela Editora Globo e SpaceMoney. Twitter: @Renan_SanSousa
APÓS ELEIÇÕES

O “Tigre Maia” vai virar um gatinho? A primeira reação do mercado à nova presidente do México — e o que se pode esperar do futuro

Claudia Sheinbaum assumirá a presidência do país em outubro deste ano e já garantiu maioria esmagadora no Congresso

Renan Sousa
Renan Sousa
6 de junho de 2024
6:20 - atualizado às 16:09
Claudia Sheinbaum, nova presidente do México
Claudia Sheinbaum, nova presidente do México - Imagem: Divulgação / Montagem Seu Dinheiro

O México elegeu sua primeira presidente mulher da história no último domingo. Claudia Sheinbaum, de 61 anos e candidata do atual presidente Andrés Manuel López Obrador, tomará à frente do país oficialmente em outubro deste ano. 

Contudo, a ex-prefeita da Cidade do México, capital do país, começou sua nova etapa no Executivo com o pé esquerdo.

De acordo com informações do jornal La Jornada, o principal índice da Bolsa Mexicana de Valores (BMV), o S&P/BMV IPC, teve uma queda de mais de 6% na segunda-feira (3) após a eleição de Sheinbaum. Em determinados momentos do dia, a bolsa mexicana chegou a cair mais de 10%. 

Além disso, o peso mexicano teve uma forte desvalorização frente ao dólar nos dias seguintes à eleição da nova presidente.

Houve uma depreciação de mais de 4% em um único pregão, atingindo uma máxima de 17,80 pesos por dólar — perto das máximas do ano de 18,21. Essa foi a pior queda diária desde o início da pandemia de covid-19 em junho de 2020, segundo o jornal El Financiero

Um Raio-X no México hoje

Contudo, o que poderia ter motivado tamanho desagrado dos investidores? 

Recapitulando um pouco do histórico, o México era considerado um “Tigre Maia” — expressão usada para descrever países cujo crescimento econômico vertiginoso se assemelhava àquele visto em nações do leste asiático na década de 1970. 

Segundo as contas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mexicana é a segunda maior da América Latina, com um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 1,81 trilhão, perdendo apenas para a brasileira, com US$ 2,13 trilhões. Em terceiro lugar vem a Argentina, com US$ 621,83 bilhões. 

Para este ano, a expectativa de crescimento do PIB do México em 2024 caiu 0,15 ponto porcentual, para 2,10%, de acordo com o Banco Central do país, e permaneceu estável em 1,8% para 2025.

Mas, assim como Brasil e Argentina, o México também encara um problema de bilhões pela frente: um aumento dos gastos públicos e a necessidade de redução do déficit fiscal

O calcanhar de Aquiles do Tigre Maia

Na visão do mercado financeiro, o déficit fiscal é um dos problemas de qualquer economia que busca estabilidade, e o caminho para isso seria a busca pelo saneamento das contas públicas — que deveria ser o principal objetivo de qualquer governante. 

No caso brasileiro, o estabelecimento de um novo arcabouço fiscal é quem faz esse papel. Já na Argentina, Javier Milei, presidente do país, é quem está em busca dessa meta

Segundo dados compilados pelo Latinometrics, o déficit fiscal do país chegou a US$ 100 bilhões, ou cerca de 5% do PIB, o maior em 36 anos para o país.

Os principais gastos do México vão para a previdência social, custos envolvendo a dívida do país e recursos destinados a entidades federais. 

CategoriaValor (Bilhões US$)
Proteção SocialUS$ 120.900,00
Custo Financeiro da Dívida e outras DespesasUS$ 74.100,00
Entidades e Municípios FederaisUS$ 74.100,00
Desenvolvimento Econômico: Combustíveis e EnergiaUS$ 64.600,00
EducaçãoUS$ 58.400,00
SaúdeUS$ 56.400,00
GovernoUS$ 31.700,00
Habitação e serviços comunitáriosUS$ 19.600,00
Desenvolvimento Econômico: TransporteUS$ 12.400,00
Outros Desenvolvimentos EconômicosUS$ 9.180,00
Desenvolvimento Econômico: Agricultura, Silvicultura, Pesca e CaçaUS$ 5.330,00
Outro Desenvolvimento SocialUS$ 2.600,00
Dívida de anos fiscais anterioresUS$ 2.600,00
Total de Gastos FederaisUS$ 531.800,00
Receita Federal TotalUS$ 429.900,00
DéficitUS$ 101.900,00
Fonte: Latinometrics

Mais gastos à vista no México?

A plataforma da nova presidente se apresenta como uma continuação e ampliação das políticas de López Obrador. De linha centro-esquerda, há uma expectativa com a reforma constitucional no país, que inclui 20 medidas propostas pelo presidente em 2020. 

A coalizão Sigamos Haciendo Historia é formada pelo Movimiento Regeneración Nacional (Morena) — partido de Sheinbaum e Obrador —, pelo Partido del Trabajo e pelo Verde Ecologista. Inclusive, um dos pontos fortes da plataforma da nova presidente é a transição energética para uma economia mais sustentável. 

Contudo, o que preocupa o mercado local é a extensão do pacote de benefícios sociais, como o projeto de um auxílio complementar para trabalhadores de baixa renda e uma bolsa universal para os estudantes de todos os níveis (do pré-escolar ao equivalente ao ensino médio no Brasil).

Além disso, a nova mandatária quer promover um fortalecimento do Instituto Mexicano del Seguro Social (IMSS-Bienestar), o sistema de saúde público mexicano, por meio de parcerias com entes privados. 

Por fim, no campo econômico, a presidente do México prometeu manter a “austeridade republicana” de Obrador. Contudo, ela afirmou que irá adotar uma “orientação social” dos gastos públicos. 

Equilíbrio de forças no México

Como foi dito, Sheinbaum é a herdeira política de Obrador, e o partido de ambos também deve ter uma vitória acachapante no Congresso do país, garantindo algo entre 346 e 380 de um total de 500 representantes na Câmara e 76 e 88 no Senado de um total de 128.

Vale dizer que a contagem de votos ainda não terminou. Mas, com 95% das urnas apuradas, está claro que o Morena terá ampla maioria nas Casas. 

De acordo com o Barclays e o UBS, o partido da nova presidente não teria maioria imediata de dois terços na Câmara. Porém, teria margem confortável de negociação para aprovar suas propostas.

No Senado, que necessita de pelo menos 85 parlamentares para formar maioria, o Morena também teria um número representativo.

Na visão dos analistas, esse controle do Legislativo “rompe o equilíbrio de força dos Poderes”, sendo que o Executivo e o Legislativo poderiam pressionar o Judiciário a qualquer momento, algo que foi desmentido pelo ainda presidente Obrador. 

Com a palavra, o presidente

Questionado sobre a queda da bolsa mexicana, o ainda presidente Obrador disse que tudo deve se normalizar logo. "Não vai mudar a política econômica que estamos implementando, e isso produziu resultados muito bons", disse ele.

Obrador atribuiu a depreciação do peso mexicano ao cenário macroeconômico. No pregão de ontem, a liquidação massiva de moedas nos países emergentes fez o dólar fechar perto do patamar psicológico de R$ 5,30 aqui no Brasil. 

Analistas enxergaram um movimento de desmonte de apostas em moedas emergentes — tendo como gatilho o tombo do peso mexicano, em meio a temores de mudança da política econômica no México.

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