Acordo com a União Europeia em risco? CEO do Carrefour diz que não venderá carne do Mercosul e compra briga com governo brasileiro
Declaração foi demonstração de apoio às insatisfações dos agricultores franceses, que protestam contra o acordo comercial, e ainda atacou a qualidade da carne dos países do bloco que inclui o Brasil

Uma declaração do CEO da rede de supermercados francesa Carrefour na última quarta-feira (20) causou polêmica com o governo brasileiro e adicionou mais uma pitada de atrito às negociações do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.
Em carta divulgada nas suas redes sociais ontem, o presidente do Carrefour, Alexandre Bompard, afirmou que a varejista se comprometia, a partir de então, a não vender carnes dos países do Mercosul, isto é, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, independentemente dos "preços e quantidades de carne" oferecidos.
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A carta era endereçada a Arnaud Rousseau, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos dos Operadores Agrícolas (FNSEA), que vem organizando atos de protesto, junto com o grupo Jovens Agricultores (JA), contra a proposta do acordo UE-Mercosul.
Os grupos pedem que o presidente francês, Emmanuel Macron, anuncie que vai utilizar o veto da França se o projeto for aprovado. Na última semana, o primeiro-ministro francês, Michel Barnier, disse que o país não deve aceitar o acordo se o texto se mantiver como atualmente proposto.
Na carta divulgada nas redes sociais X (ex-Twitter), LinkedIn e Instagram, Bompard afirmou que a decisão de não comercializar mais a carne de países do bloco sul-americano foi tomada após ouvir o "desânimo e a raiva" dos agricultores franceses.
CEO do Carrefour critica qualidade da carne dos países do Mercosul
Mas o posicionamento do CEO do Carrefour não se limitou ao aspecto comercial. Em sua carta, Bompard também fez insinuações críticas à qualidade da carne dos países do bloco sul-americano.
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Segundo ele, o acordo UE-Mercosul traria o "risco de a produção de carne que não cumpre com seus requisitos e padrões se espalhar pelo mercado francês".
Bompard também destacou que espera que a decisão do Carrefour influencie outras empresas do setor agroalimentar, especialmente do mercado de catering (bufês) que, de acordo com Bompard, é responsável por mais de 30% do consumo de carne na França.
Procurado pelo Estadão Conteúdo, o Grupo Carrefour Brasil afirmou que "nada muda nas operações no País."
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Ministério da Agricultura rechaça declaração do CEO do Carrefour
Em nota divulgada no fim da tarde de ontem, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) rechaçou as declarações de Alexandre Bompard.
"O Mapa lamenta tal postura que, por questões protecionistas, influenciam negativamente o entendimento de consumidores sem quaisquer critérios técnicos que justifiquem tais declarações", criticou o ministério, que disse que não aceitará "tentativas vãs de manchar ou desmerecer a reconhecida qualidade e segurança dos produtos brasileiros e dos compromissos ambientais brasileiros."
"Mais uma vez, o Mapa reitera o compromisso da agropecuária brasileira com a qualidade, sanidade e sustentabilidade dos alimentos produzidos no Brasil para contribuir com a segurança alimentar e nutricional de todo o mundo", defendeu o ministério.
A pasta citou, ainda, o rigor do sistema de defesa agropecuária nacional e o Código Florestal Brasileiro. "O que garante ao País o posto de maior exportador de carne bovina e de aves do mundo, mantendo relações comerciais com aproximadamente 160 países, atendendo aos padrões mais rigorosos, inclusive para a União Europeia que compra e atesta, por meio de suas autoridades sanitárias, a qualidade e sanidade das carnes produzidas no Brasil há mais de 40 anos", destacou, mencionando também os modelos de rastreabilidade do setor privado adotados para o mercado europeu.
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Ação orquestrada de empresas francesas?
Em sua nota, o Ministério da Agricultura disse que seu posicionamento é de não acreditar em movimento orquestrado por parte de empresas francesas para dificultar a formalização do acordo entre Mercosul e União Europeia, debatido na reunião de cúpula do G20 nesta semana.
No entanto, ontem, após participar de jantar com o presidente da China, Xi Jinping, em Brasília, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarou a jornalistas que a situação lhe parecia "uma ação orquestrada de companhias francesas". O ministro disse ainda ter ficado "indignado" com o posicionamento dos franceses.
Fávaro citou a declaração dada pelo diretor financeiro da Danone, Jurgen Esser, veiculada pela agência de notícias Reuters, de que a empresa parou de comprar soja do Brasil e agora adquire o produto de países da Ásia como antecipação à lei antidesmatamento da União Europeia. Diante desse episódio recente, o ministro afirmou que "não faz sentido achar que é coincidência".
Na avaliação do ministro, a declaração do CEO do Carrefour, Alexandre Bompard, aponta "de forma inverídica" as condições de produção brasileira. "De forma a ferir a soberania brasileira, desrespeitando nossa produção, que é sustentável".
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'Pretexto' para que a França não assine o acordo Mercosul-União Europeia
"Me parece que é querendo arrumar o pretexto para que a França não assine e continue com a posição contra a finalização do acordo Mercosul-União Europeia", avaliou o ministro. Em sua visão, era mais "bonito e legítimo" só manter a posição contra o acordo.
"Não precisava ficar procurando pretexto naquilo que não existe na produção sustentável e exemplar brasileira. Eu seria o último das pessoas a apontar qualquer defeito na produção francesa, mas fico indignado quando eles querem fazer isso com o Brasil", completou.
*Com informações do Estadão Conteúdo
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