Após IPO que emperrou com a piora do mercado, 2W Ecobank mira no varejo e explora universo dos serviços financeiros
Nos próximos anos, a 2W Ecobank quer oferecer energia para empresas e também pessoas físicas, oferecendo ainda soluções para os clientes de olho nos temas ESG

A lista de empresas que cogitaram um IPO nos últimos anos mas decidiram esperar um momento melhor do mercado não é pequena. Enquanto a maré não melhora — ou melhor, os juros não abaixam — o jeito é buscar novos caminhos, tanto de negócios quanto para de financiar. Foi assim que a antiga 2W Energia virou 2W Ecobank, enquanto acompanha o humor dos investidores para uma capitalização futura.
Desde 2020 a 2W concentra boa parte de seus esforços no chamado "varejo" do setor de energia. Ou seja, consumidores de pequeno ou médio porte, quase sempre representados por comércios e fábricas menores. Esse tipo de consumidor gasta, em média, R$ 30 mil por mês de conta de energia, conta Cláudio Ribeiro, CEO da companhia.
Estamos falando da padaria do seu bairro ou daquela farmácia que fica logo ali na esquina. É nesse tipo de consumidor que a 2W está mirando não somente na hora de fornecer energia, mas também serviços financeiros — daí a mudança para 2W Ecobank.
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É o modelo de banco como serviço (banking as a service na tradução para o inglês), que aconteceu graças a uma parceria com o Itaú, que faz a mágica acontecer e tudo funcionar.
Além da energia
De olho em pessoas físicas e microempresários, a empresa oferece acompanhamento do consumo de energia desse cliente, faz comparações com o consumo e economia observados no mercado restrito — ou mercado cativo, no jargão do setor, quando um cliente é obrigado a fechar contrato com a Enel, por exemplo — e telemetria.
Outras ideias também foram sendo incorporadas, como a instalação de totens para carregamento de carros elétricos e elaboração de inventário de carbono, para aquele cliente que quer certificar seus consumidores de que possui práticas ecológicas — ou ESG, como falam — no dia a dia de seu negócio.
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Para ter presença no Brasil inteiro, a solução foi contar com consultores próprios e também parceiros, em busca de atrair mais clientes para o que o mercado chama de "mercado livre de energia", ainda bastante desconhecido no Brasil.
Afinal, o mais comum é que uma pessoa feche automaticamente seu contrato de fornecimento com a empresa que atende sua região, sem saber que para empresários é possível acessar outras empresas em busca de melhores preços.
"Para falar com a gráfica lá no interior de São Paulo, eu tinha de oferecer uma plataforma que falasse além do assunto ‘energia’. O consumidor tem medo, então queríamos explicar tudo para ele e ainda trazer conveniência e conforto", afirma Ribeiro.
Hoje, a 2W deseja atender tanto o seu tanto essa gráfica pequena quanto as companhias do "mercado de atacado", as grandonas de seus setores. E, assim que a legislação permitir, ela quer atender você. Sim, você mesmo.
2W na tomada da sua casa
Imagine que você acabou de mudar de apartamento e precisa escolher a internet que vai instalar na sua nova casa. Você pesquisa quais empresas atendem o seu bairro, lembra de uma experiência meio ruim com uma antiga operadora, recebe um folheto de uma outra que nunca ouviu falar, compara os serviços e escolhe aquele que melhor te atende, conforme o preço e suas necessidades.
A próxima onda que a 2W quer surfar é essa, mas com o mercado de energia. Tudo ainda depende do andamento do o Projeto de Lei 414/21, que vai abrir o mercado de energia brasileiro alterando o marco regulatório do setor. A ideia é oferecer mais opções e garantir maior competitividade entre as empresas.
No modelo atual, apenas quem ultrapassa uma demanda mínima de consumo é que pode acessar o mercado e contratar a 2W, por exemplo, ou alguma concorrente sua. Ou seja, apenas empresas acabam tendo acesso e, por consequência, a possibilidade de pagar o preço que for melhor e também trocar o serviço quando não estiver mais feliz com ele.
Em breve, qualquer consumidor pessoa física vai poder comprar energia da empresa que quiser, incluindo a 2W. Também vai ser possível escolher fontes mais limpas de energia, como a solar ou a eólica.
A ideia é que esses planos sejam possíveis a partir de 2024 para os consumidores de alta tensão e em 2026 para o restante da população. Trata-se de um mercado represado de quase 90 milhões de consumidores, que podem movimentar R$ 400 bilhões por ano.
Hoje, a empresa já conta com 3 mil clientes, sendo 700 deles no perfil de "atacado".
"São pelo menos 200 mil empresas que vão poder acessar o mercado livre já em janeiro do ano que vem, endereçando todo um novo mercado. Isso impulsionou o nosso plano de negócios", diz Cláudio Ribeiro.
Geração de energia
Nascida como comercializadora, outra área que a 2W decidiu explorar é a de geração de energia, saindo do básico das comercializadoras que apenas compram e vendem. Olhando para as atividades que já executavam e as capacidades do time, a empresa percebeu que era possível entrar neste tipo de negócio também.
O movimento já havia sido dado também por outras companhias do setor em busca de diversificar sua receita, como a Delta, a Safira e a Capitale, num modelo que permite contratos de mais longo prazo e competitividade entre si.
Assim, a 2W investiu mais de R$ 750 milhões no parque eólico Anemus, localizado em Currais Novos e São Vicente, no Rio Grande do Norte. O complexo conta com 33 geradores e capacidade instalada de 138,6 MW, capazes de produzir mais de 60 milhões de kWh por mês.
Um outro investimento foi feito na construção do complexo eólico Kaipós, localizado em Icapuí, no Ceará. Com capacidade instalada de 261 MW, exigiu um investimento de R$ 1,5 bilhão.
Para financiar tudo isso, o caminho foi acessar o mercado de dívida e utilizar debêntures, além de contar com R$ 275 milhões do Banco do Nordeste (BNB), que serão pagos em 24 anos.
Anteriormente, a empresa já havia captado R$ 147 milhões com o banco para o complexo Kairós. Também foram necessários mais R$ 228 milhões, que vieram via equity.
Vem IPO por aí?
A 2W encaminhou seu IPO (oferta pública inicial de ações na sigla em inglês) em 2020, mas não concluiu o projeto por conta das dificuldades trazidas pela pandemia e que atingiram o mercado e a confiança dos investidores.
De lá para cá, a pandemia deixou de assombrar, mas outras questões como eleições, crise econômica e risco fiscal fizeram o mercado de capitais emperrar e simplesmente nenhuma oferta parece estar nem perto de ser feita.
A possibilidade de um IPO continua no radar, diz o executivo, mas ele prefere ainda ir sentindo a temperatura antes de tomar esse passo. Hoje, a 2W considera essa oferta tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, além de não descartar um aporte privado de capital. No total, o CEO estima que seria necessário levantar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,3 bilhão.
"O IPO vem por conveniência ou necessidade e a necessidade nós não temos. Olhamos o mercado aqui e lá fora, mas no exterior as ofertas são maiores, o que nos traz preocupação com a liquidez do papel. Mas estudamos todos os cenários", afirma o CEO.
A dificuldade mesmo parece ser enxergar uma luz no fim do túnel do mercado de capitais, que seja capaz de abrir espaço para novas ofertas.
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