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Sequência de eventos ao redor da eleição americana e a política monetária do Federal Reserve foram os destaques da temporada
Reza a lenda que o mercado americano fica mais tranquilo durante os meses do verão, pelo simples fato que muitos participantes saem de férias.
Mas toda a “regra” de mercado tem suas exceções, e este último mês foi talvez um dos mais “action packed” desde 2020.
Vamos aqui abordar três temas distintos para os mercados. No final, vamos tentar uma síntese dos três temas para traçar um panorama unificado das perspectivas para os próximos meses.
O primeiro tema foi a sequência frenética de eventos ao redor da eleição americana: tentativa de assassinato de Donald Trump, seguido da desistência de Joe Biden da candidatura e a ascensão (sem concorrência) da Vice, Kamala Harris, como candidata dos Democratas.
Faz mais de um ano que eu tenho argumentado que Donald Trump era forte favorito para ganhar a eleição de outubro. Isso estava sendo confirmado mais e mais nas pesquisas, mostrando que a população não aprovava o governo Biden ou o candidato.
Mas essa tendência virou uma quase certeza depois do debate na CNN, confirmando o que a mídia em geral e os Democratas estavam negando até então: que Biden, de fato, estava sofrendo efeitos cognitivos de sua idade avançada.
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A tentativa de assassinato de Trump deixou os Democratas em pânico não só de perder a eleição presidencial, mas de perder controle das duas casas legislativas.
A movimentação de retirar Biden acabou sendo nada sutil, mas efetivo, e o partido – junto com a mídia “mainstream” – aceitou rapidamente e de forma unificada a candidatura de Harris.
O alívio e euforia de ter evitado uma tragédia eleitoral, que muitos Democratas acreditam ser também uma questão “existencial” para a democracia se Trump voltar ao poder, contaminou a base do partido e tem tido efeito no eleitorado como um todo, como mostram as últimas pesquisas.
Ainda esperamos a escolha do Vice de Harris e o congresso do partido depois das olimpíadas, tudo que deve continuar a favorecer Harris na percepção pública.
Neste momento, Nate Silver – que tem na minha opinião um dos melhores modelos preditivos disponíveis ao público –, tem Trump com 57% versus 43% para Harris de probabilidade de ganhar a eleição.
Essas probabilidades me parecem corretas neste momento, e eu espero que as margens possam fechar ainda mais nas próximas semanas a favor de Harris. Não me surpreenderia se ela tomar uma pequena liderança.
A meu ver, a eleição vai ser definida pelo relativo sucesso de cada campanha de “definir” seu adversário.
Harris está tentando definir Trump como idoso, condenado pela justiça (enquanto ela foi da promotoria do estado da Califórnia), e vai bater forte na questão do direito ao aborto.
Trump vai bater forte no fato de que Harris foi vice de um governo impopular (com ênfase na questão imigratória); que ela sabia da enfermidade de Biden e representa a esquerda do partido.
Ambas as campanhas têm uma quase infinidade de recursos para gastar nos próximos meses nessa guerra de narrativas.
O segundo fator foi uma sequência de dados que tem elevado a probabilidade do Fed sinalizar o início do ciclo de queda de juros na sua reunião de setembro.
Enquanto os dados da atividade para o segundo trimestre surpreenderam positivamente em 2,8% anualizados – aliviando temores de que a economia estivesse desacelerando rapidamente – os dados de inflação continuarão a sinalizar progresso.
Nos dados de junho, o núcleo do PCE em 0,18% (ou 2,18% anualizados).
As expectativas do mercado não foram frustradas. O comunicado da reunião teve mudanças relevantes, indicando uma preocupação assimétrica entre atividade e inflação, um primeiro e necessário movimento para um eventual corte de juros.
Na conferência de imprensa, Powell admitiu que houve um debate sobre iniciar o ciclo de cortes já nesta semana, uma forte dica que eles pretendem ir em setembro.
O último importante evento do mês foi a forte “rotação” dos ganhadores do ano – os “Mag 5” liderados pela NVIDIA – a favor dos “perdedores”, especialmente as “small caps”.
Lembro que na minha última coluna “In NVIDIA we trust?” eu discuti o “bear case” contra a temática AI: os custos de desenvolver as aplicações têm aumentado fortemente sem aparecer uma aplicação clara (o “killer app”) da tecnologia.
Concluí que eu não via “possibilidade de uma mudança estrutural no ranking de performance (entre segmentos da bolsa) até que o mercado comece a seriamente questionar a temática AI”.
Bom, isso aconteceu em julho.
Os mercados começaram o mês bastante bem, com o S&P 500 fazendo uma nova máxima histórica no dia 16, apesar da NVIDIA já ter começado uma forte correção no dia 11 que se espalhou para as outras “Mags”. Alguns dias antes já tinha começado uma forte onda de compras no segmento “small caps” e “value”.
As razões subjacentes e o timing dessa “Grande Rotação” estão sendo bastante debatidos pelo mercado. Que o gap de valuation entre os líderes e o resto do mercado tinham chegado a valores historicamente extremos já era algo bastante reconhecido e não exatamente uma novidade.
Uma explicação mais macro para o timing da rotação seria que o início iminente do ciclo de queda de juros (houve divulgação de dados de inflação nessa direção nesses dias) seria favorável a esses segmentos "baratos" mais sensíveis ao ciclo econômico.
Acho que essa explicação faz sentido, mas não devemos desprezar a temática discutida na nossa última coluna: as crescentes dúvidas sobre a rentabilidade imediata de todos os investimentos sendo feitos perseguindo o sonho da inteligência artificial.
Isso fica claro, por exemplo, vendo a reação do mercado à divulgação dos resultados da Microsoft.
Se não houver alguma surpresa desagradável, o Fed deve de fato cortar os juros em setembro, em um ambiente de bom crescimento econômico (o nowcast do Fed de Atlanta está rodando em 3% anualizados para o terceiro trimestre), solidificando um improvável pouso suave depois do choque inflacionário de 2021-2022. Isso sem dúvida é uma boa notícia para os ativos de risco.
Mas dado o ainda grande gap de valuation gerado nesses últimos dois anos entre as "Mags" e o resto, acredito que a reação a esse cenário monetário benigno deve ser a continuidade da “Grande Rotação”.
Assim, devemos continuar a ver uma disjunção entre a maior volatilidade dos diferentes segmentos da bolsa e os índices – apesar que dado o ainda grande peso dos “Mags” nos índices, acho improvável que o S&P 500 ou Nasdaq façam novas máximas no curto prazo.
Finalmente, a forte incerteza sobre o resultado eleitoral de novembro deve levar o mercado a ignorar a questão política até haver maior certeza sobre o resultado, com, por exemplo, um dos candidatos disparando na frente.
Se isso não acontecer, devemos somente ver uma reação com os resultados na mão em novembro.
*Tony Volpon é economista e ex-diretor do Banco Central.
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