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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

TEMPESTADE PERFEITA

Do Japão ao Ibovespa: 3 coisas que você precisa saber para entender o terremoto financeiro que derruba as bolsas hoje

Alta de juros do banco central japonês e desaceleração da economia dos EUA não estão sozinhos na tempestade perfeita que atinge as bolsas hoje

Ricardo Gozzi
5 de agosto de 2024
10:46 - atualizado às 21:19
Bandeira do Japão com uma rachadura no centro
Um terremoto financeiro derruba as bolsas. Imagem: Dall E

O Japão é conhecido como um dos países com maior incidência de terremotos no mundo. Nesta segunda-feira (5), um outro tipo de tremor originado no país asiático abala duramente as finanças globais e reverbera nas bolsas de valores, incluindo o Ibovespa.

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A bolsa de valores de Tóquio vinha de uma queda de 5,8% na sexta-feira. Hoje, o índice Nikkei despencou 12,4%. Foi a maior queda da bolsa japonesa em número de pontos (4.451,28) em apenas um dia e o pior recuo desde o tombo de 14,9% em 20 de outubro de 1987.

O mercado de ações de Tóquio é o mais afetado globalmente, mas o abalo financeiro emite ondas de choque ao redor do mundo.

Por aqui, o principal índice da B3 abriu em queda de 2%, mas aos poucos atenuou as perdas. Por volta das 12h30 desta segunda-feira a bolsa brasileira recuava 0,8%, aos 124.807 pontos.

No mesmo horário, o dólar comercial subia 0,4%, negociado na faixa de R$ 5,74. Em Nova York, os principais índices de Wall Street caíam mais de 2%.

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O epicentro desse terremoto é facilmente localizável na chamada Super Quarta dos bancos centrais, na semana passada.

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Na decisão de política monetária do BoJ, como é conhecido o banco central do Japão, os juros nipônicos passaram da faixa de 0% a 0,1% para a de 0,15% a 0,25%.

A alta deu continuidade ao aperto monetário iniciado em março, quando o Japão pôs fim a 17 anos de juros negativos no país.

O presidente do BoJ, Kazuo Ueda, aproveitou a ocasião para sinalizar que a autoridade monetária vai continuar subindo os juros gradualmente se as atuais projeções para a economia e inflação no país se confirmarem.

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Isso leva à primeira das três coisas que você precisa saber sobre o terremoto que hoje derruba Wall Street e o Ibovespa.

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1 - Alta dos juros no Japão implodiu o carry trade do iene e abalou bolsas pelo mundo

O carry trade, ou carrego, é a arbitragem conduzida por investidores internacionais de grande porte por meio da qual eles tomam dinheiro emprestado na moeda de um país com taxas de juros baixas e reinvestem o lucro em alguma divisa que permita uma taxa de retorno mais alta.

O carry trade do iene era feito principalmente em cima do dólar.

Como os juros nos Estados Unidos encontram-se há mais de um ano nos níveis mais altos desde 2001 e o Japão vivia com taxas negativas até março, o carry trade do iene tornou-se altamente popular entre os grandes investidores.

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Antes de subir os juros, porém, o BoJ começou a intervir no mercado de câmbio para defender o iene, que estava em níveis historicamente baixos. Isso levou a uma rápida e acentuada valorização da moeda japonesa, acompanhada da depreciação das ações listadas em Tóquio.

Consequentemente, os investidores precisaram vender ativos para financiar as perdas com o carry trade do iene.

2 - Economia dos EUA em desaceleração

A implosão do carry trade do iene é apenas uma das explicações para a forte queda de hoje nas bolsas.

Ainda na Super Quarta da semana passada, o Federal Reserve até sinalizou a intenção de cortar os juros em setembro, mas manteve as taxas de referência nos níveis mais elevados em décadas.

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Logo em seguida à decisão, vieram à tona dados de atividade e emprego sinalizando uma repentina desaceleração da economia dos Estados Unidos. Na sexta-feira, o payroll garantiu uma sessão azeda para os ativos de risco ao redor do mundo.

Entre os investidores, a percepção é de que o Fed segurou os juros em níveis restritivos por tempo demais e poderia ter promovido um corte na reunião do fim de julho.

Hoje, os contratos futuros dos Fed Funds com vencimento em agosto apresentam alta acentuada.

É um sinal da expectativa de que o banco central norte-americano pode se antecipar e cortar os juros antes de sua próxima reunião de política monetária, marcada para 18 de setembro.

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3 - Notícias sobre a Apple e a Nvidia e o pé atrás com a inteligência artificial

Nem só de bancos centrais é feito o terremoto de hoje nas bolsas.

A forte alta das bolsas internacionais no primeiro semestre teve como principal fator de impulsão a disparada das ações das big techs.

Outros setores, porém, não acompanharam o movimento e é crescente a percepção de que a valorização das grandes empresas de tecnologia — em particular aquelas que subiram na onda da inteligência artificial — tem características de bolha.

Os resultados das big techs no segundo trimestre de 2024 vêm, em grande medida, confirmando que as ações de chamadas Sete Magníficas estavam caras demais.

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Em meio ao aumento de juros do BoJ e à desaceleração da economia dos EUA, duas notícias sobre as empresas do setor veiculadas durante o fim de semana desencadearam uma onda de venda desses papéis nesta segunda-feira.

Uma delas refere-se à venda de quase 50% da participação da Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, na Apple.

A outra é de que a Nvidia vai atrasar por pelo menos três meses o lançamento de sua próxima geração de chips de inteligência artificial.

De qualquer modo, embora Wall Street e o Ibovespa tenham amanhecido em meio a fortes perdas hoje, o movimento parece refletir uma correção nos preços dos ativos — e não uma recessão.

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Hoje, em entrevista coletiva concedida após a apresentação dos resultados do segundo trimestre, o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, qualificou a reação dos mercados hoje como “absolutamente extremada”.

*Colaborou Renan Sousa.

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